
Danielle Steel

Cinco Dias em Paris


Crculo de Leitores

Traduo de GABRIELA CORTE-REAL

Ttulo original: FIVE DAYS IN PARIS
Foto da capa:
CASA DA IMAGEM MICHAEL MALYsZKO
Copyright 'O 1995 by Danielle Steel impresso e encadernado para Crculo de Leitores por Printer Portuguesa, Casais de Mem Martins, Rio de Mouro em Setembro de 2OOO 
Nmero de edio: 4998 Depsito legal nmero 154 2881OO ISBN 972-42-2334-5
Nunca percas a esperana, e se puderes,
arranja coragem para voltar a amar.
D. S.

Cinco minutos ... cinco dias...
e, num s instante, toda uma vida alterada para sempre.
CAPTULO 1
O tempo em Paris estava invulgarmente quente quando o avio de Peter Haskell aterrou no Aeroporto Charles de Gaulle. O aparelho estacou mesmo junto  porta de sada 
e, poucos minutos depois, Peter, de pasta na mo, atravessava o aeroporto a passos largos. Quase sorria ao aproximar-se da alfndega, apesar do calor e da quantidade 
de pessoas  sua frente na fila. Peter Haskell adorava Paris.
Vinha  Europa geralmente quatro ou cinco vezes por ano. O imprio farmacutico que dirigia tinha centros de pesquisa na Alemanha, na Sua e em Frana e enormes 
laboratrios e fabricas em Inglaterra. Era sempre interessante visit-lo, trocar ideias com as equipas de pesquisa e explorar novas vias de mercado, o seu verdadeiro 
ponto forte. Porm, desta vez tratava-se de mais do que disso, muito mais do que uma mera viagem de prospeco ou o lanamento de um novo produto. Viera para assistir 
ao nascimento do "seu beb". Vicotec. O sonho da sua vida. Vicotec ia modificar a existncia de todos os doentes de cancro. Ia alterar significativamente os programas 
de manuteno e a natureza da quimioterapia em todo o mundo. Seria uma enorme contribuio de Peter a favor da raa humana. Durante os ltimos quatro anos, exceptuando 
a famlia, fora a sua razo de viver. E sem dvida iria render milhes  Wilson-Donovan. Muito mais, obviamente: os seus estudos apontavam j lucros para os primeiros 
cinco anos bem acima do bilio de dlares. Mas no era isso o principal para Peter. O principal era a vida, e a qualidade das obs-
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curas existncias severamente atingidas, quais velas a apagar-se na negra noite do cancro. Vicotec ia ajud-las. De incio, parecia um sonho utpico, mas agora estavam 
a pouca distncia da vitria final; um arrepio percorria Peter sempre que pensava no que estava prestes a acontecer.
At hoje, os resultados mais recentes eram perfeitos. Os encontros que tivera na Alemanha e na Sua haviam sido excelentes. Os testes nos laboratrios da sua empresa 
eram ainda. mais rigorosos do que os efectuados na Amrica. Agora, no restavam dvidas. O medicamento era seguro. Podiam passar  fase das experincias em seres 
humanos, mal a F13A1 o aprovasse, o que significava administrar doses baixas a um nmero seleccionado de voluntrios, devidamente esclarecidos, e ver como reagiam.
A Wilson-Donovan j apresentara o seu requerimento  FDA em Janeiro, alguns meses antes. Baseados nas informaes obtidas desde ento, iam pedir que o Vicotec fosse 
includo nas "Prioridades", sendo autorizadas as experincias nos seres humanos, e rapidamente aprovado, logo que a FDA verificasse o seu grau de segurana e a Wilson-Donovan 
lho provasse. Usava-se o processo de "Prioridades" para apressar os vrios passos at  aprovao, no caso de medicamentos destinados a doenas mortais. Logo que 
obtivessem a aprovao da FDA, iriam comear com um grupo de cem pessoas que assinariam contratos de consentimento, em que estariam especificados os perigos potenciais 
do tratamento. Todos esses doentes se encontravam em fases to deses-
1 Food and Drug Administration, organismo dos EUA que tem por misso, entre outras coisas, zelar pela segurana dos medicamentos a introduzir no mercado. (N. do 
E.)
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peradas que essa seria a sua nica esperana, e eles sabiam-no. Pessoas que concordassem com experincias deste tipo ficariam gratas por qualquer esperana que se 
lhes desse.
A Wilson.-Donovan pretendia prosseguir o mais rapidamente possvel com os testes clnicos, razo por que era to importante testar a segurana do Vicotec agora, 
antes dos interrogatrios da FDA em Setembro, o que certamente o levaria a ser includo nas "Prioridades". Peter tinha a certeza absoluta de que o teste em fase 
de concluso levado a cabo por Paul-Louis Suchard, director do laboratrio de Paris, confirmaria as boas notcias que acabava de receber em Genebra.
- Frias ou negcios, monsieur? - O funcionrio aduaneiro carimbava, distrado, o passaporte de Peter e mal o olhou depois de ver a fotografia. Peter tinha olhos 
azuis e cabelo escuro, aparentando menos do que os seus quarenta e quatro anos. De feies correctas e alto, a maioria das pessoas admitiria ser um homem muito bem-parecido.
- Negcios - respondeu, quase orgulhosamente. Vicotec. Vitria. Salvao para todas as vtimas dos horrveis sofrimentos causados pela quimioterapia e pelo cancro.
O funcionrio entregou o passaporte a Peter, que pegou na mala e saiu para apanhar um txi. Brilhava um glorioso Sol de junho e, sem nada para fazer em Genebra, 
Peter viera para Paris um dia mais cedo. Adorava estar naquela cidade e seria fcil arranjar com que se entreter, nem que fosse um grande passeio ao longo do Sena. 
Ou talvez Suchard concordasse em encontrar-se com ele mais cedo do que o planeado, apesar de ser domingo. Ainda era cedo e no tivera sequer tempo para
telefonar a Suchard. Suchard era muito francs, muito srio, um pouco rigoroso de mais. Peter ia telefonar-lhe do hotel e ver se ele estava livre e disposto a alterar 
a data do encontro.
No decorrer dos anos, Peter aprendera a falar um pouco de francs, embora todos os seus assuntos com Suchard fossem tratados em ingls. Peter Haskell adquirira amplos 
conhecimentos desde que deixara o Midwest. Era bvio, at para os homens da alfndega do Charles de Gaulle, que Peter Haskell era um homem importante, de considervel 
inteligncia e sofisticao. Frio, calmo e forte, irradiava autoconfiana. Aos quarenta e quatro anos, era o presidente de uma das maiores sociedades farmacuticas 
do mundo. No era um cientista, era um homem de negcios, tal como Frank Donovan, o administrador-geral. E por coincidncia, dezoito anos antes Peter Haskell casara 
com a filha de Frank. No fora um golpe oportunista da sua parte, nem sequer um acto calculista. Aos olhos de Peter, fora um acaso, uma ironia do destino, contra 
a qual combatera durante os primeiros seis anos desde que conhecera Katie.
Peter no queria casar com Kate Donovan. Nem sequer lhe interessava saber quem ela era quando se conheceram, tinha a jovem dezanove anos e ele vinte, na Universidade 
de Michigan. De incio, no passara de uma bonita universitria loura que encontrara num convvio, mas, aps duas sadas, estava louco por ela. Andavam juntos h 
cinco meses quando algum insinuara, por piada, que ele era um espertalho por andar com a linda Katie. E explicara-lhe porqu. A rapariga era a nica herdeira da 
fortuna da Wson-Donovan, a maior firma farmacutica do pas. Peter ficara estupefacto, e
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furioso por esta no lho ter revelado, cheio daquele furor e ingenuidade prprios de um rapaz de vinte anos.
- Como pudeste fazer isso? Porque  que no me contaste? - berrara-lhe ele.
- Contar-te o qu? Quem  o meu pai? No pensei que isso te preocupasse.
Desesperara-a o ataque dele, o qual, bastante mais do que ligeiramente assustado, no se desculpara. Kate compreendera ento at que ponto Peter era orgulhoso e 
as dificuldades por que passavam os seus pais. O jovem contara-lhe que apenas nesse ano haviam finalmente conseguido comprar a explorao leiteira onde o pai trabalhara 
toda a vida. Estava hipotecada at ao telhado e Peter permanentemente preocupado com a possibilidade de o negcio falir; nesse caso teria de desistir dos estudos 
e regressar ao Wisconsin, para os ajudar.
- Percebes perfeitamente a razo por que tenho de me "preocupar". O que hei-de fazer agora?
Sabia melhor do que ningum que no poderia competir com o mundo dela, que no era e nunca seria o seu; tambm era bvio para ele que Katie nunca conseguiria viver 
numa quinta no Wisconsin. A jovem conhecia j parte do mundo e era muito mais sofisticada do que aparentava. O verdadeiro problema residia no facto de tambm ele 
no se sentir bem enquadrado no seu prprio mundo. No importava o quanto se esforava por ser "um deles", dos de casa; sempre houvera em si algo de diferente, de 
muito mais citadino. Peter detestara viver numa quinta, em criana, e j ento sonhava ir para Chicago ou para Nova Iorque, a fim de se integrar no mundo dos negcios. 
Detestava mungir vacas, atar fardos de palha e limpar continuamente o esterco dos estbulos. Durante anos, depois da escola, ajudara o pai
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na quinta que este dirigira, e de que agora era o dono. E Peter sabia o que isso significava. Acabaria por ter de voltar para casa, quando terminasse os estudos, 
e ajud-los. Tal facto aterrorizava-o, mas no via uma sada fcil. Acreditava que devia fazer o que era suposto que fizesse, vivendo de acordo com as suas responsabilidades, 
num percurso sem atalhos. Sempre fora um bom rapaz, dizia a me, mesmo que para isso tivesse de trabalhar arduamente. Estava preparado para lutar por aquilo que 
queria.
Assim, quando soube quem era Katie, achou errado envolver-se com ela. No importava que fosse sincero; daria sempre a impresso de um expediente fcil, um rpido 
salto para o topo. Tambm no importava que ela fosse linda ou que ele estivesse, segundo julgava, apaixonado; sabia que no havia nada a fazer. Mostrou-se to inflexvel, 
que acabaram o namoro cerca de duas semanas depois de saber a verdade, e nenhum dos argumentos da jovem o demovera. Katie ficou perturbadssima e ele muito mais 
triste por a perder do que alguma vez lhe confessara. Decorria o ano do seu alistamento e em junho fora para casa, para o Wisconsin, dar apoio ao pai. No final do 
Vero, decidira ficar mais um ano para o ajudar a desenvolver o negcio. O Inverno anterior fora duro, e Peter achava que poderia melhorar as coisas com algumas 
ideias e tcnicas novas que aprendera na Faculdade.
Talvez o tivesse conseguido, mas ficara apurado e fora enviado para o Vietname. Passou um ano perto de Da Nang e, quando o seleccionaram para uma segunda comisso, 
puseram-no a trabalhar nos Servios Secretos, em Saigo. Fora um tempo confuso para Peter. Tinha vinte e dois anos ao deixar o Vietname e no encontra-
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ra nenhuma das respostas que procurava. No sabia o que fazer com o resto da vida e no queria voltar a trabalhar na quinta do pai, mas achava que deveria faz-lo. 
A me morrera durante a sua permanncia no Vietname; sabia quanto isso fora penoso para o pai.
Faltava-lhe um ano da faculdade, mas no queria voltar para a Universidade de Michigan; de certa forma sentia que ultrapassara a idade de o fazer. E tambm se sentia 
confuso acerca do Vietname. Acabara por gostar do pas que quisera odiar, que tanto o atormentara, e a verdade  que tivera pena de o deixar. Vivera por l meia 
dzia de casos amorosos sem significado, a maior parte deles com pessoal militar americano, e um com uma linda vietnamita; no entanto, tudo era demasiado complicado, 
as relaes inevitavelmente afectadas pelo facto de ningum ter grandes esperanas de estar vivo no dia seguinte. No voltara a contactar Katie Donovan, apesar de 
ter recebido um carto de Natal seu, que lhe fora reenviado do Wisconsin. Pensara bastante nela nos primeiros tempos em Da Nang, mas parecera-lhe sempre mais simples 
no lhe escrever. O que poderia dizer-lhe? "Lamento que sejas to rica e eu to pobre... Boa sorte para ti no Connecticut, eu vou passar o resto da vida a limpar 
estrume numa vacaria...  assim ... "
Mal regressara, porm, tornara-se bvio para todos no Wisconsin que uma vez mais ele no se adaptava, chegando o pai a pression-lo para que procurasse emprego em 
Chicago. Encontrara um com facilidade numa firma comercial, fora estudar  noite, obtivera o seu diploma e estava h muito pouco no seu primeiro emprego quando, 
numa festa dada por um velho amigo do Michigan, deparara com Katie. A rapariga mudara-se e nessa altura vivia em Chicago, prestes a diplomar-se em
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Northwestern. Quando a reencontrara, ficara sem fala. Estava mais bonita do que nunca. H j quase trs anos que a vira pela ltima vez. E sentira-se aturdido ao 
verificar que, apesar de se ter mantido afastado dela, o facto de v-la o perturbava ainda interiormente.
- O que ests a fazer aqui? - perguntara, nervoso, como se fosse normal a rapariga existir apenas na memria dos seus tempos escolares. Ela fora uma obsesso durante 
meses depois de abandonar a faculdade, e especialmente aquando do seu primeiro alistamento. Mas h muito que a relegara para o passado, esperanado em que a se 
manteria. V-la catapultava-a subitamente para o Presente.
- Estou a acabar o curso - respondera ela, sustendo a respirao enquanto o olhava. Parecia mais alto e mais magro, os seus olhos mais azuis e o cabelo ainda mais 
escuro do que se lembrava. O jovem mostrava-se mais forte e mais entusiasta do que nas ltimas recordaes que dele guardava. Nunca o esquecera. Fora o nico homem 
que a deixara por ela ser quem era, pelo que pensava nunca poder dar-lhe. - Ouvi dizer que estiveste no Vietname - comentara, docemente, e ele confirmara com um 
aceno de cabea. - Deve ter sido horrvel...
Tinha tanto medo de o assustar de novo, de dar qualquer passo terrivelmente errado! Sabia at que ponto era orgulhoso e, s de olh-lo, percebera que nunca seria 
ele a aproximar-se. Tambm Peter a observava. Interrogava-se sobre como ela seria agora e o que pretenderia dele. No entanto, parecera-lhe to inocente, apesar do 
meio aparentemente sinistro em que se movia e da ameaa que se convencera que ela representava! Porque aos seus olhos, Katie fora uma ameaa  sua integri-
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dade e um elo insustentvel entre um passado que ele j no podia viver e um futuro que ambicionava, mas que no tinha a mnima ideia de como alcanar. Tendo aprendido 
tanto do mundo desde que se haviam encontrado pela ltima vez, ao olhar para ela nada lhe ocorrera daquilo que em tempos tanto temera. No lhe parecia agora to 
assustadora, via-a muito jovem, muito pura, e irresistivelmente atraente.
Nessa noite, conversaram horas a fio; por fim, acompanhara-a at casa. E ento, embora soubesse que no devia faz-lo, telefonara-lhe. Ao princpio tudo parecera 
to simples, at dissera para consigo que poderiam ser apenas amigos, no que nenhum deles acreditava. Tudo o que sentia era o desejo forte de estar junto dela. Era 
alegre e divertida, entendia as suas loucuras, o facto de no se adaptar a lugar nenhum e no saber o que fazer da vida. Talvez longe, longe do caminho traado, 
ele quisesse mudar o mundo, ou pelo menos alter-lo um pouco. A rapariga era a nica pessoa que percebia a sua ideia. Deixara morrer tantos sonhos, to nobres intenes! 
E agora, vinte anos mais tarde, com o Vicotec, todos esses sonhos renasciam.
Peter Haskell chamou um txi; o motorista meteu na bagageira a mala e aquiesceu com um gesto de cabea quando o cliente lhe disse para onde ia. Tudo em Peter Haskell 
sugeria um homem de pulso, um homem de grande estatura. E todavia, nos seus olhos podia ler-se gentileza, fora, integridade, um corao generoso e sentido de humor. 
Em Peter Haskell havia mais do que os fatos de bom corte, as camisas brancas engomadas, as gravatas Herms que usava e a pasta cara e requintada.
-Est quente, no est? - comentou Peter a caminho da cidade; uma vez mais o motorista acenou
com a cabea, concordando. Percebia pelo seu sotaque ao falar francs que se tratava de um americano, mas falara correctamente, e o motorista respondeu-lhe em francs, 
pausadamente para que Peter o compreendesse.
- H uma semana que o tempo est bom. O senhor vem da Amrica? - perguntou, com interesse. Era assim que as pessoas respondiam a Peter, ele atraa-as, mesmo sem 
motivo aparente. O facto de se lhe ter dirigido em francs impressionara bem o motorista.
- Venho de Genebra - explicou Peter, e um novo silncio se instalou. Peter sorriu intimamente, lembrando-se de Katie. Sempre desejara que ela viajasse consigo, mas 
a mulher nunca o fazia. Ao princpio, as crianas eram pequenas, mais tarde o seu prprio mundo e as suas infinitas obrigaes retinham-na. No o acompanhara em 
mais do que uma ou duas viagens de negcios, ao longo dos anos. Uma vez a Londres e outra  Sua, nunca a Paris.
Paris era especial para ele, era o culminar de tudo aquilo com que sempre sonhara sem sequer saber que o desejava. Trabalhara tanto para obter o que tinha, durante 
anos, mesmo que uma parte parecesse ter-lhe cado do cu! Sabia melhor do que ningum que no cara. No existe man na vida. Trabalha-se para se ganhar o que se 
tem, ou ento no se tem nada.
Andara com Katie dois anos, depois do reencontro. Acabado o curso, a rapariga ficara em Chicago e arranjara trabalho numa galeria de arte, s para estar perto de 
Peter. Era louca por ele, mas Peter repetia intransigentemente que nunca se casariam. E continuara a insistir em que acabariam por ter de se separar, acabando ela 
por regressar a Nova Iorque e conhecer outros homens. Nunca, porm, conseguira afastar-se nem, verdade seja
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dita, induzi-la a ser ela a faz-lo. Por essa altura estavam j demasiadamente presos um ao outro e Katie sabia que ele a amava de verdade. Por fim, o pai dela interviera. 
Era um homem inteligente. No dissera uma palavra a Peter sobre a relao de ambos, apenas falara do seu negcio. Instintivamente, sabia ser esse o nico meio de 
arrancar Peter  sua posio defensiva. Frank Donovan queria Peter e a filha de volta a Nova Iorque e fizera o que estava ao seu alcance para ajudar Katie a convenc-lo.
Tal com Peter, Frank Donovan era um homem de negcios. Abordara Peter sobre a sua carreira, os seus planos, o seu futuro e, gostando do que ouvira, oferecera-lhe 
emprego na Wilson-Donovan. No mencionara Katie; ou melhor, insistira em que o emprego no tinha nada a ver com ela. Assegurara a Peter que trabalhar para a Wilson-Donovan 
faria maravilhas pela sua carreira e garantira-lhe que ningum pensaria nunca que esse emprego estava de qualquer modo relacionado com Katie. A ligao de ambos, 
segundo Frank, era um assunto totalmente  parte. Mas era um emprego em que valia a pena pensar, e Peter sabia-o. A despeito de todos os seus temores nessa poca, 
um emprego numa importantssima firma de Nova Iorque era exactamente o que ele desejava - e o mesmo desejava Katie.
Torturara-se com o problema, debatera-o mentalmente sem cessar, e at o seu pai achara que era uma oportunidade nica, quando Peter lhe telefonara para abordar o 
assunto. Peter fora a casa, ao Wisconsin, para conversar com ele durante um longo fim-de-semana. O pai pretendia a lua para o filho e encorajara-o a aceitar a oferta 
de Donovan. Via em Peter algo que nem este compreendera ainda: qualidades de liderana que
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poucos homens possuem uma fora controlada e uma coragem rara. O pai sabia que, fizesse Peter o que fizesse, o faria bem. E sentia que o emprego na Wilson-Donavan 
era apenas o comeo. Costumava brincar com a me de Peter, no passava este de um garoto, dizendo-lhe que um dia o pequeno seria presidente, ou pelo menos governador 
do Wisconsin. E, s vezes, ela acreditava. Era fcil acreditar em grandes feitos quando se tratava de Peter.
A irm, Muriel, dizia o mesmo. Para ela, o seu irmo Peter fora sempre um heri, muito antes de Chicago ou do Vietname, at antes de ele ir para a faculdade. Havia 
no rapaz algo de especial. Toda a gente o sabia. E repetira-lhe as palavras do pai: "Vai para Nova Iorque, ganhar o teu lugar ao sol." Chegara mesmo a perguntar 
se ele tencionava casar com Katie, mas ele afirmara que no, o que a entristecera. Pelas fotografias com que Peter andava, Muriel achava Katie encantadora e excitante, 
alm de bonita.
H muito que o pai o convidara a traz-la consigo, mas Peter sempre insistira em que no queria dar-lhe falsas esperanas quanto ao futuro de ambos. Provavelmente, 
a rapariga sentir-se-ia em casa e aprenderia com Muriel a mungir vacas, e depois? Era tudo o que ele tinha para oferecer-lhe e por nada deste mundo arrastaria Katie 
para a dura vida em que ele prprio crescera. Na sua opinio, fora essa vida que lhe matara a me. A me morrera de cancro, sem cuidados mdicos adequados, sem dinheiro 
para os pagar. O pai nem um seguro tinha. Sempre achara que a me morrera de pobreza, de fadiga e de demasiado sofrimento durante toda a vida. E mesmo com o dinheiro 
de Katie a apoi-la, amava-a de mais para a condenar a uma tal existncia, at mesmo
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a conhec-la de perto. Aos vinte e dois anos, a sua irm
j parecia exausta. Casara logo que acabara o liceu, esta
va ele no Vietname, e tivera trs filhos em trs anos do
rapaz que comeara a namorar no liceu. Aos vinte e um
anos, era uma mulher gasta, triste. Ansiava por muito
mais para ela, mas bastara-lhe observ-la para perceber
que ela nunca o alcanaria. Nunca sara dali. No fora
sequer para a faculdade. E agora cara numa armadilha.
Peter sabia, e a irm tambm, que ela e o marido traba
lhariam toda a vida na quinta do pai, a menos que este a
perdesse, ou que morressem. No havia alternativa. Ex
cepto para Peter. E, em Muriel, nem ressentimento
existia. Sentia-se feliz por ele. Para o irmo, o mar abri
ra-se e tudo o que este tinha a fazer era seguir a rota
que Frank Donovan lhe traara.
- Faz isso, Peter - segredara-lhe Muriel quando ele fora a casa falar com eles. - Vai para Nova Iorque. O pai quer que vs - acrescentara, generosa. - Todos queremos.
Era como se todos o aconselhassem a salvar-se, a evadir-se, a libertar-se da vida que o iria submergir, se ele o permitisse. Instavam-no a ir para Nova Iorque, a 
tentar o caminho do sucesso.
Apertava-lhe a garganta um n do tamanho de uma rocha quando partira da fazenda nesse fim-de-semana. O pai e Muriel ficaram a v-lo afastar-se, sempre a acenar at 
o carro desaparecer por completo. Era como se os trs soubessem quanto era importante esse momento da sua vida. Mais do que a faculdade. Mais do que o Vietname. 
No fundo do corao, e da alma, cortava as suas amarras  quinta onde nascera.
De regresso a Chicago, passara a noite sozinho. No telefonara a Katie. Mas telefonara ao pai dela na manh
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seguinte. E, com as mos a tremer ao segurar o telefone, aceitara a sua oferta.
Comeara a trabalhar na Wilson-Donovan duas semanas mais tarde, exactamente, e uma vez instalado em Nova Iorque no havia manh em que no acordasse com a sensao 
de ter ganho o derby do Kentucky.
Katie trabalhara numa galeria de arte em Chicago, como recepcionista, e deixara o emprego no dia em que ele partira, regressando para junto do pai, em Nova Iorque. 
Frank Donovan estava encantado. O seu plano resultara. Tinha em casa a sua menina. E ainda ganhara um novo e brilhante colaborador. O negcio fora bom sob todos 
os aspectos.
Durante vrios meses, Peter concentrara-se mais nos negcios do que no seu caso amoroso. Ao princpio, isso aborrecera Katie, mas, quando se queixara ao pai, este 
aconselhara-a a ser paciente. Por vezes, Peter descontraa-se, ficava menos ansioso em relao aos projectos inacabados que tinha no escritrio. Todavia, a sua regra 
era fazer tudo com perfeio, para justificar a confiana que Frank sempre nele depositara a mostrar-lhe quanto lhe estava grato por isso.
Nem sequer voltara ao Wisconsin, nunca tinha oportunidade. Mas com o decorrer do tempo comeara, para grande alvio de Katie, a arranjar mais espao na sua vida 
para um pouco de diverso. Foram a festas, a jogos, ela apresentara-o a todos os seus amigos. E Peter surpreendera-se ao verificar quanto estes lhe agradavam e com 
que facilidade se adaptava ao mundo deles.
Pouco a pouco, ao longo dos meses seguintes, todas as coisas que anteriormente o aterrorizavam, relacionadas com Katie, iam parecendo a Peter menos preocupantes. 
De facto, todos pareciam gostar dele e aceit-
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_lo. E, embalados por uma onda de boas sensaes, ele e Katie ficaram noivos nesse mesmo ano, o que no surpreendera ningum, excepto talvez o prprio Peter. Mas 
conhecia-a h tempo suficiente e acabara por sentir-se to bem no seu meio que era como se dele fizesse parte. Frank Donovan comentara que era inevitvel, e Katie 
sorrira. Nem por um instante duvidara de que Peter era o homem certo para si. Sempre o soubera e sempre tivera a certeza absoluta de desejar ser sua mulher.
A irm de Peter, Muriel, ficara radiante quando ele lhe telefonara a dar a novidade e, afinal, fora o pai o nico a pr objeces  unio, para grande desapontamento 
de Peter. Apesar de ter achado o emprego na
Wilson-Donovan uma ptima oportunidade, o pai era contra o casamento. E estava absolutamente convencido da possibilidade de Peter vir a lament-lo a vida inteira.
- Sers sempre um marido alugado se casares com ela, meu filho. Est errado,  injusto, mas  assim. Sempre que olharem para ti, ver-te-o como eras antes, no como 
s no momento.
Peter no acreditava nisso. Tornara-se homem no mundo dela. Agora, era um deles. E ao seu prprio mundo, comeava a senti-lo como parte de uma outra vida; no se 
reconhecia em nada, era um estranho. Como se tivesse crescido no Wisconsin por acaso, ou como se tivesse sido outra pessoa qualquer e no ele quem na realidade a 
vivera. At o Vietname se lhe afigurava mais real do que os seus primeiros anos na quinta do Wisconsin. Chegava a ser-lhe difcil acreditar que passa-
ra l mais de vinte anos. Em pouco mais de um ano, Peter transformara-se num homem de negcios, um
homem mundano, um nova-iorquino. A famlia continuava a ser-lhe querida, e s-lo-ia sempre. Porm, ima-
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ginar a sua vida como lavrador ainda lhe causava pesadelos. Tentara por todos os meios convencer o pai de que estava a dar o passo certo, mas em vo. O velho Haskell 
mantivera-se intransigente nas suas objeces, embora por fim acedesse em ir ao casamento, provavelmente s por estar farto de ouvir Peter argumentar e tentar rend-lo 
s suas razes.
Fora para Peter um profundo desgosto o pai no ter afinal comparecido ao casamento. Sofrera um acidente com o tractor na semana anterior, ficara com as costas bastante 
maltratadas e um brao partido, e Muriel estava quase a ter o quarto filho. No pudera deslocar-se e o marido no quisera deix-la para ir a Nova Iorque. De incio, 
Peter sentira-se desolado mas depois, como com tudo o que ocorria na sua nova vida, fora tragado pelo turbilho de actividade que o cercava.
Viajaram para a Europa em lua-de-mel; meses passaram sem nunca arranjarem tempo para ir ao Wisconsin. Katie tinha sempre planos para ele e, se no era Katie, era 
Frank. E a despeito de todas as suas promessas e boas intenes, por isto ou por aquilo, Peter e Katie nunca se deslocaram ao Wisconsin, nunca visitaram a famlia 
dele na quinta. Contudo, Peter prometera ao pai que iriam no Natal e desta vez nada o impediria. Nem sequer contara a Katie os seus planos. Iria surpreend-la. Comeava 
a suspeitar de ser essa a nica maneira de l ir.
Quando o pai morrera de ataque cardaco precisamente na vspera do Dia de Aco de Graas, a emoo arrasara Peter. Sobrevieram a culpa, a dor, o remorso, por todas 
aquelas coisas que nunca fizera e sempre tencionara fazer.
Peter levara-a ao funeral. Fora uma cerimnia lgu-
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bre debaixo de chuva, com ela e Peter de p a olhar a madeira do caixo. Peter estava manifestamente destroado; Muriel, bastante longe dele, soluava junto do marido 
e dos filhos. Um contraste singular entre a expanso provinciana e a conteno citadina. Peter comeara a aperceber-se de tudo o que o separava deles, do caminho 
que percorrera desde que partira, do pouco que agora tinham em comum. Katie no se sentira  vontade e repetira-o a Peter com insistncia. Muriel mostrara-se estranhamente 
fria com ela, coisa que no era alis do seu feitio. Quando Peter lhe fizera um comentrio a esse respeito, a irm resmungara, acanhada, que Katie no pertencia 
quele meio. Embora fosse a mulher de Peter, nem sequer conhecera o pai deles. Viera com um casaco preto e um chapu de pele, carssimos, e parecia irrit-la o facto 
de estar ali. Muriel notara-o, para grande desgosto ide Peter. Os dois irmos discutiram acaloradamente por causa de certas palavras mais azedas de Muriel, acabando 
os dois lavados em lgrimas. A leitura do testamento ainda mais acentuou o mal-estar entre ambos. O pai deixara a quinta a Muriel e a Jack, e Katie mostrara-se ultrajada 
no momento em que o ouvira da boca do notrio.
- Como pde ele fazer-te isto? - censurara ela, na Privacidade do velho quarto de Peter. O cho estava coberto com linleo e a velha pintura acastanhada das Paredes 
tinha manchas e falhas. Que diferena da casa que Frank lhes comprara em Greenwich! - Deserdar-te! - Katie exasperava-se e Peter tentara explicar-lhe. Entendia muito 
melhor o facto do que a mulher.
-  tudo o que eles tm, Kate. Este miservel lugar perdido. Toda a vida deles se concentra aqui. Eu tenho uma carreira, um bom emprego, uma boa vida contigo.
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No preciso disto. Nunca o quis, e o meu pai sabia-o. - Peter no se considerava vtima de uma ofensa ou de uma injustia. Queria que Muriel ficasse com a quinta, 
que para eles era tudo.
-Podias t-la vendido e dividido o dinheiro com eles e eles poderiam mudar-se para um lugar melhor -retorquira ela, mas tal resposta apenas demonstrara a Peter a 
sua incompreenso.
-Eles no querem, Kate, e provavelmente foi o que o pai receou. No queria que vendssemos a quinta. Trabalhou toda a vida para poder compr-la.
Kate no lhe dissera o quanto a achava insignificante, mas o marido lera-lhe o pensamento na forma como o olhara e no silncio que se instalara entre ambos. Quanto 
a Kate, a quinta era ainda pior do que Peter lha descrevera quando andavam na faculdade. O facto de no terem de voltar l aliviava-a. Ela, pelo menos, no voltaria. 
E, se tivesse uma palavra a dizer sobre o assunto, tendo-o o pai deserdado, Peter tambm no o faria. Para Katie, o Wisconsin fora relegado para o passado remoto. 
Tudo o que queria era ir-se embora com Peter.
Muriel continuava aborrecida quando partiram, e Peter tivera a desagradvel sensao de estar a despedir-se dela, no apenas do pai. Era como se acedesse ao que 
Katie pretendia, embora esta nunca lho tivesse comunicado directamente. Dir-se-ia que a mulher pretendia apropriar-se de todos os seus afectos, todas as suas razes 
e laos, a sua fidelidade e o seu amor. Quase como se Kate tivesse cimes de Muriel, do pedao da sua vida e da sua histria que esta representava. O facto de ele 
no possuir um palmo da terra da quinta era uma boa desculpa para pr um ponto final em tudo aquilo.
-Tiveste razo em sair daqui h anos - dissera
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Kate calmamente enquanto se afastavam, parecendo no se aperceber de que Peter chorava. Tudo o que queria era ver-se em Nova Iorque to depressa quanto possvel. 
- Peter, este no  o teu meio - acrescentara com firmeza. Ele desejara replicar, dizer-lhe que estava errada, defend-los, por lealdade. Sabia, no entanto, que 
Kate estava certa e isso fazia-o sentir-se culpado. No era o meio dele. E nunca o fora.
Com que alvio entrara para o avio em Chicago! Escapara uma vez mais. De certa forma, aterrorizara-o a ideia de que o pai lhe deixasse a quinta e esperasse que 
ele a gerisse. Mas o pai fora esperto de mais para o fazer, conhecia muito bem Peter. Agora, Peter nada tinha a ver com aquela terra. Nada lhe pertencia, nada poderia 
devor-lo, como chegara a temer que acontecesse. Era finalmente livre. A quinta passara a ser um problema apenas de Jack e Muriel.
E enquanto o avio descolava rumo ao Aeroporto Kennedy, convenceu-se finalmente que deixava para trs a quinta e tudo o que ela representava. S esperava no ter 
perdido ao mesmo tempo a irm.
Mantivera-se calado durante o voo de regresso e durante as semanas que se seguiram, chorando o pai em silncio. Pouco abordara o assunto com Kate, sobretudo por 
sentir que tal no lhe interessaria. Telefonara a Muriel uma ou duas vezes, mas encontrara-a sempre ocupada com as crianas, ou com pressa para ir ajudar Jack na 
vacaria. Praticamente, nunca tinha tempo para conversar e, quando o fazia, os seus comentrios acerca de Katie desagradavam a Peter. A crtica aberta que lhe fazia 
criara um abismo definitivo entre eles e, pouco tempo depois, Peter deixara de telefonar. Embrenhara-se no seu trabalho, encontrara consolao na azfama
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do escritrio. A, sentia-se verdadeiramente em casa. Na realidade, toda a sua vida em Nova Iorque lhe parecia uma existncia perfeita. Adaptara-se totalmente a 
esta, na Wilson-Donovan, entre os amigos, na vida social que Katie criara para eles. Era quase como se tivesse nascido ali, nunca tendo vivido de outro modo anteriormente.
Para os amigos de Nova Iorque, Peter era um dos deles. Afvel e sofisticado, todos se riam quando contava que crescera numa quinta. Na maior parte das vezes, ningum 
acreditava nele. Dir-se-ia oriundo de Bston, ou de Nova Iorque. E acedia de bom grado aos ajustamentos que os Donovan esperavam dele. Frank insistira em que vivessem 
em Greenwich, no Connecticut, e ele vivia. Queria ter perto de si "a sua menina", alm de que esta gostava do stio e estava habituada a ele. A Wilson-Donovan tinha 
a sede em Nova Iorque e os Donovan mantinham l um apartamento, mas sempre lhes agradara viver em Greenwich, no Connecticut, a uma hora de distncia de Nova Iorque. 
Era uma simples viagem de comboio, que Peter fazia diariamente com Frank. Peter gostava de viver em Greenwich, adorava a sua casa e adorava estar casado com Katie. 
O relacionamento de ambos era quase sempre esplndido, o nico desacordo de monta ocorrera a propsito de a mulher pensar que ele herdaria a fazenda e a venderia. 
Mas h muito que haviam deixado de discutir tal assunto, por respeito pelas respectivas opinies.
A nica coisa que o contrariava era ter sido Frank a comprar a primeira casa do casal. Peter tentara opor-se, mas no quisera aborrecer Katie. E ela pedira-lhe que 
deixasse o pai faz-lo. Peter protestara, mas por fim Katie vencera. A mulher queria uma casa grande para po-
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derem comear rapidamente a constituir famlia e  claro que Peter no podia proporcionar-lhe o gnero de casas a que estava habituada e em que o pai achava que 
ela devia viver. Eram problemas desse tipo que Peter tanto receara. Mas os Donovan agiram com toda a delicadeza. O pai chamou  encantadora casa estilo Tudor uni 
"presente de casamento". Para Peter,. era uma manso. Suficientemente grande para acomodar trs ou quatro crianas, muito bem decorada, com um lindo salo, uma sala 
de jantar, uma sala de estar, cinco quartos de cama, um escritrio enorme para ele, uma sala para reunies de famlia e uma fabulosa cozinha. Que incomensurvel 
distncia a separava da velha e decadente casa da quinta que o pai deixara  irm no Wisconsin! E Peter tivera que admitir, envergonhado, que adorava a sua casa.
O pai da mulher tambm quisera contratar quem fizesse as limpezas e cozinhasse para eles, mas a Peter impusera-se e declarara que cozinharia ele prprio se fosse 
preciso, mas no permitiria que Frank lhes fornecesse o pessoal. Por acaso, Katie aprendera a cozinhar, pelo menos o trivial. No entanto, perto do Natal, acordara 
um dia to violentamente nauseada que no conseguira fazer nada e fora Peter quem tivera de tratar da maior parte da comida e da limpeza da casa. No se importara 
nada, entusiasmava-o ao mximo a ideia da chegada do beb. Era quase uma troca mstica, uma forma especial de consolao pela perda do pai, que continuava a doer-lhe 
mais do que alguma vez confessara.
E assim fora o incio de dezoito anos de vida em comum, anos frutuosos para ambos. Tinham tido trs filhos nos primeiros quatro anos e, a partir de ento, a vida 
de Katie fora preenchida com comisses de caridade,
associaes de pais e corridas de carros - uma vida que ela adorava. Os rapazes foram inscritos em milhentas coisas, futebol, basebol, natao e, nos ltimos tempos, 
Katie decidira participar no conselho escolar de Greenwich. Estava totalmente inserida na sua comunidade, e muito interessada pelo mundo da ecologia e por uma quantidade 
de acontecimentos que Peter sabia que tambm deveriam interess-lo, mas no interessavam. Gostava de saber que Katie se envolvia pelos dois em causas globais. Ele 
apenas tentava manter a cabea fria no trabalho.
Tambm sobre isso Katie sabia bastante. A me morrera-lhe tinha ela trs anos e a pequena passara a ser a companhia constante do pai.  medida que crescia, ia ficando 
a par de tudo sobre os negcios, no se modificando mesmo depois de casada com Peter. Algumas vezes, sabia coisas acerca da firma ainda antes de chegarem ao conhecimento 
de Peter. E, se este decidia compartilhar com ela quaisquer novidades, ficava sempre estupefacto ao verificar que, para a mulher, no eram novidades. Da advieram 
alguns desentendimentos, no decurso dos anos. Peter, porm, dispusera-se a aceitar o lugar de Frank na vida deles. A ligao de Katie ao pai era muito mais forte 
do que ele esperara, e no havia nisso mal algum. Frank era um homem correcto, soubera sempre avaliar bem o limite das suas opinies. Pelo menos Peter assim pensava, 
at Frank ter tentado impor-lhe o jardim-de-infncia para onde deveriam mandar o filho. Dessa vez, fizera finca-p e mantivera-o at chegar a altura do liceu, ou 
pelo menos tentara. Porm, em certas ocasies, o pai de Katie mostrava-se absolutamente irredutvel, e Peter mais aborrecido ficava quando Katie tomava o partido 
dele, embora a mulher se esforasse, ha-
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bitualmente, por agir com a maior diplomacia quando apoiava o pai.
Apesar dessa diplomacia, porm, os laos que a uniam ao pai mantiveram-se firmes ao longo dos anos; concordava com ele mais vezes do que Peter teria desejado. Era 
a nica queixa de Peter relativamente a um casamento que, sem isso, seria perfeito. E havia tantas feridas na sua vida, que no se achava no direito de se lastimar 
por causa dos ocasionais braos-de-ferro com Frank. Para Peter, quando avaliava a sua vida, as bnos ultrapassavam de longe as dores ou o peso dos fardos.
O nico verdadeiro desgosto da sua vida fora a morte da irm, aos trinta e dois anos, de cancro tal como a me, embora muito mais nova. E tal como a me, a irm 
no tivera posses para se tratar convenientemente. Fora to grande o orgulho dela e do marido, que nem sequer lhe telefonaram a contar o que se passava. Estava s 
portas da morte quando Jack por fim telefonara; Peter sentira o corao despedaado ao voar para o Wisconsin e ao ver a irm, que viria a morrer poucos dias depois. 
E em menos de um ano, Jack vendera a quinta, voltara a casar e mudara-se para Montana. Durante anos, Peter ignorara para onde fora e o que acontecera aos filhos 
da irm. Quando finalmente, longo tempo depois da morte de Muriel, soube de Jack, Kate comentara que muita gua correra por baixo das pontes e que aquilo que ele 
devia fazer era deixar andar e esquec-los. Peter mandara a Jack o dinheiro que este pedira ao telefonar-lhe, mas nunca fora a Montana visitar os filhos de Muriel. 
E sabia que quando, e se, o fizesse, estes j nem o reconheceriam. Tinham uma nova me, uma nova, famlia, e Peter no ignorava que Jack s lhe
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telefonara porque precisava de dinheiro. A verdade  que no sentia nada pelo irmo da falecida mulher, nem Peter por ele, embora este tivesse gostado de rever os 
sobrinhos e sobrinhas. Porm, as suas ocupaes no lhe permitiam deslocar-se a Montana e, de certa forma, os jovens faziam parte de uma outra vida que tivera. Era 
mais fcil fazer como Kate dizia, deixar correr, embora se culpabilizasse sempre que o assunto lhe vinha  lembrana.
Peter tinha a sua prpria vida para conduzir, a sua prpria famlia em que pensar, os seus prprios filhos para proteger, por quem lutar. E travara na verdade uma 
dura luta, quatro anos antes, quando o filho mais velho, Milce, entrara para o liceu. Aparentemente, todos os Donovan de que havia memria tinham ido para Andover, 
e Frank achava que Mike tambm deveria ir, com o que Katie concordava. Mas no Peter. Peter no queria o filho num liceu longe, queria-o em casa at entrar na faculdade. 
Dessa fez, Frank baixara os braos. Seria de Mike a deciso final. A me e o av tinham-no convencido de que, se no fosse para Andover, nunca seria admitido numa 
faculdade decente, ficaria entregue a si prprio nas questes escolares e perderia toda e qualquer possibilidade de mais tarde arranjar um bom emprego e, entretanto, 
travar boas relaes. Para Peter, tudo argumentos ridculos; recordara que ele prprio frequentara a Universidade de Michigan, estudara  noite em Chicago para completar 
o ltimo ano do curso, nunca estivera numa escola comercial e nunca ouvira falar de Andover durante a sua juventude no Wisconsin.
- E sa-me muito bem - acrescentara com um sorriso. Dirigia uma das mais importantes firmas do pas. O que no estava era preparado para a resposta de Mike:
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- Pois , mas casaste com a firma.  muito diferente.
Foi o pior golpe que o rapaz pudera desferir-lhe; al-
go no olhar de Peter lhe disse decerto quanto o magoa
ra, pois o jovem apressou-se a explicar que no quisera
dizer o que parecia, que duas dcadas atrs as coisas
eram "bem diferentes". Ambos, porm, sabiam que no
eram. Por fim, Milce foi para Andover e, tal como o
av, iria para Princeton no Outono. Tambm Paul esta
va agora em Andover e s Patrick, o mais novo, falava
em no deixar a casa durante o tempo de liceu, ou tal
vez ir para Exeter, s para fazer algo de diferente do
que os irmos haviam feito. Tinha ainda um ano para
pensar no assunto, mas admitia a ideia de ir para um in
ternato na Califrnia. Um estado de coisas que Peter
gostaria de alterar, sabendo, no entanto, que no o con
seguiria. Afastar-se de casa durante os anos de liceu era
uma indiscutvel tradio dos Donovan. At Katie, ape
sar de to agarrada ao pai, fora para o colgio de Miss
Porter. Peter teria preferido ter os filhos em casa, mas
faria a pequena concesso - dissera - de se privar da
companhia deles durante uns meses por ano para que ti
vessem a melhor das educaes. Tudo se passara sem
discusses, e Frank insistira sempre no facto de os rapa
zes irem criar amizades para toda a vida. Era difcil con
tradiz-lo, e Peter no o fizera. Que grande solido sen
tia, todavia, quando ano aps ano, os rapazes partiam
para o liceu! Katie e os filhos eram a sua nica famlia.
At de Muriel e dos pais ainda sentia saudades, embora
nunca o confessasse a Katie.
A vida de Peter melhorara de modo impressionante no decurso dos anos. Tornara-se um homem importante, A sua carreira progredira a passos largos. E conse-
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quentemente, haviam-se mudado para uma casa maior, em Greenwich, quando tivera posses para a adquirir. Dessa vez, nem pensar em aceitar que Frank a oferecesse. A 
casa que Peter escolhera era uma bela manso num terreno de dois hectares e meio, em Greenwich, e, embora por vezes a cidade o atrasse, Peter sabia quanto era importante 
para Katie continuar a morar no mesmo local. Toda a vida vivera em Greenwich. Era a que tinha os seus amigos, as escolas primrias correctas para os filhos, as 
comisses de que se encarregava, e o pai. Adorava viver perto dele. Continuava a vigiar-lhe a manuteno da casa e, nos fins-de-semana, era frequente ela e Peter 
visitarem-no, para discutir assuntos de famlia, ou negcios, ou simplesmente para uma amigvel partida de tnis. Katie ia v-lo muitas vezes.
Passavam o Vero em Martha's Vineyard, tambm para estar junto dele. A herdade que Frank l possua, comprada h muitos anos, era fabulosa; os Haskell tinham uma 
mais modesta, mas Peter fora obrigado a concordar com Katie: tratava-se de um ptimo stio pra as crianas e, verdade seja dita, Peter adorava-o. Vineyard era um 
lugar especial para ele e, logo que pudera comprar uma casa que fosse mesmo deles, forara Katie a desistir da vivenda que o pai lhes emprestara e comprara-lhe uma 
outra, encantadora, a poucos metros da estrada. Para os rapazes foi uma alegria quando Peter mandou construir para eles uma casinha prpria, que lhes permitia convidar 
os amigos, o que faziam constantemente. H anos que Peter e Katie viviam rodeados por um bando de crianas, sobretudo em Vineyard. Parecia-lhes haver sempre em casa 
meia dzia de midos alm dos seus. Levavam uma vida agradvel e, apesar das concesses familiares que Peter tivera por vezes de fazer,
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tais como onde e como viverem, ou os garotos irem para internatos, o facto  que nunca se vira constrangido a abdicar dos seus princpios ou integridade; no que 
dizia respeito aos negcios, Frank dera-lhe carta branca. Peter chegara com ideias brilhantes que rapidamente haviam afectado a firma pela positiva, trazendo-lhe 
um tipo de desenvolvimento bem acima dos sonhos de Frank. o valor das sugestes de Peter era inestimvel, as suas decises arrojadas mas seguras. Frank avaliara 
muito bem o que fazia ao traz-lo para a firma, e ainda melhor quando lhe confiara a presidncia da Wilson-Donovan, aos trinta e sete anos. Desde logo, gerira a 
sociedade com mo de mestre. Sete anos tinham decorrido entretanto, quatro dos quais dedicados aos planos do Vicotec, cujo custo fora incomensurvel, mas de resultado 
mais do que absolutamente compensador. A partir do primeiro momento do "beb de Peter", fora sua a deciso de prosseguir com o plano at uma concluso cientfica, 
tendo convencido Frank a lev-lo por diante. O investimento era enorme mas a longo prazo, ambos concordaram, largamente compensatrio. E para Peter havia um bnus 
extra. Era a realizao do sonho da sua vida, ajudar a humanidade, continuando, em simultneo, a progredir no mundo ganancioso, egocntrico, dos negcios. Se outros 
motivos no houvesse, em memria da me e de Muriel, Peter ansiava por que o Vicotec chegasse ao mercado o mais rapidamente possvel. Se tivesse existido um produto 
semelhante para elas, as suas vidas teriam sido salvas, ou no mnimo prolongadas. Ora, o que queria era salvar outras vidas idnticas s de ambas. De pessoas a viver 
em quintas nas reas rurais, ou mesmo em cidades, mas isoladas devido  pobreza Ou a circunstncias que as matariam, por falta de um medicamento como aquele.
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Deu por si absorto nas suas recordaes, e tambm nas reunies que tivera na Europa durante a semana que findava. S o facto de saber que o Vicotec chegara to longe 
era uma recompensa incomensurvel. E enquanto o carro rolava rapidamente para Paris, lamentava que, como de costume, Katie no o tivesse acompanhado.
Para Peter, Paris era a cidade perfeita. Deixava-o sempre sem fala. Paris possua algo que lhe aquecia o corao. Visitara-a pela primeira vez, em negcios, quinze 
anos antes; nessa altura, fora como se tivesse chegado ao mundo no preciso momento em que a vira. Sozinho, num dia de feriado nacional, ainda se recordava de ter 
descido os Campos Elsios, com o Arco do Triunfo mesmo em frente e a bandeira francesa a oscilar nobremente com a brisa, no interior da abbada. Parara o carro, 
sara e, enquanto se deixava ficar parado a olh-la, apercebera-se, envergonhado, de que chorava.
Katie costumava brincar com ele, dizer-lhe que decerto fora francs numa vida anterior, tal era o seu amor por Paris. O lugar tinha grande significado para si e 
nunca percebera bem porqu. Pairava na cidade qualquer coisa incrivelmente bela e intensa. Nunca nela passara um mau bocado. E sabia que desta vez no seria di~ 
ferente. A despeito do feitio bastante taciturno de Paul-Louis Suchard, sabia que o encontro com ele no dia seguinte s poderia ser uma comemorao.
O txi ziguezagueava por entre o trfego do meio do dia. Peter ia vendo passar os locais familiares, os Invalides, a pera... Um instante depois, entravam na Place 
Vendme e Peter sentia-se quase como se chegasse a casa. A esttua de Napoleo erguia-se no topo da coluna central da praa, e algum que semicerrasse os olhos e 
deixasse voar a imaginao poderia facilmente
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idealizar os solavancos de carruagens brasonadas, cheias de nobres franceses com as suas perucas brancas e cales de cetim. To pitoresco absurdo f-lo sorrir, 
enquanto o txi parava diante do Ritz e o porteiro se precipitava para lhe abrir a porta. Reconheceu Peter, como parecia reconhecer todos os hspedes que chegavam, 
e fez de imediato sinal a um paquete para que viesse buscar a nica mala de Peter, que, entretanto, pagava ao motorista.
Surpreendentemente, a fachada do Ritz passava despercebida, apenas um pequeno toldo a sublinhava, no sendo mais notria do que o grande nmero de lojas deslumbrantes 
que a rodeavam. A seu lado, Chaumet e Boucheron exibiam os seus cristais cintilantes, Chanel ficava na esquina da praa e JAR, o muito requintado joalheiro cujas 
iniciais provinham do seu fundador, Joel A. Rosenthal, aninhava-se mesmo atrs. Todavia, entre os mais importantes elementos da Place Vendme figurava o Hotel Ritz, 
e Peter mantinha que no havia em todo o mundo outro como ele. Era o ltimo bastio do luxo, oferecendo aos seus clientes um conforto sem limites dentro do mais 
requintado estilo. Assaltava-o sempre um ligeiro sentimento de culpa por se alojar l numa viagem de negcios, mas ao longo dos anos acabara por gostar tanto dele 
que no poderia ficar noutro stio. Uma fantasia rara numa vida em tudo o resto absolutamente sensata e comandada pela razo. Peter apreciava o primor, a elegncia, 
a elaborada decorao dos quartos, a beleza sumptuosa dos brocados das paredes, as lindssimas lareiras antigas. E mal atravessou a porta giratria, percorreu-o 
instantaneamente um arrepio de excitao.
O Ritz nunca o desapontara e nunca lhe falhara.
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Como uma bonita mulher que s se visita ocasionalmente, esperava-o sempre de braos abertos, com o cabelo arranjado, a maquilhagem perfeita, ainda mais encantadora 
do que da ltima vez que a vira.
Peter gostava quase tanto do Ritz como de Paris. O hotel integrava-se na magia e no charme daquela cidade. Mal entrava, era saudado por um porteiro de libr e apressava-se 
a subir os dois degraus at ao balco da recepo, para o registo. At a espera ao balco, para assinar, o divertia. Gostava de observar as pessoas que o rodeavam. 
 sua esquerda, um elegante sul-americano mais velho do que ele, com uma jovem espampanante vestida de vermelho a seu lado. Falavam depressa entre si, em espanhol. 
O cabelo e as unhas da mulher estavam impecveis e Peter reparou no enorme diamante que ostentava na mo esquerda. Olhou-o de relance e sorriu-lhe, quando ele a 
observava. Era um homem extremamente atraente, e nada na sua postura actual sugeriria  mulher perto de si que fora em tempos um rapaz do campo. Parecia exactamente 
aquilo que era, um homem rico, poderoso, que se movimentava nos crculos da elite, um daqueles que dirigem os imprios do mundo. Tudo em Peter denotava importncia 
e, todavia, havia tambm nele qualquer coisa intrigante, qualquer coisa doce e jovem, alm de ser, inegavelmente, muito bem-parecido. E se algum se detivesse a 
fit-lo, encontraria ainda algo mais, mais do que a maioria das pessoas compreendia, ou se interessava por compreender. Uma gentileza, uma bondade, uma espcie de 
compaixo, raras nos homens poderosos. Porm, a mulher de vermelho no viu isso. Viu a gravata Herms, as mos fortes bem tratadas, a pasta, os sapatos ingleses, 
o fato de bom corte, e foi com esforo que voltou a olhar para o seu companheiro.
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Do outro lado de Peter, trs japoneses idosos bem vestidos, de fatos escuros, todos eles a fumar e a conferir discretamente a conta. Havia tambm um homem mais novo 
que os esperava e, ao balco, um recepcionista a falar-lhes em japons. Quando Peter lhes virou as costas, ainda  espera da sua vez, reparou numa agitao  entrada, 
enquanto quatro negros de. grande estatura atravessavam a porta giratria e pareciam control-la; dois outros, muito parecidos com os primeiros, seguiam-nos; depois, 
como uma mquina de pastilhas elsticas a cuspir a sua mercadoria, a porta giratria expeliu trs mulheres muito atraentes, com vestidos Dior de fortes coloridos. 
Os vestidos eram iguais, em cores diferentes, mas as mulheres propriamente ditas diferiam muito entre si. Tal como a espanhola em que Peter reparara, tambm estas 
se apresentavam irrepreensveis, com os cabelos muito bem arranjados. Todas usavam diamantes ao pescoo e nas orelhas e, em grupo, chamavam a ateno. Num instante, 
os seis seguranas que as precediam rodearam-nas, enquanto um rabe muito mais velho e muito distinto emergia da porta giratria, mesmo por detrs dos outros.
- O rei Yhaled... - ouviu Peter algum prximo sussurrar. - Ou talvez seja o irmo... As trs esposas... ficam aqui um ms ... alugaram todo o quarto andar que d 
para os jardins ...
Era o chefe de uma pequena nao rabe e, enquanto atravessavam a recepo, Peter contou oito guarda-costas e uma diversidade de pessoas que pareciam segui-los. 
Foram de imediato acompanhados por um dos recepcionistas e seguiram o seu caminho devagar, com todos os olhares postos neles. A tal ponto, que ningum deu por Catherine 
Denetive que se esgueirou apressada.
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mente para o restaurante onde iria almoar, e todos se esqueceram de que Clint Eastwood estava hospedado no hotel, enquanto filmava nos arredores de Paris. Rostos 
e nomes como os deles eram lugares-comuns no Ritz, e Peter perguntava a si prprio se algum dia seria blas o suficiente para muito simplesmente no ligar, os ignorar. 
A verdade  que achava to engraado estar ali, e observ-los a todos, que no conseguia desviar o olhar e simular aborrecimento, como faziam alguns habitus, e 
era incapaz de no fixar o rei rabe e o seu grupo de lindas consortes. As mulheres conversavam e riam com moderao e os guarda-costas no as perdiam de vista, 
no permitindo que algum se aproximasse delas. Cercavam-nas como uma parede de esttuas rgidas, enquanto o rei seguia em frente calmamente, a falar com outro homem. 
De repente, Peter ouviu, mesmo nas suas costas, uma voz que o sobressaltou.
-Boa tarde, mister Haskel1. Temos muito prazer em receb-lo de novo.
- Tambm eu estou contente por estar de volta. -Peter virara-se e sorria ao jovem recepcionista. Davam-lhe um quarto no terceiro andar. Porm, na sua opinio, no 
podia haver maus quartos no Ritz. Ficaria contente, pusessem-no onde o pusessem.
- To atarefados como sempre, ao que parece. -Referia-se ao rei e ao pequeno exrcito de guarda-costas, mas o hotel estava sempre cheio de gente desse gnero.
- Como sempre... comme d'habitude... - O jovem recepcionista sorriu e afastou para o lado o formulrio que Peter preenchera. - Agora, vou mostrar-lhe o seu quarto. 
- Verificara o passaporte, dera o nmero do
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quarto a um dos paquetes, fazia sinal a Peter para o seguir.
Passaram pelo bar e pelo restaurante, cheios de clientes bem vestidos e de pessoas que se encontravam para uma bebida ou para almoar, para discutir negcios, talvez 
traar planos mais intrigantes. E, na passagem, Peter viu de relance Catherine Denetive, ainda muito bonita, a rir e a conversar com um amigo numa mesa de canto. 
Tudo lhe agradava naquele hotel, os rostos, as pessoas cujo aspecto requintado era fascinante. Enquanto percorriam o longo corredor at ao segundo elevador, iam 
atravessando o extenso bloco de montras cheias de artigos caros de todas as lojas de modas e joalharias de Paris. A meio caminho, viu uma pulseira de ouro que achou 
que agradaria a Katie e fixou-a mentalmente para voltar  loja e adquiri-la. Comprava-lhe sempre qualquer coisa quando viajava. Era o seu prmio de compensao por 
no ter ido, ou fora-o muitos anos atrs, quando ela estava grvida, ou a amamentar, ou presa pelos filhos, ento muito pequenos. Actualmente, a verdade  que a 
mulher no queria viajar com ele, e ele sabia isso. Gostava das reunies das suas comisses e dos seus amigos. Com os dois rapazes mais velhos fora, no internato, 
e s um em casa, poderia acompanh-1O, mas arranjava sempre uma desculpa, e Peter j no insistia. Ela, pura e simplesmente, no queria ir. Todavia, ainda lhe comprava 
presentes, e aos rapazes tambm, se estavam em casa. Um ltimo resqucio dos seus tempos de crianas.
Chegaram finalmente ao elevador; do rei rabe nem sombras, tinham acabado de subir uns minutos antes rumo  sua dzia, ou coisa semelhante, de quartos. Eram clientes 
regulares, as esposas costumavam passar Maio e
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junho em Paris, por vezes ficavam at sarem as coleces de julho. E voltavam no Inverno, pela mesma razo.
- Quente, este ano - comentou Peter, cavaqueando com o recepcionista enquanto esperavam pelo elevador. L fora o tempo estava esplndido, corria uma aragem clida 
que dava s pessoas vontade de se estenderem debaixo de uma rvore num qualquer recanto e ficarem a olhar as nuvens que deslizavam pelo cu. No era realmente um 
dia para tratar de negcios. Mesmo assim, Peter ia telefonar a Paul-Louis Suchard e ver se este arranjava algum tempo para se encontrarem antes da reunio marcada 
para a manh seguinte.
- Tem sido assim a semana inteira - retorquiu o recepcionista para manter a conversa. Toda a gente andava bem-humorada e, como os quartos tinham ar condicionado, 
nunca havia queixas da temperatura. Ambos sorriram quando uma americana com trs terriers passou por eles. Os ces eram to felpudos e pavoneavam-se to cheios de 
laarotes que os dois homens se entreolharam enquanto a observavam.
E ento, quase como se a rea onde se encontravam tivesse sido atingida por uma descarga elctrica, Peter teve a inesperada sensao de uma onda de actividade atrs 
de si. Olhava ainda a mulher com os ces, e at essa ergueu o olhar, surpreendida. Peter pensou que seria outra vez o rabe com os seus guarda-costas, ou alguma 
estrela de cinema, mas a excitao crescia. Voltou-se para ver o que se passava e deparou com um batalho de homens vestidos de escuro e com auscultadores nos ouvidos, 
que pareciam vir ao encontro deles. Eram quatro, e impossvel ver quem se lhes seguia. Facilmente se percebia que eram guarda-costas, por causa dos auscul-
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tadores e dos walkie-talkies que seguravam nas mos. Se estivesse frio, decerto usariam gabardinas.
continuaram em frente, na direco de Peter e do recepcionista, quase em consonncia, e de repente avistaram-se, apenas o suficiente para pr a descoberto um punhado 
de homens que quase se lhes colavam. Estes usavam fatos leves, pareciam americanos, um deles mais alto do que todos os outros e incrivelmente louro. Dir-se-ia uma 
estrela do cinema, irradiava algo de magnetizante. Todos se mostravam suspensos de cada palavra sua, e os trs homens que o acompanhavam, de aspecto bastante severo 
e profundamente absorvido, desataram de repente a rir de qualquer coisa que ele dissera.
O homem intrigou Peter, que o olhou de soslaio longa e atentamente, com a sbita certeza de que j o vira algures. Mas onde? Ocorreu-lhe de imediato: era o controverso 
e muito dinmico senador da Virgnia, Anderson Thatcher. Tinha quarenta e oito anos, fora uma ou duas vezes tocado ao de leve por escndalos, mas em todos os casos 
se haviam dissipado rapidamente as tmi- das indignaes; de bem maior importncia era ter sido, tambm por mais de uma vez, atingido pela tragdia. O irmo, Tom, 
na corrida para a presidncia, fora morto seis anos antes, j perto das eleies. No restavam dvidas de que teria sado vencedor, e toda a espcie de teorias fora 
tecida quanto a quem o matara; at dois filnies de m qualidade haviam sido feitos. Todas as especulaes, porm, esbarravam num atirador solitrio. Nos anos subsequentes, 
Anderson Thatcher, "Andy", como Parecia ser conhecido entre os amigos, fora seriamente treinado e sobressara das fileiras dos seus aliados e adversrios polticos, 
pensando-se agora nele como um candidato, capaz s prximas presidenciais. Ainda no
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anunciara a sua candidatura, mas as gentes do meio acreditavam que no tardaria a faz-lo. E ao longo dos ltimos anos, Peter seguira com interesse a sua carreira. 
Apesar de algumas coisas menos atraentes que ouvira sobre a sua vida pessoal, achava-o um bom candidato. Bastava olh-lo agora, rodeado por camaradas de campanha 
e guarda-costas, para se notar o seu carisma; Peter observava-o, fascinado.
A tragdia batera-lhe pela segunda vez  porta ao matar-lhe de cancro o filho, de dois anos. A esse respeito Peter estava menos informado, mas recordava-se de algumas 
fotografias muito chocantes na Time, quando a criana morrera. Uma em especial, da mulher, arrasada, a sair do cemitrio, surpreendentemente sozinha, enquanto Thatcher 
dava o brao  sua me e a afastava do servio fnebre. A dor estampada no rosto da jovem me arrepiara-o. Tudo isso contribura para que o corao do povo se lhes 
afeioasse, e era curioso v-lo agora, profundamente embrenhado na conversa com o seu grupo.
No momento seguinte, com o elevador a teimar em no aparecer, os homens deslocaram-se ligeiramente, e s quando o fizeram Peter viu de relance uma pessoa mais, atrs 
deles. Foi apenas uma sugesto, uma impresso rapidssima: de sbito, ela ali estava, a mulher da fotografia. De olhos baixos, a sensao que transmitia era a de 
uma incrvel fragilidade, parecia muito pequena e muito tnue, quase como se a qualquer momento pudesse evaporar-se. Um mero esboo de mulher, com os maiores olhos 
que ele jamais vira e da qual emanava um fascnio que prenderia o olhar de qualquer um. Vestia um Chanel de linho azul-celeste, aparentava uma grande gentileza e 
muito autodomnio, enquanto seguia os ho-
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mens do seu grupo. Nenhum destes dava mostras de se aperceber dela, nem sequer os guarda-costas; a mulher esperava em silncio o elevador. Peter examinava-a quando 
de repente ela levantou os olhos e o encarou. ocorreu a Peter que os olhos dela eram os mais tristes que j vira, e no entanto nada na mulher era pattico. Estava, 
apenas, muito longe dali. Quando remexia na carteira, de onde tirou uns culos escuros, Peter reparou na delicadeza e graciosidade das suas mos. Nenhum dos homens 
se lhe dirigiu, ou pareceu sequer aperceber-se da sua presena, quando o elevador por fim chegou. Todos se apressaram a entrar  frente dela, que os seguiu calmamente. 
Demonstrava uma espantosa dignidade, como se vivesse num mundo muito seu, e era uma verdadeira senhora. Que eles dessem ou no pela sua existncia, parecia ser-lhe 
indiferente.
Enquanto a observava, fascinado, Peter sabia exactamente de quem se tratava. Vira numerosas fotografias suas ao longo dos anos, em pocas mais felizes, aquando do 
seu casamento, e mesmo anteriores, com o pai. Era a mulher de Andy Thatcher, Olivia Douglas Thatcher. Tal como Thatcher, pertencia a uma importante famlia de polticos. 
O pai era o muito respeitado governador do Massachusetts, e o irmo, um jovem congressista de Bston. Peter julgava recordar-se de que andaria pelos trinta e quatro 
anos, e era uma daquelas pessoas que fascinam a imprensa, que os meda so incapazes de deixar em paz, embora ela pouco ensejo lhes desse para perseverar. Peter 
vira entrevistas dele, claro, mas no se lembrava de nenhuma de OlivIa Thatcher. Mantinha-se totalmente em segundo plano e, ao entrar no elevador mesmo atrs dela, 
o rapaz ia como que hipnotizado. Olivia virava-lhe as costas mas estava to prxima que,
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sem o mnimo esforo, Peter poderia rode-la com os braos. Estremeceu, s de pensar nisso, enquanto o seu olhar pousava no encantador cabelo negro. Como se lesse 
o que lhe ia na mente, a mulher voltou-se e de novo os seus olhares se cruzaram. Por um instante, o tempo parou para Peter. Uma vez mais o chocou a tristeza nos 
olhos dela; foi como se, sem pronunciar uma palavra, lhe estivesse a dizer qualquer coisa. Os seus olhos eram os mais expressivos que ele algum dia vira e de sbito 
interrogou-se se o imaginara, ou se no havena de facto nos olhos de Olivia algo mais do que nos das outras pessoas. A mulher virou-se, quase to inesperadamente 
quanto o fitara, no voltando a olhar para ele quando saiu do elevador, bastante agitado.
O paquete j levara a mala para o quarto e a gouvernante j o inspeccionara, tendo achado tudo perfeitamente em ordem. Ao entrar e olhar em redor, Peter sentiu mais 
uma vez que fora parar ao paraso. Os brocados das paredes eram de uma quente cor de pssego, todos os mveis antigos, a lareira de mrmore alaranjado e os cortinados 
e colchas em sedas e cetins condizentes. Havia uma casa de banho de mrmore e todos os encantos e comodidades imaginveis. Como num sonho tornado realidade. Sentou-se 
num confortvel cadeiro de cetim e contemplou o exterior, o jardim imaculadamente cuidado. A perfeio!
Dada a grojeta ao recepcionista, passeou lentamente pelo quarto, saiu e encostou-se  varanda, a admirar as flores l em baixo, enquanto pensava em Olivia Thatcher. 
Havia algo de obsidiante no seu rosto, nos seus olhos, j o pensara ao v-la em fotografia, mas nunca imaginara nada to intenso como o que lera naquele olhar. Era 
qualquer coisa de muito doloroso e, apesar de
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tudo, tambm muito forte. Como se quisesse comunicar, com ele ou com algum que a olhasse. A seu modo~ era muito mais poderosa e mais constrangedora do que o marido. 
E Peter no podia abster-se de pensar que aquela mulher no tinha o aspecto de pessoa disposta a entrar no jogo poltico. De facto, tanto quanto sabia, nunca o fizera, 
e continuava a no o fazer agora, mesmo sendo o marido um concorrente to prximo da nomeao.
Que segredos esconderia por trs da sua fachada? ou tudo no passaria de pura imaginao sua? Talvez ela no fosse nada triste, apenas muito calma. Afinal, ningum 
falara com ela. Mas porque o olhara daquela maneira? O que lhe iria na mente?
Continuava distrado com os seus pensamentos, aps ter lavado a cara e as mos e telefonado a Suchard cinco minutos depois. No podia esperar nem mais um instante 
para o ver. Mas era domingo. E Suchard parecera~lhe pouco entusiasmado com uma entrevista inoportuna. No entanto, concordou em encontrar-se com Peter uma hora depois. 
Peter andou s voltas no quarto, impaciente, decidiu telefonar a Katie que, como de costume, no respondeu. Para ela, eram apenas nove horas da manh; Peter calculou 
que tivesse sado, s compras ou a casa de alguma amiga. Raramente Katie se encontrava em casa depois das nove horas e nunca antes das cinco e meia. Estava sempre 
ocupada. Actualmente, ainda com mais actividades, o seu envolvimento no conselho da escola e s um filho em casa, era at frequente chegar mais tarde.
Quando por fim abandonou o quarto, Peter ia terrivelmente excitado com a ideia do encontro com Suchard* Chegara o momento por que esperava. A luz
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verde final para poderem ir em frente com o Vcotec, Apenas uma formalidade, sabia-o, mas uma formalidade importante, tendo em vista a inteno de serem adn-tidos 
nas "Prioridades" da FDA. Suchard era o chefe mais conhecido e mais respeitado das vrias equipas e departamentos de pesquisa que possuam. O seu acordo em relao 
ao Vicotec significaria muito mais do que o de qualquer outro.
Desta vez, o elevador levou menos tempo a chegar e Peter entrou de imediato. Vestia o mesmo fato escuro, mas mudara para uma camisa azul com punhos e colarinho brancos 
engomados; era vigoroso e aprumado o seu aspecto. Pousou o olhar numa figura a um canto' uma mulher com calas pretas de linho e uma T-shirt preta, e culos escuros. 
Tinha o cabelo puxado para trs, os sapatos eram de salto raso e, quando se voltou e o fixou, Peter reconheceu Olivia Thatcher, apesar dos culos escuros.
Depois de tanto ler a seu respeito durante anos, via-a inopinadamente por duas vezes no espao de uma hora e, desta segunda vez, sob uma aparencia totalmente diferente. 
Parecia ainda mais magra e mais jovem do que com o fato Chanel; retirou os culos por um momento e foi breve o olhar que lhe lanou. Peter teve a certeza de tambm 
ter sido reconhecido, mas nenhum deles falou, e ele esforou-se por no a observar. Havia porm na mulher qualquer coisa que o subjugava. No conseguia entender 
o que o intrigava tanto. Os olhos, claro, mas muito mais do que isso. Qualquer coisa relacionada com a maneira como se movia e olhava, com tudo o que de lendrio 
ouvira a seu respeito. Parecia muito orgulhosa, segura de si e extremamente calma, num estado de perfeito autocontrolo. S de idealiz-la
assim, apetecia-lhe fazer-lhe mil perguntas idiotas. Precisamente como todos os reprteres. Porque se mostrava to segura de si? To distante?... Mas tambm parecia 
to triste! " uma pessoa triste, Mistress Thatcher? Como se sentiu quando o seu filho morreu? E agora, est deprimida?" O gnero de perguntas que todos lhe repetiam 
e a que ela nunca respondia. Todavia, ao olh-la, tambm ele queria conhecer as respostas, aproximar-se dela, pux-la para si, saber o que sentia e porque pregava 
os olhos nos seus como se lhe estendesse as duas mos; queria saber se era loucura ler to intimamente os seus sentimentos. Sim, queria saber quem era ela e, con~ 
tudo, tinha a certeza de que nunca o conseguiria. Estavam destinados a ser dois estranhos, a nunca trocar uma s palavra.
Bastava estar perto dela para se sentir sufocar. Podia cheirar de perto o seu perfume, ver a luz brilhar no seu cabelo, imaginar a suavidade da sua pele, sentindo-se 
incapaz de desviar os olhos dela. Felizmente, haviam chegado ao andar principal;, a porta do elevador abriu-se. Um guarda-costas esperava-a; sem dizer nada, a mulher 
encaminhou-se simplesmente para o trio e Peter seguiu-a. "Que vida esquisita", pensou, enquanto a via afastar-se, sentindo-se atrado como um man e tendo de recordar 
a si prprio que havia negcios a tratar e falta de tempo para fantasias de criana. Mas era bvio para si haver nela algo de mgico; percebia-se bem a razo por 
que era considerada mais ou menos uma lenda. Acima de tudo, era um mistrio. O gnero de pessoa que nunca se conhece, mas que se gostaria de conhecer. Enquanto saia 
para o sol esplendoroso e o porteiro lhe chamava um txi, interrogava-se sobre se algum a conheceria de facto. E quando o carro arrancou, viu-a
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contornar a esquina e sair da Place Vendme. Seguia apressada pela Rue de la Paix, a cabea erguida, os culos de sol postos, o guarda-costas atrs e, sem querer 
Peter questionou-se sobre o stio para onde se dirigiria Depois, forando-se a arredar da mulher os olhos e o esprito, foi contemplando as ruas de Paris que ia 
deixando para trs,  medida que o txi avanava. 
Captulo 2
O encontro com Suchard foi rpido e decisivo, como Peter esperava que fosse; no entanto, no estava minimamente preparado para aquilo que ouviu Paul-Louis Suchard 
dizer acerca do produto. Nem por um s momento previra o veredicto de Suchard. Segundo este, e em conformidade com todos os testes j efectuados, o Vicotec apresentava 
grande potencial de perigo, seria tal~ vez mesmo letal, se usado de modo errado ou se fosse inadvertidamente mal manipulado. De acordo com as deficincias que evidenciava, 
no era de forma alguma utilizvel, estava ainda a anos de distncia de poder ser produzido e, mesmo, comercializado. Nem sequer apresentava condies para ser experimentado 
em seres humanos, como Peter tanto desejava.
Peter sentou-se, com os olhos presos em Suchard enquanto este falava. No podia acreditar no que os seus ouvidos ouviam; nem por sombras lhe passara pela cabea 
uma tal interpretao do produto. Informara-se o suficiente sobre as matrias qumicas utilizadas, para poder fazer-lhe certas perguntas muito especficas e tecnicamente 
pertinentes. Suchard s tinha respostas para algumas delas, mas no conjunto achava o Vicotec perigoso e, sendo um conservador, aconselhava a que o produto fosse 
posto de parte. Ou, se quisessem correr o risco de o aperfeioar durante mais uns anos, talvez os problemas encontrados pudessem ser resolvidos, mas isto sem qualquer 
garantia de alguma vez o melhorarem ao ponto de o tornar til e seguro. E, se no o conseguissem, o mais certo seria criarem um medicamento
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assassino. Para Peter, foi como se o mundo desabasse sobre a sua cabea.
- Tem a certeza de que no h erro nos seus testes, Paul-Louis? - perguntou, desalentado, na esperana de encontrar falhas no sistema, fosse onde fosse, mas no 
no seu adorado "beb".
-  praticamente certo no haver erro nenhum respondeu Paul-Louis num ingls carregado de sotaque, mas que deixava bem claro o que afirmava, para profundo horror 
de Peter.
Como de costume, Paul-Louis mostrava-se taciturno, mas ele era mesmo assim. E tambm como de costume, a descoberta das falhas nos produtos vinha quase sempre dele. 
Era a sua vocao, ser o portador das ms notcias.
- H um teste ainda em curso, poder amenizar alguns dos resultados, mas no vai alter-los muito. -E explicou que esse teste poderia trazer um pouco mais de optimismo 
em termos do tempo necessrio para experincias adicionais, mas continuavam a falar de anos, no de meses, nem das escassas semanas que faltavam at s averiguaes 
da FDA, de acordo com o pretendido.
- Quando acabar esse teste? - interrogou Peter, quase doente. Nem queria crer no que ouvia. Era o pior dia da sua vida. Incluindo o que de pior passara no Vietname 
e, sem dvida, depois do Vietname. Significava um perodo de quatro anos por gua abaixo, se no' total, pelo menos em parte.
-Precisamos de mais uns dias, mas penso que o teste  uma mera formalidade. Em minha opinio, j sabemos o que o Vicotec tem de bom e de mau. Estamos perfeitamente 
conscientes das suas deficincias e dos seus problemas.
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- Acha que  recupervel? - insistiu Peter, ater-
rado.
- pessoalmente, acho que sim... mas na minha equipa h quem no concorde comigo. Pensam que ser sempre perigoso de mais, delicado de mais, arriscado de mais, nas 
mos de pessoas inexperientes. Quase de certeza, no utilizvel como voc desejaria. Por enquanto. E talvez nunca.
Tinham pretendido uma forma de quimioterapia de mais fcil administrao, mesmo por pessoas acamadas, em reas rurais, longnquas, onde no chegavam os bons cuidados 
mdicos. Porm, no iriam dispor de cuidado nenhum, segundo Paul~Louis. At este lamentou Peter, quando viu a sua cara. Era como se tivesse perdido a famlia e todos 
os amigos, e s agora se consciencializasse das consequncias da catstrofe. Seriam incontveis. Fora um desapontamento imenso, um verdadeiro choque, ouvir as palavras 
de Paul-Louis.
- Lamento muito - acrescentara este, com serenidade. - Penso que, com o tempo, ganhar a batalha. Mas tem de ser paciente - aconselhou, com gentileza. Peter sentiu 
as lgrimas chegarem-lhe aos olhos, ao ver quo perto tinham chegado, e quo longe estavam ainda dos seus objectivos. As respostas no eram as que esperara. Esperara 
que o encontro de ambos fosse uma mera formalidade e, em vez disso, era um pesadelo.
- Quando poder dar-nos os resultados do teste, Paul-Louis? - Apavorava-o a ideia de regressar -a Nova Iorque e contar tudo a Frank, especialmente com informaes 
incompletas.
-Mais dois ou trs dias, talvez quatro. Ainda no
 certo. L para o fim da semana, ter sem dvida uma resposta s suas interrogaes.
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- E se os resultados forem positivos, acha que poder alterar a sua posio actual? - Era um pedido, uma splica de obteno de todas as boas notcias possveis. 
Sabia a que ponto Suchard era conservador; talvez desta vez estivesse a ser demasiado cauteloso. No se compreendia muito bem como podiam os seus resultados revelar-se 
to diametralmente opostos a tudo quanto os outros haviam dito. O facto  que nunca at ento se enganara e no lhe dar ouvidos seria assumir um mal terrvel. No 
podiam,  evidente, ignorar o seu parecer,
- Alteraria um pouco a minha posio, mas no totalmente. Se, porventura, os prximos resultados forem ptimos, talvez voc precise apenas de mais um ano de novas 
pesquisas.
-O que diz de seis meses? Se trabalharmos no produto em todos os nossos laboratrios e concentrarmos todas as nossas capacidades de pesquisa neste projecto? - Considerando 
o lucro que calculavam obter, valeria a pena. E lucro era uma coisa de que Frank Donovan gostava de ouvir falar, no de testes.
-Talvez.  um investimento enorme, se o fizerem.
- Isso  com Mister Donovan, claro. Tenho de discutir o assunto com ele. - Tinha montes de coisas a discutir com ele, e no queria faz-lo pelo telefone. Sabia que 
estava a arriscar-se, mas a verdade  que tencionava aguardar os ltimos resultados dos ensaios e s conversar com Frank depois de saber com exactido o que Suchard 
descobrira. - Gostava de esperar at o se' nhor terminar o ltimo teste, Paul-Louis. Se no se im- portar de, at l, considerar confidencial tudo o que me disse.
- No me importo nada. - Combinaram voltar a
reunir-se logo que o teste final estivesse concludo, e Paul-Louis prometeu telefonar-lhe para o hotel.
o encontro acabou com uma nota de melancolia. peter sentia-se exausto ao apanhar um txi para regressar ao Ritz e decidiu fazer a p os ltimos quarteires at place 
Vendme. Estava desesperadamente infeliz. Tinham trabalhado tanto, fora tal a sua f; como podia o resultado ser to amargo? Como podia o Vicotec surgir agora como 
um assassino? Porque no o haviam descoberto antes? Porque havia de ser assim? A sua nica grande oportunidade de ajudar a humanidade, e em vez disso, apoiara um 
assassino. Tal ironia era demasiado cruel e decepcionante. Chegado ao hotel, at o burbunnho da hora dos cocktads e dos hspedes de um lado para o outro, numa confuso 
bem vestida, lhe desagradou. As habituais estrelas de cinema, rabes, japoneses e franceses, modelos de todo o mundo... Em nada reparou enquanto atravessava o corredor 
e subia pelas escadas para o seu quarto, a pensar no primeiro passo a dar. Sabia que tinha de telefonar ao sogro, no obstante s tencionar faz-lo depois de ter 
recebido o resto das informaes. Gostaria de trocar impresses com Katie, mas no ignorava que o que quer que lhe dissesse chegaria aos ouvidos do sogro antes de 
o Sol nascer. Era essa uma das grandes fraquezas do relacionamento do casal. Katie era incapaz, e no queria mudar, de guardar qual~ quer coisa s para si; o que 
quer que fosse dito entre marido e mulher era sempre partilhado com o pai. Um resqucio que ficara da velha relao de ambos, quando crescera tendo-o s a ele, e, 
apesar das suas tentativas no decurso dos anos, Peter no conseguira modific-la. Resignara-se, contrafeito, e tinha o cuidado de no lhe contar nada a menos que 
tambm ele quisesse comparti-
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lh-lo com Frank. Desta vez, no queria, de forma alguma! Pelo menos para j. Aguardaria at voltar a ter notcias de Paul-Louis, depois enfrentaria o que tivesse 
de enfrentar.
 noite, Peter sentou-se no seu quarto, a olhar pela janela, deixando-se envolver pelo ar quente, incapaz de acreditar no que acontecera. E s dez horas,estava  
varanda, tentando afastar o espectro de um eventual insucesso. Mas tudo o que lhe restava eram os seus sonhos, a proximidade a que tinham chegado, as esperanas 
desfeitas e as vidas alteradas pelo que Paul-Louis lhe dissera e poderia vir a confirmar dentro em breve. Ainda havia esperanas mas, agora, sem dvida muito poucas 
probabilidades de uma aprovao rpida. E aceder aos questionrios da FDA em Setembro seria intil. No iriam permitir-lhes iniciar experincias em seres humanos 
havendo ainda tanto a aperfeioar. De um momento para o outro, quantas coisas em que pensar! Era difcil. lembrar-se de todas elas... s onze horas, decidiu telefonar 
a Katie. Teria sido bom contar-lhe as suas preocupaes, mas pelo menos ouvir-lhe a voz anim-lo-ia.
Obteve a ligao facilmente, mas ningum atendeu. Eram cinco horas da tarde e nem sequer Patrick estava em casa. Talvez Katie tivesse ido jantar fora com amigos. 
E, ao pousar o auscultador, abateu-se sobre si um forte sentimento de depresso. Quatro anos de trabalho rduo e tudo deitado por terra num s dia, ainda por cima 
levando consigo praticamente todos os seus sonhos sobre esse trabalho. Era triste.
Depois de mais um -momento na varanda, passou-lhe pela cabea sair, dar uma volta, mas estranhamente nem deambular por Paris o atraiu; em vez disso, decdiu-se por 
algum exerccio fisico que o libertasse dos
seus demnios. Passou os olhos pelo pequeno prospecto sobre a secretria; desceu ento a escada rapidamente, at  piscina interior, dois andares abaixo. Por sorte, 
ainda estava aberta e Peter trouxera consigo um fato de banho azul-escuro, para o caso de ter oportunidade de o usar. Habitualmente, gostava de ir  piscina do Ritz, 
mas desta vez no viera seguro de ter tempo para o fazer. Dadas as circunstncias, enquanto esperava que Suchard completasse os seus ensaios teria tempo para fazer 
imensas coisas. No entanto, nada lhe apetecia.
O empregado de servio mostrou-se um pouco surpreendido ao v-lo entrar. Era quase meia-noite e no havia l ningum. Na piscina vazia, o silncio era total. O nico 
empregado presente, que estivera a ler calmamente um livro, indicou a Peter um compartimento para mudar de roupa e deu-lhe a chave; um momento depois, Peter atravessava 
a gua de desinfeco, a caminho da piscina principal. Era grande e acolhedora, e ele sentiu-se satisfeito por ter decidido l ir. Exactamente aquilo de que precisava. 
Um banho aclarar-lhe-la as ideias, depois de tudo o que acontecera.
Mergulhou na ponta mais funda, e o seu corpo, comprido e esguio, cortou a gua. Nadou uma distncia considervel debaixo de gua, veio por fim  superficie e percorreu 
a piscina no sentido do comprimento, com braadas largas e regulares; foi ao atingir a outra extremidade que a viu. Nadava calmamente, sobretudo subniersa, de vez 
em quando emergia, voltava a submergir. Era to pequena, to minscula, que quase desaparecia no meio da grande piscina. Trazia um fato de banho preto, simples, 
e quando deitava a cabea de fora o seu cabelo castanho-escuro, colado  cabea, parecia preto; ao reparar nele, os seus enormes olhos negros sobressal-
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taram-se. Reconheceu-o de imediato, mas no lho demonstrou. Limitou-se a mergulhar de novo e continuou a nadar, enquanto ele a observava. E era to estranho obsrv-la, 
sempre to perto e todavia to distante, no elevador, por duas vezes, e agora ali. Sempre desesperadamente perto, porm to longe como se habitasse outro planeta.
Nadaram em silncio durante um certo tempo em extremos opostos da piscina, depois passaram um pelo outro diversas vezes, ambos embrenhados na luta contra os seus 
prprios tormentos; e ento, como se o tivessem planeado, ambos se detiveram na mesma extremidade. Estavam estafados. Sem saber o que fazer, Peter, que no conseguia 
deixar de fix-la, sorriu-lhe e ela retribuiu-lhe o sorriso. E de imediato se afastou nadando, sem lhe dar tempo a pronunciar uma s palavra, fazer uma s pergunta. 
Ele no tinha nada em mente, mas suspeitou que a mulher estava habituada a esse gnero de situaes, a que a perseguissem, quisessem saber coisas que no tinham 
o mnimo direito de lhe perguntar. Surpreendeu-o que no a acompanhasse nenhum guarda-costas; algum saberia que se encontrava ali? Era como se no lhe prestassem 
a mnima ateno. Quando a vira com o senador, ningum a olhara, ou lhe falara, e ela parecera-lhe manifestamente contente por a deixarem no seu mundo, tal como 
agora, enquanto continuava a nadar.
Chegava nesse preciso momento ao extremo oposto quele onde se encontrava Peter; sem na realidade o fazer intencionalmente, comeou a nadar devagarinho ao seu encontro. 
No fazia a mnima ideia de como reagiria se ela se lhe tivesse dirigido, demonstrando um cert
interesse. Porm, no era capaz de imaginar que o fizes-
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se. A mulher era algum para quem podemos olhar, que nos fascina, uma espcie de cone, um mistrio. No tinia pessoa de carne e osso. E como que a comprovar tais 
pensamentos, precisamente no momento em que ele se aproximava, saiu ela da piscina, graciosa, enrolando-se com um gesto rpido na toalha. Quando Peter ergueu uma 
vez mais o olhar, desaparecera. Estivera mesmo atrs dela. No era uma mulher, era uma lenda.
Pouco depois voltou para o quarto e pensou em voltar a ligar para Katie. Eram quase sete horas no Connectcut, provavelmente estaria em casa, a jantar com Patrick, 
a menos que tivessem sado com amigos.
O estranho, porm,  que no fundo no lhe apetecia falar com a mulher. No queria mostrar-se presunoso, ou dizer-lhe que tudo corria bem, no podendo relatar-lhe 
o que se passara com Suchard. Impossvel confiar em que no fosse contar tudo ao pai; no podendo desabafar com ela, foi com uma opressiva sensao de isolamento 
que se deitou na sua cama, no Ritz, em Paris. Quase como se entrasse no purgatrio, num local habitualmente destinado a ser o paraso. E para ali ficou, sob o ar 
tpido da noite, sentindo-se melhor do que antes, pelo menos fisicamente. Nadar ajudara. E tornar a ver Olivia Thatcher deslumbrara-o. Era. to bela, to etrea! 
E parecia to desesperadamente s! No sabia bem o que o levava a pensar tal coisa, se apenas
 que lera a seu respeito ou se tambm algo real, talvez
 que lhe comunicara com aqueles seus olhos castanhos aveludados, to cheios de segredos. Se era impossvel ter certezas apenas por olh-la, o que no deixava dvidas 
era que, quando a via, quereria estender a mo e toc-la, como a uma borboleta extica, s para saber se conseguiria faz-lo e se ela sobreviveria a esse toque.
Todavia, como a maior parte das borboletas exticas, pressentia que, se lhe tocasse, as suas asas se desfariam em p.
Nessa noite sonhou com borboletas e com uma mulher que, escondida atrs de rvores, o espreitava constantemente, numa luxuriante floresta tropical. Sentira-se perdido 
e, ao entrar em pnico e comear a gritar, continuava a v-la; e foi ela quem, em silncio, o guiou para um lugar seguro. No tinha bem a certeza da identidade da 
mulher, mas achou que se tratava de Olivia Thatcher.
E quando de manh acordou, pensava ainda nela, Um sentimento estranho, de quem viveu uma iluso e no um sonho. A verdade  que v-la to perto de si toda a noite, 
no seu sonho, lhe dava a sensao de a conhecer.
Ento, o telefone tocou. Era Frank. Para ele, eram quatro da manh, em Paris dez, e queria saber como correra o encontro com Suchard.
- Como sabe que o vi ontem? - perguntou Peter, num esforo para despertar e ordenar as ideias. O sogro levantava-se todos os dias s quatro da madrugada. E s seis 
e meia, sete, estava no escritrio. Mesmo agora, aps meses daquilo a que chamava reforma, no alterara nem um milmetro a sua rotina.
- Sei que saste de Genebra ao meio-dia. Calculei que no irias perder tempo. Que boas notcias tens? -Era jovial o tom da sua voz e Peter lembrava-se bem de mais 
do choque que sofrera a cada palavra de Paul-Louis.
- De facto, ainda no terminaram os testes - respondeu, intencionalmente vago, e desejando que Frank no lhe tivesse telefonado. - Vou ficar aqui  espera uns dias, 
at eles acabarem.
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Frank riu-se ao ouvi-lo, e por uma vez o som do seu riso enervou Peter. Santo Deus, o que iria ele dizer-lhe?
- No podes deixar o teu "beb" um s instante, pois no, rapaz? - Mas compreendia-o. Todos tinham investido imenso no Vicotec, em dinheiro e em tempo e, no caso 
de Peter, havia ainda os sonhos., que sempre acalentara. Pelo menos, Suchard no dera o caso por arrumado, comentou Peter com os seus botes, enquanto se sentava 
na cama. Tudo o que dissera fora que tinham deparado com problemas. Srios, sem dvida, mas ainda restavam esperanas para a sua aspirao de criana. -Bem, diverte-te 
em Paris uns dias. Ns aguentamos-te o barco. No h nada de especial no escritrio. E hoje, levo a Katie a jantar ao Vinte e Um. Desde que ela no pense que andas 
por a a dar umas curvas, acho que consigo arranjar-me sem ti.
- Obrigado, Frank. Gostava de estar aqui para discutir os resultados com o Suchard, quando ele os tiver. -No lhe pareceu correcto no transmitir a Frank pelo menos 
um ligeiro aviso. - Aparentemente, encontraram umas pequenas imperfeies.
- Nada de grave, com certeza. - Frank continuou a conversa sem prestar maior ateno ao caso. Os resultados na Alemanha e na Sua tinham sido excelentes, no havia 
razo para preocupaes. Tambm Peter o Pensara, at Paul-Louis chamar ao Vicotec um assassino em Potncia. S lhe restava a esperana de que todos estivessem errados 
e os problemas detectados l para o fim da semana fossem insignificantes. - O que  que vais fazer enquanto andas por a s voltas,  espera~
Frank mostrava-se divertido. Gostava do genro, sempre haviam sido bons amigos. Peter era sensato e
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um homem perspicaz, e provara ser um ptimo marido para Katie. Deixava-a fazer o que lhe apetecia, no ten_ tando interferir na sua forma de agir. Permitia-lhe viver 
onde queria, mandar os rapazes para as escolas certas entendendo-se por "certas" Andover e Princeton. ia passar um ms por ano a Martha's Vineyard e respeitava o 
relacionamento que Frank e Katie partilhavam desde a infncia desta. Era, alm disso, um brilhante presidente da Wilson-Donovan. E tambm um bom pai para os rapazes. 
De facto, muito poucas coisas nele desagradavam a Frank, por exemplo, a sua obstinao em certos pontos, tais como jardins-escolas ou assuntos familiares que Frank 
ainda achava no lhe dizerem realmente respeito,
As suas ideias sobre o mercado haviam feito histria e, graas a ele, a Wilson-Donovan era a sociedade farmacutica de maior sucesso no mundo da indstria. Fora 
o prprio Frank o responsvel pelo incremento da firma, passando de um slido negcio familiar a um gigante incontestvel; no entanto, Peter ajudara a que se transformasse 
num imprio internacional. O New York Times referia-se-lhe constantemente e o Wall Streetioumal apelidava-o de campeo do ramo farmacutico. Ainda h bem pouco tempo, 
tinham querido uma entrevista acerca do Vicotec, mas Peter insistira em que no estavam preparados para tal. E o Congresso pedira-lhe, recentemente, que comparecesse 
perante uma importante subcomisso a fim de discutirem as consequncias econmicas e ticas decorrentes da fixao dos preos dos produtos farmacuticos. Peter ainda 
no lhes dissera quando poderia ir.
- Trouxe algum trabalho comigo - responde" Peter, em resposta  pergunta do sogro e olhando de soslaio a varanda banhada pelo sol, sem o mnimo dese-
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jo de trabalhar. - Achei que poderia entreter-me e ir adiantando os trabalhos para o escritrio. Isso e uns passeios chegam-me - acrescentou, pensando no dia inteiro 
que tinha pela frente.
- No te esqueas de arranjar champanhe - brincou Frank. - Tu e o Suchard vo ter a que brindar. E ns ainda mais, logo que voltes. Queres que telefone ao Times 
hoje? - perguntou, a propsito, enquanto peter abanava nervosamente a cabea e se levantava, muito alto, muito esbelto e completamente nu.
- Se eu fosse a si, esperava. Acho que  importante aguardarmos os ltimos resultados, quanto mais no seja para afirmao da nossa credibilidade - declarou, solene, 
imaginando se algum poderia v-lo atravs da janela aberta. O seu cabelo escuro estava todo emaranhado; enrolou o lenol  cintura. O roupo de veludo do hotel 
no estava ao alcance, deixara-o numa cadeira de brocado cor de pssego, a meio do quarto.
- No armes em menina histrica - animou-o Frank. - Os resultados vo ser formidveis. Telefona-me logo que os conheas. - Agora, era Frank quem dava mostras de 
pressa em desligar e ir para o escritrio.
- Claro. Obrigado por ter telefonado, Frank. Um beijo  Katie, no caso de eu no a encontrar antes de o Frank a ver. Ontem, esteve fora o dia inteiro e de moniento 
 muito cedo para lhe falar - acrescentou,  laia de explicao.
- uma garota ocupada - retorquiu o pai, orgulhoso. Para ele, continuava a ser uma garota; e, em certas coisas, no mudara desde a faculdade. O seu aspecto era quase 
o mesmo de h trinta e quatro anos, quando Peter a conhecera. Flexvel, loura, "gira", como os amigos continuavam a dizer, e muito ginasticada. Usava o
cabelo curto e, como ele, tinha olhos azuis; assemelhava-se a uma fada, excepto quando no conseguia o que queria. Uma boa me, uma boa esposa para Peter e uma filha 
excepcional para Frank. Ambos o sabiam. - Eu dou-lhe o teu beijo.
Frank desligou. Peter, sentado no quarto e coberto com um lenol, no despregava os olhos da janela. O que iria dizer-lhe, se a bomba lhes rebentasse debaixo dos 
ps? Como iam justificar os milhes gastos, os bilies que no ganhariam, pelo menos por algum tempo e no sem gastarem ainda mais para solucionar os problemas? 
Estaria Frank disposto a faz-lo? A prosseguir com o Vicotec at onde fosse preciso para o tornar perfeito, ou insistiria no abandono do projecto? Como administrador-geral, 
cabia-lhe a deciso, mas Peter lutaria quanto pudesse pelo prosseguimento das pesquisas. Estava sempre pronto a remar contra ventos e mars, at ~ vitria. Frank 
gostava das vitrias rpidas, aparatosas. j ter de o convencer durante os ltimos quatro anos fora bastante duro, mais um ano ou dois era capaz de ser demasiado, 
especialmente tendo em conta o montante a investir.
Pediu que lhe trouxessem caf e croissants e depois pegou no telefone. Sim, deveria esperar pelo telefonema de Suchard, s que no foi capaz. Perguntou por Paul-Louis 
e foi-lhe dito que o Dr. Suchard se encontrava no laboratrio e no podia ser interrompido. Tratava-se de uma reunio muito importante. E tudo o que restou a Peter 
foi pedir desculpa e mergulhar de novo na agonia da espera. Era como se aguardasse h uma eternidade. Nem vinte e quatro horas tinham decorrido desde o encontro 
da vspera, e j Peter se sentia estourar de tenso.
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Vestiu o roupo antes de chegar o pequeno-almoo e pensou em ir nadar outra vez; afigurou-se-lhe, todavia, imprprio faz-lo durante as horas de trabalho. Agarrou-se 
ao computador enquanto mastigava um croissant e sorvia o caf, mas era-lhe impossvel concentrar-se; pelo meio-dia, tomou um duche, vestiu-se e desistiu da ideia 
de trabalhar.
Levou um bom bocado a decidir o que fazer. Apetecia-lhe qualquer coisa frvola, genumamente parisiense. Um passeio ao longo do Sena, ou no Septirne, pela Rue du 
Bac abaixo, ou apenas sentar-se no Quartier Latin, a tomar uma bebida enquanto via passar os transeuntes. Fosse o que fosse, mas no trabalhar, nem pensar no Vicotec. 
Apenas sair do quarto e integrar-se na cidade.
Vestiu um fato escuro e uma das suas camisas brancas, de corte perfeito. No ia encontrar-se com ningum, mas no trouxera mais nada e, ao atravessar a Place Vendme 
sob o resplandecente sol de junho, acenou a um txi e pediu ao motorista que o levasse ao Bois de Boulogne. Esquecera-se do quanto gostava de l estar, deixou-se 
ficar ao sol, durante horas, sentado num banco, a comer gelado e a observar as crianas. Era grande a distncia das lutas dos laboratrios com o Vicotec, ainda maior 
de Greenwich, no Connecticut. Na sua mente, tudo isso perdeu importncia em prol do sol de Paris; at a misteriosa jovem esposa do senador Thatcher se encontrava 
bem longe.
CAPTULO 3
Quando nessa tarde Peter saiu do Bois de Boulogne, apanhou um txi para o Louvre e deambulou por l um pouco. Muitssimo bem organizado, desprendia-se um tal vigor 
das esttuas do ptio que ele se deixou ficar parado, longo tempo, a contempl-las, hipnotizado, em perfeita comunho com elas. Nem prestou ateno  pirmide de 
vidro que fora colocada mesmo diante do Louvre e que tamanha controvrsia provocara, tanto por parte dos estrangeiros como dos Parisienses. Caminhou depois um bocado 
e finalmente apanhou outro txi, para regressar ao hotel. Estivera horas ausente, sentia-se de novo humano e, sem saber porqu, mais esperanoso. Mesmo que os ensaios 
no corressem bem, haveria qualquer maneira de salvaguardar o caminho j percorrido e ir em frente. No deixaria morrer um projecto daqueles por causa de meia dzia 
de problemas. Os questionrios da FDA no eram nada do outro mundo, fora-lhes submetido ao longo dos anos, e se tivessem de passar cinco anos em vez de quatro, ou 
at mesmo seis, que passassem.
Foi descontrado e filosfico que regressou ao Ritz. Era tarde, e no havia mensagens para ele. Parou, comprou um jornal, decidiu procurar a encarregada das montras 
e adquiriu a pulseira de ouro para Katie. Era uma corrente slida, com um nico e grande corao de ouro pendurado. A mulher gostava imenso de coraes, Peter sabia 
que ela iria usar aquele. O pai comprava-lhe coisas carssimas, tais como colares e anis de diamantes e, sabendo que no podia competir com ele,
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Peter limitava geralmente os seus presentes ao gnero de coisas que sabia que ela usaria, ou ento com um significado especial.
Ao entrar no quarto, relanceou o olhar pelo espao vazio e de novo o assaltou a ansiedade. Atentao de telefonar a Suchard foi enorme, mas desta vez resistiu-lhe. 
Em compensao, ligou para Katie; uma vez mais, s o atendedor de chamadas lhe respondeu. Era meio-dia no Connecticut, decerto teria ido almoar fora e, quanto aos 
rapazes, s Deus sabia por onde andariam
Mike e Paul j deviam ter voltado do liceu, Patrick nunca se fora embora, e, dentro de mais ou menos uma semana, Katie arrastaria todos para Vineyard. Peter ficava 
na cidade a trabalhar, juntava-se-lhes nos fins-de-semana, como sempre fazia, e depois passava com eles as quatro semanas de ferias, em Agosto. Nesse ano, Frank 
tiraria julho e Agosto e Katie planeava para o 4 de julho um grande churrasco de inaugurao da temporada.
- Tenho pena de no te encontrar - disse  mquina, sentindo-se idiota. Detestava falar para aparelhos electrnicos. - A diferena horria dificulta as coisas. Telefono-te 
mais tarde... adeus... Ah... fala o Peter.
Esboou um sorriso, desejoso de que a voz no lhe tivesse sado demasiado estpida. O atendedor embaraava-o sempre. "Lder de indstria incapaz de falar para um 
atendedor de chamadas", murmurou, troando de si prprio, enquanto se espreguiava no sof do quarto de cetim cor de pssego e olhava em redor, tentando decidir 
o que fazer  hora de jantar. Poderia escolher entre ir a um caf prximo, comer na sala de jantar do hotel, ou pedir que lhe levassem a refeio ao quarto, ver 
a CNN e trabalhar no computador. Acabou por optar pela ltima hiptese. Era a mais simples.
Tirou o casaco e a gravata, arregaou as mangas da carnisa imaculada. Era uma daquelas pessoas que ao fim do dia mantm o aspecto impecvel que tm de manh. os 
filhos metiam-se com ele, ao que Peter respondia que nascera de gravata ao pescoo, o que lhe dava vontade de rir ao lembrar-se da sua juventude no Wisconsin. Gostaria 
que os pequenos tivessem.um pouco mais de Wisconsin e um pouco menos de Greenwich, Connecticut e Martha's Vineyard. Mas o Wisconsin ficara para trs, bem para trs. 
Com os pais e a irm h muito desaparecidos, no tinha qualquer razo para l voltar. s vezes ainda pensava nos filhos de Muriel, em Montana, mas de certa maneira 
era tarde de mais para tentar estabelecer contacto. Quase adultos, nem sequer o reconheceriam. Katie tinha razo. Era tarde de mais, agora.
Nessa noite, o noticirio no trouxe nada de interesse e Peter foi-se embrenhando no trabalho  medida que a noite se instalava. Surpreendeu-o a boa qualidade do 
jantar mas, para grande desgosto dos criados, no lhe prestou muita ateno. Estes apresentaram-no de uma forma extremamente requintada, mas ele colocou-o sobre 
a impressora a seu lado e no interrompeu o trabalho.
- Vous devrez sortir, monseur - alvitrou o criado. "O senhor devia sair." A noite estava ptima e a cidade maravilhosa, banhada pela luz da lua cheia; Peter forou-se 
a no se deixar influenciar.
i prometeu a si prprio outro exerccio de natao, mais tarde, a ttulo de recompensa quando acabasse o seu trabalho; dispunha-se precisamente a faz-lo, cerca 
das onze horas, quando ouviu um bip persistente. Pensou que proviria de um rdio ou de um televisor, ou talvez algum tivesse manipulado mal o conputador no
quarto ao lado. Era uma campainha importuna que aumentava com uma espcie de latido alto e prolongado;, sem perceber do que se tratava, acabou por abrir a porta 
e descobriu instantaneamente que, com ela aberta, o som aumentava de intensidade. Outros hspedes espreitavam para o corredor, alguns deles parecendo preocupados 
e atemorizados.
- Fogo? Fogo? - perguntou a um paquete que passava, apressado, e se virou, inseguro, mal parando para lhe responder:
- Cest peut-tre un ncendie, monsieur - respondeu o rapaz, confirmando a Peter que talvez fosse isso. Ningum parecia saber ao certo, mas no restavam dvidas de 
que se tratava de um alarme e cada vez mais gente, enchia os corredores. E, subitamente, foi como se todo o pessoal do hotel entrasse em aco. Seguranas, chefes, 
criados, criadas e a gouvernante do andar, empregados de todos os gneros percorriam serena mas rapidamente os andares, batendo s portas, tocando campainhas e ins-1 
tando com cada hspede para que sasse o mais depressa] possvel e non, non, madame, por favor no mude de roupa, essa est bem. Agouvernante tirava vestidos dos 
quartos, os paquetes carregavam malas pequenas e ajudavam as senhoras a trazer os ces. No fora ainda dada qualquer explicao, mas a todos havia sido dito que 
evacuassem imediatamente o local, sem perder um s minuto.
Peter hesitou em levar consigo a impressora, mas logo decidiu deix-la. No continha segredos da companhia, s umas notas, informaes e correspondncia de que teria 
de encarregar-se. Por um lado, era um alvio abandon-la. Nem se preocupou em vestir o casaco, limitou-se a meter a carteira e o passaporte na algibeira
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das calas, pegou na chave do quarto e apressou-se a descer as escadas, no meio de senhoras japonesas vestidas  pressa com fatos Gucci e Dior, uma enorme famlia 
americana "fugida" do segundo andar, vrias rabes com jias extraordinrias, uma mo-cheia de alemes bem-parecidos que se empurravam degraus abaixo e tufos de 
miniaturas de terriers-de-yorkshire e poodles-franceses.
Havia algo de deliciosamente cmico na cena; Peter no pde deixar de sorrir para consigo enquanto descia tranquilamente a escada, tentando no estabelecer comparaes 
com o Titanic. O Ritz era muito slido.
E durante todo o percurso iam sendo abordados por pessoal do hotel, que ajudava, acalmava, estendia uma mo quando necessrio, cumprimentava as pessoas uma a uma 
e se desculpava pelo incmodo. Porm, ningum mencionara ainda a razo exacta da ocorrncia, se se tratava de um fogo, de um falso alarme ou de qualquer outra ameaa 
grave aos hspedes do hotel. Uma vez atravessado o corredor repleto de montras e a recepo, e j na rua, Peter deparou com as tropas do CRS, fardadas, armadas e 
protegidas. Correspondiam mais ou menos a uma equipa americana dos SWAT, e ver o rei Khaled e o seu grupo serem rapidamente afastados em carros do Estado, sugeriu-lhe 
que talvez temessem uma bomba. Havia tambm duas actrizes francesas muito conhecidas, com "amigos", um nmero espantoso de velhotes com raparigas novas, e Clint 
Eastwood, acabado de chegar das filmagens, de calas de ganga e T-shirt. Por essa altura j todo o hotel abandonara os quartos; era quase meia~noite. Impressionava 
a rapidez com que tudo fora feito, a sensatez, a segurana. O pessoal dera "ma lio de mestre na forma por que guiara os seus
hspedes na Place Vendme e agora, a uma distncia segura, estavam a colocar mesas rolantes sobre as quais havia biscoitos e caf e, para os que davam mostras de 
precisar delas, tambm bebidas mais fortes. Quase seria divertido, se no fosse to tarde, to inconveniente
no pairasse no ar a vaga ameaa de perigo.
-L se vai o meu banho nocturno na piscina comentou Peter para Clint Eastwood, mesmo a seu lado, ambos a olhar para o hotel tentando ver se saa fumo, mas no vendo 
nenhum. O CRS entrara h dez minutos,  procura de bombas.
- L se vai o meu sono - replicou, resmungando, o actor. - Tenho uma chamada s quatro da madrugada. Pode levar imenso tempo, se andam  procura de uma bomba. - 
Estava a pensar em dormir no atrelado, mas os outros hspedes no tinham essa opo. Restava-lhes ficar ali, de p, na rua, ainda de certo modo estupefactos, agarrados 
aos ces, aos amigos e s suas pequenas caixas de pele cheias de jias.
Enquanto via entrar outra onda de tropas do CRS, e acatava a ordem de se afastar mais do hotel, virou-se e, subitamente, viu-a. Descortinou Andy Thatcher, rodeado 
como de costume por lambe-botas e guarda-costas, e aparentando total indiferena pelo tumulto, Continuava uma conversa animada com os do seu bando, todo ele constitudo, 
com uma s excepo, por homens; a nica mulher lembrava um buldogue poltico. Fumava com intensidade e Thatcher mostrava-se profundamente interessado no que ela 
dizia. Peter reparou que com Olivia, mesmo atrs do grupo, ningum falava. No lhe prestavam a mnima ateno, enquanto ele a olhava, fascinado como sempre. Olivia, 
a beber uma chvena do caf do hotel, deu alguns passos para o
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lado, ignorada at pelos guarda-costas. Vestia uma T-shirt branca e calas de ganga, trazia calados uns sa
patos de casa; os olhos que tanto o haviam hipnotizado abarcavam toda a cena, enquanto o marido e o seu squito avanavam lentamente. Thatcher e um dos seus homens 
abordaram vrios elementos do CRS, mas estes limitavam-se a abanar as cabeas. Ainda no tinham encontrado aquilo que procuravam. Algum trouxe para o exterior cadeiras 
desdobrveis, que os criados distriburam pelos hspedes; tambm veio vinho do hotel e toda a gente dava mostras de uma surpreendente boa disposio face ao incmodo. 
Pouco a pouco, criava-se na Place Vendme um ambiente de festa nocturna ao ar livre. E, contra sua vontade, Peter continuava a observar Olivia com interesse.
Momentos depois, ainda mais se afastara do grupo e mesmo os guarda-costas pareciam ter-lhe perdido o rasto, sem que tal os incomodasse. O senador estivera sempre 
de costas para ela, desde que saram do hotel, nem uma s vez lhe dirigindo a palavra; ele e o seu bando instalaram-se em cadeiras e Olivia, ao ir buscar outra chvena 
de caf, aproximou-se mais da retaguarda das vrias centenas de hspedes que ocupavam a Place Vendme. A, de p, demonstrava a maior tranquilidade, sem que lhe 
importasse minimamente o facto de todo o grupo do marido a ignorar. Ao contempl-la, o fascnio de Peter aumentava, no sendo capaz de arredar dela o olhar.
A mulher ofereceu uma cadeira a uma americana idosa, fez festas a um cozito, colocou a chvena vazia sobre uma mesa. Um criado ofereceu-lhe outra, mas ela sorriu 
e abanou graciosamente a cabea, recusando. Irradiava uma gentileza encantadora e luminosa, como se
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tivesse acabado de pousar na Terra e fosse na realidade um anjo. S difcilmente Peter aceitava tratar-se de uma mulher. Era demasiado calma, demasiado gentil, demasiado 
perfeita, demasiado misteriosa e, quando algum se aproximava, demasiado assustada. Fazia-lhe obviamente mal sentir-se examinada de perto. Mostrava-se muito mais 
feliz quando ningum lhe ligava importncia, o que era o caso nessa noite. Muito despretenciosamente vestida, nada presunosa, nem os americanos integrados na multido 
a reconheciam, apesar de a terem visto centenas de vezes nos jornais e revistas do pas. H anos que estava na mira de todos os paparazzi, perseguiam-na, apanhavam~na 
desprevenida, em especial durante os anos que passara com o filho doente e a morrer. Mesmo agora, ela intrigava-os, como se fosse uma lenda, uma espcie de mrtir.
E, dado que a observava ininterruptamente, Peter no pde deixar de notar que, aos poucos, ela ia recuando, deixando para trs os outros hspedes; j s com esforo 
a descortinava. Agiria assim por uma razo determinada, ou recuara inadvertidamente? Encontrava-se bem longe do marido e da sua gente, e nenhum deles poderia v-la, 
a menos que tambm eles recuassem
 sua procura. Mais hspedes haviam regressado ao hotel, vindos de restaurantes ou de clubes nocturnos, como o Chez Castel, ou simplesmente de um jantar com amigos, 
ou de um espectculo. Tambm os mirones apareciam, curiosos em relao ao acontecimento. Todos os cochichos entre a multido culpavam o rei Khaled. Encontrava-se 
tambm no hotel um eminente
ministro britnico, correra o boato de que poderia ser obra do IRA, mas supostamente algum colocara uma bomba, ou dissera que a colocara, e por ordem da Polcia 
ningum voltaria para o hotel at o CRS a encontrar.
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Passava bastante da meia-noite; h muito que Eastwood se afastara, indo dormir para o seu atrelado no cenrio. No ia perder as suas poucas horas prximas de sono, 
ali, de p na Place Vendme,  espera at de manh. E ao relancear o olhar pelo ajuntamento, Peter re-
parou que Olivia Thatcher se desviava devagarinho dos
hspedes e se encaminhava de forma despreocupada para o outro lado da praa. De costas para os que l ficavam, seguia, mansamente mas com rapidez, para a esquina. 
Onde iria? Procurou um guarda-costas, talvez seguindo-a; tinha a certeza de que, se algum se apercebera dos seus passos, teriam mandado um. Mas Olivia estava claramente 
por sua conta quando prosseguiu, apressada, sem nunca olhar para trs. Peter no a perdia de vista e, sem pensar, afastou-se por seu turno da multido e comeou 
a segui-la, a caminho da esquina da Place Vendme. Era tal a actividade no exterior do hotel, e to espalhada por toda a parte, que ningum daria pelo desaparecimento 
de qualquer deles. Do que Peter no se deu conta foi de que, pelo menos durante alguns passos, um homem o seguia; mas ao som de um alvoroo na praa, desinteressou-se 
e regressou ao mago da aco, onde duas modelos de renome tinham colocado um leitor de CDs e comeado a danar uma com a outra, diante de um CRS denotando nervosismo. 
Chegara entretanto a CNN, estavam a entrevistar o senador Thatcher sobre a sua opinio a respeito dos terroristas no estrangeiro e no seu pas, e este respondia-lhes 
em termos precisos o que pensava. Dado o que acontecera ao seu irmo cerca de seis anos antes, era-lhe particularmente antiptico esse gnero de disparate. Fez um 
pequeno discurso sensacional, e os que  sua volta o ouviram aplaudiram-no no final, aps o que a equipa da
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CNN seguiu em frente para entrevistar mais gente. Coisa interessante, nunca perguntaram pela sua esposa, era bvio que o senador falava por ambos; a equip, apressou-se 
a chegarjunto das modelos que danavam e entrevistou-as logo depois de Andy. Declararam achar que a noite estava a ser divertidssima e talvez o Ritz,~ repetisse 
mais vezes. Iam ficar trs dias no hotel, para um anncio do Harper's Bazaar, e ambas afirmaram que adoravam Paris. Cantaram uma curta cano e sapatearam, bastante 
mal, na Place Vendme. Reinava a vivacidade e, a despeito do perigo que representava a bomba no encontrada, a noite foi de festa.
J ento Peter estava longe de tudo isso, a seguir a mulher do senador, primeiro at  esquina e depois para alm da Place Vendme. Olivia parecia saber para onde 
ia, nem por um segundo hesitando. Limitava-se a caminhar. Andava depressa, e Peter s a passos largos conseguia acompanh-la deixando-a seguir  frente e sem a menor 
ideia do que lhe diria se ela parasse, olhasse em redor e lhe perguntasse o que fazia ali. Alis, no tinha a menor ideia, nem do que fazia, nem do porqu de o fazer. 
Sabia apenas que tivera de faz-lo. Fora compelido a segui-la, disse para consigo que pretendia proteg-la, quela hora da noite, mas sem a menor ideia do porqu 
de ser ele a proteg-la.
Surpreendeu-o Olivia ter feito todo o percurso at Place de la Concorde e depois parado, com um sorriso nos lbios, a contemplar os repuxos e, l longe, o brilho 
da Torre Eiffel. Havia na praa um velho sentado, um jovem a passear, e dois casais aos beijos, mas ningum lhe prestava ateno, e ela parecia to feliz, ali parada. 
Que vontade teve de avanar, passar-lhe um brao pelas costas e, junto dela, contemplar tambm a gua! Em vez
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disso, manteve-se a uma distncia curta, sorrindo-lhe. Foi ento que, para sua estupefaco, a mulher o fitou, com mil perguntas no olhar. Foi como se o soubesse 
ali
porque, mas continuasse a sentir que ele lhe devia uma explicao. Seguira-a, era indiscutvel, e ela no se mostrava nem zangada nem amedrontada e, o que verdadeiramente 
o espantou, voltou-se e caminhou lentamente ao seu encontro. Sabia quem ele era, reconhecera o homem da piscina da noite anterior, mas Peter corou, na noite escura, 
ao v-la avanar.
- o senhor  fotgrafo? - perguntou, olhos nos olhos, muito calmamente. Parecia bastante vulnervel e, de um momento para o outro, muito triste. J lhe acontecera 
antes, mil, um milho de vezes, ad nauseam et infinitum. Fotgrafos perseguiam-na por toda a parte, vitoriosos se lhe roubavam um instante de privacidade. Estava 
habituada, no lhe agradava mas aceitava-o como parte da sua vida.
Ele, porm, abanou a cabea; captara o seu sentimento e lamentava ter-se intrometido.
- No, no sou... Desculpe-me... eu... eu s queria ter a certeza de que a senhora...  muito tarde. - Pousou ento os olhos nela e sentiu-se menos embaraado e 
mais protector. To incrvel, to delicada! Nunca conhecera ningum igual. - No devia andar a passear sozinha  noite, to tarde,  perigoso. - Olivia olhou o jovem 
e o velho clochard e encolheu os ombros, fitando Peter com interesse.
- Porque  que me seguiu? - A pergunta foi muito di-
recta, e os seus olhos de veludo castanho eram to doces ao
olh-lo que tudo o que desejaria seria tocar-lhe a face com a mo.
- Eu... no sei - respondeu, honestamente. -
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Curiosidade... cavalheirismo... fascnio... loucura... estupidez... - Queria dizer-lhe que o subjugava  sua beleza, mas no foi capaz. - Quis ter a certeza de que 
estava tudo bem consigo. - E, ento, decidiu ser tambm directo. As circunstncias eram invulgares e Olivia parecia o gnero de pessoa com a qual se pode cortar 
a direito. - Afastou-se, simplesmente, no foi? No sabem que se veio embora, pois no? - Ou talvez agora soubessem e a procurassem por toda a parte, mas era visvel 
que isso a deixava indiferente. Dir-se-ia uma criana travessa, quando levantou os olhos para ele. Peter viu o que ela ia dizer, e sabia que era assim.
- Provavelmente, nunca do pela diferena - proferiu, sincera, mas sem demonstrar arrependimento, antes surpreendentemente maliciosa. Pelo que ele vira, era na verdade 
uma mulher ignorada. No grupo, nunca ningum lhe prestava ateno, ou lhe dirigia a palavra nem o marido. - Tinha de me vir embora. Por vezes  muito opressivo estar 
na minha pele. - Fitou-o, sen ter a certeza de que ele a reconhecera e, na negativa sem querer deitar tudo a perder.
_ Todas as peles so por vezes opressivas - replicou Peter, filosofando. A dele era-o com demasiada frequncia, mas sabia que a dela o era muito mais. E voltou a 
olh-la com complacncia. J fora to longe e no via mal em avanar um pouco. - Posso oferecer-lhe um caf? - O truque era velho e ambos riram. Olivia hesitou um 
longo momento, enquanto tentava decidir se era mesmo aquilo que ele queria dizer ou
se estava apenas a brincar e, notando a sua hesitao, Peter sorriu. - Foi um convite sincero. Sou relativamente bem-comportado, pelo menos de confiana suficiente
para se tomar um caf comigo. Sugeria o meu hotel mas parece que eles esto com um problema qualquer.
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A mulher riu-se e mostrou-se mais descontrada. Conhecia-o do hotel, no elevador e na piscina. Usava uma camisa cara, estava apresentvel, trazia as calas de um 
fato e sapatos de boa qualidade. E algo nos seus olhos lhe dizia que era respeitvel e gentil; concordou, com um aceno de cabea.
- Aceito um caf, mas no no seu hotel. - Fingiu afectao. - Est um bocado agitado de mais para o meu gosto, esta noite. O que acha de Montmartre? -sugeriu, cautelosa, 
e ele sorriu. Agradara-lhe a sugesto.
-  uma ptima ideia. Posso propor um txi? -Encaminharam-se para a praa de txis mais prxima, ajudou-a a entrar e ela deu o endereo de um caf que sabia que 
estava aberto at tarde e que tinha mesas no exterior.
A noite continuava quente e a nenhum deles apetecia voltar para o hotel, embora ambos se mostrassem um pouco envergonhados. Foi ela quem primeiro quebrou o gelo, 
enquanto o olhava com uma expresso provocante.
- Faz isto muitas vezes? Seguir mulheres, quero eu dizer...
A observao divertiu-o e, dentro do txi, Peter corou; negou, abanando a cabea.
- O facto  que nunca o tinha feito.  a primeira vez, em absoluto, e ainda no sei bem porqu. - Excepto o facto de ela parecer to vulnervel e to frgil e, por 
qualquer insensata razo, querer proteg-la; isso, porm, no disse.
- Para falar com franqueza, agrada-me que o tenha feito. - Mostrava-se genuinamente bem-disposta e com um surpreendente -vontade com ele quando chegaram ao restaurante. 
Um instante depois, estavam sen-
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tados a uma mesa ao ar livre, diante de duas chvenas de caf a ferver. - Que ptima ideia. - Sorriu-lhe.
Agora, fale-me de si. - Apoiou o queixo na mo e Peter achou-lhe parecenas com Atidrey Hepbum.
-No h muito que dizer - respondeu, ainda com algum embarao, mas tambm excitado por estar onde estava.
-Tenho a certeza de que h. De onde ? Nova Iorque? - tentou adivinhar, com bastante perspiccia, Pelo menos, era a que trabalhava.
- Mais ou menos. Trabalho em Nova Iorque. Moro em Greenwich.
- E  casado e tem dois filhos. - Preenchia os vazios por ele, sorrindo-lhe, pensativa, quando o fazia. A vida dele era provavelmente to feliz e to banal, to 
diferente da sua, com tantas tragdias e desapontamentos,
- Trs filhos - corrigiu-a. - E sim, sou casado. -E ao pensar na sua abundncia de filhos, sentiu-se culpado perante ela e a memria do rapazinho que o cancro lhe 
levara. Como todo o mundo, estava a par de que s tivera esse filho, no havendo mais nenhum depois.
- Eu vivo em Washington - continuou ela, serena -, a maior parte do tempo. - No se referiu a ter ou no filhos e, sabendo o que sabia a seu respeito, tambm ele 
se absteve de qualquer comentrio.
- Gosta de Washington? - Ela encolheu os ombros, enquanto ia bebendo o caf.
Nem por isso. Detestava, quando era criana. Suponho que, se meditasse no caso, - ainda a detestava mais agora. No  da cidade que no gosto,  das pessoas e daquilo 
que fazem das suas vidas. Das suas, e das de todos os outros. Odeio a poltica e, l, tudo  poltica.
Era notrio o fervor com que o afirmava. Mas com um irmo, um pai e um marido profundamente embrenhados na poltica, poucas esperanas lhe restavam de escapar s 
suas garras. E, ao olh-lo, sem ainda se ter apresentado, gostaria de acreditar que ele no sabia quem ela era, apenas uma mulher de sapatos simples, calas de ganga 
e T-shirt. Leu-lhe porm nos olhos que ele conhecia o seu segredo. No devia ser essa a razo de estar ali, a tomar caf com ela s duas da manh, mas saber, sabia. 
- julgo ser irrealista pensar que ignora o meu nome... Ou ignora? - perguntou, com os olhos muito abertos; e foi uma vez mais com pena dela que Peter abanou a cabea. 
O anonimato ter-lhe-ia sido agradvel, mas no era o seu destino, nunca, enquanto fosse viva.
- No ignoro e, sim, seria irrealista pensar que as pessoas no sabem quem . Mas isso no altera nada. Tem todo o direito de detestar a poltica, ou seja o que 
for, ou dar um passeio at  Place de la Concorde, ou conversar com um amigo. Toda a gente tem direitos desses. - Compreendia perfeitamente at que ponto ela se 
sentia desconfortvel.
- Obrigada. - E era doce o som da sua voz. - Disse h bocado que todas as peles so por vezes incmodas. A sua tambm?
- Agora e aqui - respondeu ele com honestidade. -Todos ns atravessamos momentos difceis. Sou director de uma sociedade e acontece-me desejar que ningum o soubesse... 
poder fazer tudo o que me apetecesse. -Como nesse preciso instante. Por um breve lapso de tempo com ela, gostaria de voltar a ser livre, esquecer o casamento. Mas 
sabia que nunca faria semelhante coisa a Katie. Nunca lhe mentira na vida e no tencionava confear agora, nem sequer com Olivia Thatcher. Um ac-
to desses era tambm a ltima coisa que passaria pela cabea desta. - Acho que h ocasies em que todos nos sentimos cansados das nossas vidas e das responsabilidades 
que enfrentamos. Provavelmente, no to cansado como voc - acrescentou, com simpatia. - Creio que, cada um  sua maneira, j houve para todos ns momentos em que 
desejmos sair da Place Vendme
desaparecer por algum tempo. Como a Agatha Christie Sempre me intrigou essa histria. - Olivia sorriu com timidez. - E sempre me apeteceu fazer o mesmo. - Impressionava-a 
o que sabia sobre o assunto Fascinava-a a razo que levara Agatha Christie a desapa. recer, um dia, sem mais aquelas. Tinham encontrado
seu carro enfeixado contra um rvore. E a famosa escritora evaporara-se. S vrios dias depois reaparecera No deu, porm, a mnima explicao sobre a sua ausncia. 
Na altura, o caso provocara um enorme tumulto; em toda a Inglaterra surgiram ttulos de primeira pgina sobre o seu desaparecimento. Na verdade, em todo o mundo.
-Bem, voc agora fez o mesmo, pelo menos por umas horas. Saiu da sua vida, tal como ela. - Sorria-lhe e ela olhou-o com um olhar cheio de malcia, retribuindo-lhe 
o sorriso. Depois, a ideia f-la rir e, por mo-
mentos, atraiu-a.
- Mas ela desapareceu por uns dias. Comigo,  s por umas horas - retorquiu, um pouco desapontada.
- Provavelmente, agora andam loucos  sua procura por toda a parte. Talvez pensem que foi raptada pelo rei Khaled. - A estas palavras, Olivia riu-se ainda mais, 
como uma criana; pouco depois, Peter encomendou uma sanduche para cada um e, quando elas chegaram, devoraram-nas. Estavam esfomeados.
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_ No creio que andem sequer  minha procura, sabe? No tenho a certeza de que, se desaparecesse mesmo, algum daria por isso, a menos que nesse dia houvesse uma 
reunio a que deveria assistir, ou um discurso de campanha num clube feminino. Quando h coisas dessas, sou utilssima. No havendo, pouca importncia tenho. Mais 
ou menos como aquelas rvores artificiais com que se decora o palco. No  preciso adub-las ou reg-las, apenas se retiram e guardam para quando for necessrio 
ornamentar uma pequena janela para o espectculo principal.
- Que coisa horrvel de dizer - repreendeu-a ele, apesar de, pelo que vira, no estar certo de discordar.
 mesmo isso o que pensa da sua vida?
-Mais ou menos. - Sabia que se arriscava imenso. Se afinal o homem fosse um reprter ou, ainda pior, algum dos tablides, de manh estaria feita em fanicos. De 
certa forma, pouco lhe importava. De quando em vez precisava de confiar em algum; sentia desprender-se de Peter um no sei qu de incrivelmente afectuoso e atraente. 
Nunca conversara com ningum como o fazia agora, e no queria calar-se, nem voltar para a sua vida ou sequer regressar ao Hotel Ritz. Apetecia-lhe ficar ali, com 
ele, em Montmartre, para sempre.
- Porque casou com ele? - atreveu-se Peter a perguntar, quando ela pousou a sanduche; o olhar de Olivia perdeu-se na noite, pensativo, por um bom bocado, antes 
de voltar a fixar-se em Peter.
- Nessa altura, era diferente. Mas a vida muda muito depressa. Aconteceu-nos uma quantidade de coi-
sas. No Incio, tudo parecia certo. Amvamo-nos, Preocupvamo-nos um com o outro, ele jurou-me que nunca se meteria em poltica. Eu via o que a carreira do
meu pai nos fazia, em especial  minha me, e o Andy acabara o curso de Direito. amos ter filhos, cavalos, ces, viver numa quinta na Virgnia. Foi o que fizemos 
cerca de seis meses, e ento acabou-se. O irmo era o poltico da famlia, no o Andy. Talvez o Tom tivesse sido presidente e para mim teria sido uma felicidade 
nunca ver a Casa Branca seno quando acendem a rvore, no Natal. Mas o Tom foi assassinado seis meses de, pois de nos termos casado, e os tipos da campanha agarraram-se 
ao Andy. No sei o que lhe aconteceu, se se sentiu obrigado por o irmo ter sido morto, obrigado a seguir-lhe as pisadas e fazer "qualquer coisa til pelo pas". 
Ouvi esta frase at  exausto. E penso que o meu marido se apaixonou por ela. Sobe  cabea, essa coisa chamada ambio poltica. Acabei por perceber que exige 
mais de ns do que qualquer criana, e parece oferecer mais excitao e paixo do que qualquer mulher. Devora quem se lhe chegar perto. No se pode amar a poltica 
e sobreviver. No se pode,  assim mesmo. Eu sei. Acaba por devorar o que quer que se tenha dentro de ns, todo o amor, bondade e decncia, devorar o que se era 
antes e pr em seu lugar um animal poltico. Como que uma troca. Foi o que se passou. O Andy entrou na poltica e ento, por mim, e porque achava que ambos o desejvamos, 
tive um filho. Mas ele no o desejava verdadeiramente. O Alex nasceu durante uma das suas viagens de campanha. O Andy nem sequer estava presente. Nem quando ele 
morreu. - s ltimas palavras, contraiu-se-lhe o rosto. - Coisas destas modificam qualquer um... o Tom... o Alex... a poltica. A maioria das pessoas no as ultrapassa. 
Ns no ultrapassmos. No sei porque pensei que o conseguiramos. Era pedir muito. Acho que, ao morrer, o Tom levou
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consigo a maior parte do Andy. Aconteceu-me o mesmo com o Alex. O jogo da vida  por vezes muito duro. Invencvel, por mais que se tente, por mais dinheiro
que se ponha na mesa. Um jogo em que investi muitssimo e que pratico h imenso tempo. Estamos casados h seis anos e nem um s foi fcil.
- Porque continua? - Espantosa, uma conversa deste teor entre estranhos, ao ponto de a ambos surpreender o atrevimento das perguntas dele e a candura das respostas 
dela.
- Como fazer? O que dizer? "Lamento que o teu irmo tenha morrido e toda a tua vida tenha ficado em frangalhos... Lamento que o nosso nico filho... - De sbito, 
embargou-se-lhe a voz. Peter pegou-lhe na mo, apertou-a na sua e ela no a retirou. Na noite anterior, eram de facto dois estranhos numa piscina e de repente, num 
caf em Montmartre, passado um dia, quase dois amigos.
- Pode ter mais filhos? - interrogou-a Peter, prudentemente. Nunca se sabe o que acontece s pessoas, o que podem ou no podem... No entanto, quis perguntar-lho, 
ouvir a resposta.
Olivia abanou afirmativa a cabea, mas com uma expresso triste.
- Poderia, mas no quero. Agora, no. Nunca mais. Nem sequer quero voltar a preocupar-me tanto com outro ser humano. E tambm no quero trazer outra criana para 
o mundo em que hoje vivo.  uma existncia que quase deu cabo da minha vida e da do ineu irmo, em jovens... e, mais importante do que isso, da da minha me. Aceitou 
tudo sem um queixume durante quarenta anos, e odiou cada minuto desses quarenta anos. Nunca o confessou, nunca o admitiu peran-
te ningum, mas a poltica arrumou-lhe a vida. Vive o terror constante da interpretao que as pessoas daro a cada um dos seus gestos, tem medo de ser, ou de pensar, 
ou de dizer seja o que for. Era assim que o Andy quereria que eu fosse, e que eu no sou capaz de ser. Enquanto falava, era evidente o seu genuno terror e Peter 
leu-lhe o pensamento.
-Eu no vou mago-la, Olivia. Nunca, nunca repetirei nada do que me disse a ningum. Fica entre ns... e a Agatha Christie. - Sorria-lhe e ela olhava cautelosa, 
sem saber se deveria ou no confiar nele O curioso  que confiava. S de olh-lo, sabia que Peter no a trairia. - Esta noite nunca existiu - continuou este, atento. 
- Vamos voltar para o hotel separados e ningum saber nunca onde estivemos, nem sequer que estivemos juntos. Eu nunca a encontrei
Isso  reconfortante. - Eram bvios o seu alivi e a sua gratido, e acreditava nele.
- Costumava escrever, no costumava? - Peter lera qualquer coisa a esse respeito uns anos atrs e interessava-lhe saber se ainda o faria.
- Costumava. Como a minha me. Alis, muito talentosa, escreveu um romance sobre o Washington que deu brado, no princpio da carreira do meu pai. Foi publicado, 
mas ele no a deixou publicar mais nada, e a verdade  que ela no o teria feito. Eu no tenho o mesmo talento, nunca publiquei coisa nenhuma, mas durante muito 
tempo apeteceu-me escrever um livro sobre pessoas e compromissos, e o que acontece quando algum se compromete de mais ou demasiadas vezes
- Porque no o escreve? - Era sincero, mas Olivia limitou-se a rir e a abanar a cabea.
_ O que acha que aconteceria se o fizesse? A im-
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prensa ficava furiosa. O Andy diria que eu lhe punha a carreira ern jogo- O livro nunca veria a luz do dia. Seria queimado num armazm qualquer, pelos seus seguidores. 
- O Proverbial pssaro numa gaiola dourada, sem poder fazer nada do que queria, por medo de ferir o marido. Todavia, afastara-se dele e desaparecera para ir sentar-se 
num caf em Montmartre e abrir o corao a um desconhecido. Estranha, a sua vida; e, ao olh-la, Peter via quanto ela estava perto de lhe pr um ponto final. O seu 
dio  poltica e os desgostos que esta lhe trouxera eram evidentes e abundantes.
- E voc? - Fixou no homem, atenta, os seus profundos olhos castanhos. Tudo o que sabia era que era casado, tinha trs filhos, tratava de negcios e vivia em Greenwich. 
Tambm sabia, porm, que era um bom ouvinte e que, quando lhe segurara a mo, sentira bem fundo dentro de si uma espcie de agitao, como se a parte que julgava 
morta tivesse voltado a palpitar. -Porque est em Paris, Peter?
Hesitou por muito tempo, ainda com a mo dela entre as suas e olhando-a nos olhos. No dissera nada a ningum, mas Olivia confiara nele, e ele precisava de lho contar. 
Tinha de contar a algum o que se passara.
-Estou aqui por causa da companhia farmacutica
que dirijo. H quatro anos que estamos a trabalhar num produto muito complicado, o que neste campo nem  um perodo muito longo, embora a ns nos tenha parecido. 
Alm disso, gastmos uma enorme soma de dinheiro.  um produto que poderia revolucionar a quimioterapia, o que julgo importantssimo. Seria a minha
contribuio para o mundo, de certo modo uma compensao por todas as coisas frvolas e egocntricas que tenho feito. De grande significado para mim. Passou to-
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dos os testes com xito, em todos os pases onde trabalhamos. Os ltimos ensaios esto a ser feitos aqui, e eu vim para os acompanhar de perto. Temos de pedir,, 
FDA autorizao para iniciar experincias em pessoas, baseados nos nossos testes. Os nossos laboratrios chegaram  recta final e, at agora, o produto revelava-se 
impecvel. Mas os ensaios daqui mostram uma coisa bem diferente. Ainda no esto prontos, mas, quando c cheguei ontem, o director dos nossos laboratrios disse-me 
que poderia haver srios entraves ao medicamento. Numa palavra, em vez de uma ddiva de Deus para ajudar a salvar a raa humana, poder ser um medicamento assassino. 
No saberei a histria completa antes do fim da semana, mas pode ser a morte de um sonho, ou o incio de longos anos de ensaios. E se for esse o caso, tenho de voltar 
para casa e dizer ao administrador-geral da minha companhia, que por coincidncia  o meu sogro, que o nosso produto vai para a prateleira ou pela janela fora. No 
vai ser uma notcia bem-vinda.
Impressionada, Olivia abanou a cabea.
- Penso bem que no. Contou-lhe o que lhe disseram ontem? - Estava certa de que contara, a pergunta era quase retrica; ficou pois estupefacta quando o viu negar, 
com um gesto e uma expresso culpada.
- No quero dizer nada at ter dados concretos respondeu, rodeando a questo. Era profundo o olhar com que ela o observava.
- Que semana vai ter,  espera da sentena! - comentou com simpatia, s ento comeando a perceber, pela expresso de Peter, at que ponto o caso era relevante para 
ele. - O que diz a sua mulher? - perguntou, partindo do princpio de que o relacionamento dos outros casais era diferente do seu. No podia conhecer
o problema particular dele, o facto de no poder contar nada a Katie sem que esta o transmitisse ao pai.
De novo Peter a surpreendeu, desta vez ainda mais.
- No lhe contei - respondeu ele, em voz baixa, e Olivia olhou-o, estupefacta.
- No contou? Porqu? - No conseguia imaginar a razo.
-  uma longa histria. - Sorriu-lhe timidamente, o que a deixou perplexa. Algo no seu olhar lhe segredava a sua solido e desencanto. Mas algo to subtil, que talvez 
nem ele prprio tivesse conscincia da sua existncia. - Ela  muito ligada ao pai - continuou, em voz pausada, medindo as palavras. - A me morreu-lhe quando era 
criana, cresceu sozinha com ele. No h absolutamente nada que no lhe conte. - Pde ver que Olivia o compreendera.
- Mesmo confidncias que voc lhe faa. - Tamanha indiscrio ultrajava-a.
- Mesmo essas. - Esboou um sorriso. - A Katie no tem segredos para o pai. - Apertou-se-lhe o corao ao diz-lo. No sabia bem porqu, mas o facto aborrecia-o 
mais ao mencion-lo do que o aborrecera durante anos.
-Deve ser desagradvel para si. - E Olivia procurou ler-lhe nos olhos se ele era infeliz, ou se estava consciente de o ser. Dava a entender que a lealdade de Katie 
para com o pai, e a tal ponto, era no s aceitvel, nem normal. E, no entanto, era diferente o que os seus olhos diziam. Talvez fosse essa a causa de ter aludido 
a que Para todos havia momentos em que se sentiam mal na sua pele. Olivia, que considerava da maior importncia a privacidade, a discrio e a lealdade, apercebeu-se 
do constrangimento de Peter.
- As coisas so como so - foi a sua simples rplica. - Aceitei-as h muito tempo. No julgo que venha da grande dano. Mas tem como resultado que s vezes no posso 
contar-lhe tudo. So tremendamente agarrados um ao outro. - Olivia decidiu, para bem dele mudar de assunto. No tinha a mnima inteno, nem o direito, de lhe fazer 
discursos protectores, nem de o magoar sublinhando o inadequado comportamento da esposa. Afinal de contas, mal o conhecia.
-Deve ter-se sentido muito s, hoje, preocupado com o resultado dos testes e sem ter com quem desabafar. - Olhou-o com simpatia. Fora direita ao alvo, com as suas 
palavras. Trocaram um quente sorriso de compreenso. Ambos carregavam aos ombros pesados fardos.
- Tentei manter-me ocupado, uma vez que no podia falar com ningum. Fui ao Bois de Boulogne, fiquei a ver as brincadeiras dos midos. Depois passeei ao longo do 
Sena, fui ao Louvre, voltei para o hotel e trabalhei at soar o alarme. - Sorriu. - Foi um dia bastante bom, mesmo a partir da. - E depressa seria um novo dia. 
Eram quase cinco da madrugada; ambos sabiam que em breve deveriam regressar ao hotel. Conversaram ainda outra meia hora e, finalmente, s cinco e meia, deixaram 
com relutncia o caf e partiram  procura de um txi. Caminharam devagar pelas ruas de Montmartre, ela de T-shirt e ele em mangas de camisa de mos dadas, como 
dois garotos no seu primeiro encontro, sentindo-se incrivelmente bem.
-A vida s vezes  curiosa, no ? - Olhava-o, feliz, a pensar em Agatha Christie e perguntando aos seus botes se a escritora fizera algo semelhante, ou at mais 
ousado, durante o seu desaparecimento. Ao regressar, a famosa autora nunca o revelara. - Pensamos que estamos ss e ento algum surge do nevoeiro, o mais inesperadamente 
possvel, e j no estamos ss. - Nunca sonhara conhecer algum como ele, to ao encontro das suas necessidades. Porque estava sedenta de afecto.
Uma coisa boa para recordar, quando tudo corre mal, no ? Nunca se sabe o que se vai encontrar ao
dobrar da esquina.
- No meu caso, receio que o que est mesmo ao dobrar da esquina possa ser uma eleio presidencial. ou ainda pior, outra bala de um louco. - Um pensamento horrvel, 
que trouxe de volta as pssimas recordaes do assassnio do cunhado. Era evidente que em tempos amara profundamente Andy Thatcher e ainda a entristecia que a vida 
tivesse sido to madrasta para eles, lhes tivesse lanado tantas pedras. Em certos pontos, Peter lamentava ambos, mas, no conjunto, era de Olivia que mais pena tinha. 
Nunca vira ningum ignorar outro ser humano da forma como Andy Thatcher ignorara a mulher, de todas as vezes que os vira juntos. Era uma indiferena total, como 
se ela no existisse de todo, ou ele nem sequer a visse. E a sua falta de interesse era claramente extensiva aos seus acompanhantes. Talvez Olivia tivesse razo, 
talvez para eles no passasse de um mero objecto decorativo. - E voc? - interrogou-o, com renovada preocupao a seu respeito. - Vai ser muito mau para si se o 
vosso produto se revelar um desastre nos testes finais? O que lhe faro, em Nova Iorque?
- Penduram-me pelos ps e esfolam-me vivo -brincou ele, mas com um sorriso doloroso; e, de novo srio: - No vai ser fcil. O meu sogro ia reformar-se este ano, 
acho que em parte como um voto de confian-
a em mim, mas no acredito que o faa se perdermos este produto. Penso que ficar furioso, mas eu continuarei a apoiar o medicamento. - Para ele, no era s mais 
um medicamento. Pr o Vicotec no mercado, era um meio de salvar pessoas que iriam morrer como, h anos, a sua me e a sua irm. E isso era o principal para Peter. 
Ainda mais do que o lucro ou a reaco de Frank Donovan. E agora, corriam o risco de perder totalmente o produto. Quase desfaleceu ao antever tal possibilidade.
- Quem me dera ter a sua coragem - suspirou ela, triste, e com aquele olhar que Peter conhecia de quando a encontrara pela primeira vez, um olhar de infinita mgoa.
- No se pode fugir aos factos, Olivia. - Ela j o , sabia. O seu filho de dois anos morrera-lhe nos braos. Que maior coragem haveria na vida? No precisava que 
lhe ensinassem a ser corajosa.
- E se a sobrevivncia depender de uma fuga? -interrogou-o, sria, e ele rodeou-lhe os ombros com o brao.
-Tem de ter a certeza antes de o fazer. - Foi tambm muito srio que a fitou, ansioso por poder ajud-la. Era uma mulher que precisava desesperadamente de uma pessoa 
amiga, e ele teria adorado ser essa pessoa, para alm de uma meia dzia de horas. Mas no ignorava que, logo que a deixasse no hotel, nunca seria capaz de lhe telefonar, 
de conversar com ela, para j no falar em v-la.
-Acho que _estou a adquirir essa certeza. S que ainda no cheguei l. - Uma verificao dolorosamente honesta. To infeliz, e ainda precisava de se decidir em definitivo!
-E para onde fugir? - Estavam j no txi que
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por fim haviam encontrado e mandado seguir para a Rue CastigliOne. Ele no queria lev-la at ao hotel e ainda no sabiam se . todos j teriam podido voltar a entrar, 
ou se continuariam agrupados na praa,  espera.
Para Olivia, a ltima pergunta de Peter era de resposta fcil. J l estivera e ficara-lhe a certeza de que seria sempre o seu porto de abrigo.
- H um stio para onde eu costumava ir, h muito tempo, quando estive c a estudar durante um ano, no liceu.  uma pequena aldeia de pescadores, no Sul da Frana. 
Descobri-a quando cheguei e s vezes ia para l nos fins-de-semana. No  chique, nem moderna,  muito simples, mas era o lugar que eu preferia quando precisava 
de pensar, de me reencontrar comigo prpria. Passei l uma semana depois da morte do Alex, mas tive medo de que a imprensa me descobrisse e por isso vim-me embora, 
antes que eles chegassem. Detestaria perder aquele refgio. Adorava voltar l um dia, ficar algum tempo, talvez mesmo escrever finalmente o livro que continua na 
minha cabea, para ver se sou capaz.  um lugar mgico, Peter. Bem gostava de lho mostrar.
- Talvez um dia mostre - replicou, numa quase lisonja, puxando-a para si, mas num gesto de conforto e apoio. No fez qualquer tentativa ousada, no tentou beij-la. 
Nada no mundo lhe daria maior prazer, mas alm do respeito por Olivia, e pela sua mulher, no o faria de forma alguma. De certa maneira, Olivia era para
uma fantasia, e s o ter conversado com ela toda a noite, uma ddiva que guardaria para sempre no corao. Como uma cena de filme. - Como se chama afinal esse stio? 
- E, ao responder-lhe, ela sorriu e disse-lho como se lhe desse um presente. Uma senha s dos dois.
- La Favire. Fica no Sul de Frana, perto de um lugar chamado Cap Benat. V l, se um dia precisar.  o que de melhor tenho para oferecer a algum - murmurou, encostando 
a cabea ao ombro dele; e durante o trajecto de regresso, Peter deixou-a ficar assim, sen- tindo, sem necessidade de palavras, que era disso que ela tinha necessidade. 
Gostaria de afirmar-lhe que seria sempre seu amigo, que estaria ao seu dispor se precisasse dele, que nunca deveria hesitar em cham-lo, mas no sabia bem como dizer-lho 
e, em vez de o fazer, apenas a aconchegou. Num breve instante de loucura, at lhe apeteceu dizer-lhe que a amava. Quanto tempo decorrera desde que algum lho dissera, 
quanto tempo desde que algum conversara com ela prestando-lhe ateno, e se interessara pelos seus sentimentos? - Voc  um homem de sorte - sussurrou Olivia com 
doura, quando o txi parou na Rue Castiglione, a rua que conduzia  Place Vendme.
-Sou um homem de sorte, porqu? - Havia curiosidade na pergunta de Peter. A nica coisa que de momento lhe parecia favorvel era ter estado junto dela a noite inteira, 
ambos pondo a nu as almas e partilhando os segredos.
- Porque est contente com a sua vida, acredita no que fez e ainda cr na decncia da raa humana' Quem me dera sentir assim, mas h muito que no sinto.
Olivia, porm, no tivera tanta sorte. A vida fora amvel para ele a maior parte do tempo, e extremamente dura para Olivia Thatcher. Peter tambm lhe confessou suspeitar 
que o seu casamento era muito menos satisfatrio do que lho descrevera por pensar que nem ele prprio o sabia. Sob certos aspectos, era um homem de sorte por estar 
ainda to cego; mas era sincero e cari-
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nhoso e trabalhava arduamente, aceitando fechar os olhos  indiferena da mulher para consigo, ao envolvimento desta na sua prpria vida e  ultrajante invaso do 
sogro no que deveria ser a vida privada deles. Aos olhos de Olivia, era um afortunado, porque no via o vazio que o rodeava. Talvez o pressentisse, mas no o via 
na realidade. E, basicamente, era uma pessoa to encantadora, decente, amorosa! Sentira tanto calor humano da sua parte nessa noite que mesmo agora, prestes a amanhecer, 
no quereria deix-lo.
- Detesto regressar - murmurou, sonolenta, metida na T-shirt branca e aninhada contra o seu ombro no banco de trs do txi. Depois de tanto falarem, estavam ambos 
cansados e ela comeava a dar mostras de fadiga.
- Detesto separar-me de si - replicou ele, honesto, tentando obrigar-se a recordar Katie; mas era com aquela mulher que queria estar, no com Katie. Nunca conversara 
com ningum como o fizera com Olivia, e ela era to generosa, to compreensiva! E to s, to ferida, to faminta de afecto! Como poderia deix-la? Era duro evocar 
as razes por que teria de o fazer.
- Sei que  suposto eu voltar, mas no consigo recordar-me porqu. - Olivia sorriu, a cair de sono, pensando no dia de festa para os paparazzi se tivessem podido 
v-los nas ltimas seis horas. Custava a crer que houvessem estado ausentes tanto tempo. Depois de horas a fio de conversa em Montmartre, era uma agonia regressar 
para os lugares a que pertenciam, mas sabiam que assim tinha de ser. Ocorreu de sbito a Peter que nunca falara com Katie de maneira semelhante  que usara com Olivia. 
Pior ainda, estava a apaixonar-se por ela e nem sequer a beijara.
Ambos temos de voltar - afirmou, pesaroso. -
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A esta hora, devem andar malucos, preocupados consigo. E eu tenho de aguardar notcias do Vicotec. - Se no fosse esse o caso, teria adorado fugir com ela.
- E depois? - Referia-se ao Vicotec. - Os nossos mundos diferentes desmoronam-se, cada um para seu lado, e ns continuamos em frente. Porque teremos de ser corajosos? 
- Falava como uma criana petulante, ele sorriu ao ver a sua expresso.
-Acho que porque fomos seleccionados para esse fim. Algures, no sei quando, algum disse: "Eh, tu a, segue por este caminho, s um dos corajosos." Mas na verdade, 
Olivia, voc  muito mais corajosa do que eu, Sentira-o nessa noite e, pelo facto, respeitara-a imenso,
- No sou, no. Nunca o fui de modo voluntrio No se tratou de uma escolha entre vrias opes Aconteceu, simplesmente. No  coragem,  apenas destino. - Olhou-o 
em silncio, desejando que ele fosse seu e sabendo que nunca o seria. - Obrigada por me ter seguido... e pelo caf. - Sorriu, ele selou-lhe os lbios com a ponta 
dos dedos.
- Em qualquer altura, Olivia... no se esquea. Em qualquer altura que lhe apetea um caf, eu estarei l. Nova Iorque... Washington... Paris... - Era a sua maneira 
de lhe oferecer amizade e ela percebeu-o. Infelizmente para ambos, nada mais podia oferecer-lhe.
- Boa sorte com o Vicotec - disse ao sair do carro. Se estiver escrito que ser voc a ajudar toda essa gente, Peter, ajudar mesmo. Acredito nisso.
Tambm eu. - Era pungente, sentia-lhe j a falta. - Cuide de si, Olivia. - Quereria dizer tantas coisas, desejar-lhe o melhor, apert-la nos braos, fugir
com ela para a sua aldeia de pescadores perto de
Benat. Porque seria a vida por vezes to  injusta? Porque
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no era mais generosa? Porque no podiam eles desaparecer, muito simplesmente, como Agatha Christie?
Deixaram-se ficar parados no passeio durante um longo instante; depois, Peter apertou-lhe a mo pela ltima vez, ela dobrou a esquina, atravessou rapidamente
a praa, um vulto pequeno, flexvel, de T-shirt branca e calas de ganga azuis. E enquanto a via afastar-se, Peter
perguntava a si prprio se alguma vez voltaria a encontr-la, mesmo no hotel. Seguia-a j, quando Olivia se
deteve  porta do Ritz e lhe acenou um prolongado adeus; e Peter odiou-se por no a ter beijado. 
CAPTULO 4
Para grande surpresa sua, Peter dormiu at ao meio-dia. Regressara s seis horas da manh, exausto. E, mal acordou, pensou em Olivia; sem ela, sentia-se inerte e 
triste; olhou pela janela, chovia. Sentou-se e por muito tempo, no meio dos croissants e do caf, continuou a pensar nela, no que se teria passado quando entrara 
no quarto ao princpio da manh. Estaria o marido furioso, ou assustadssimo, louco de preocupao, ou apenas vagamente incomodado? No conseguia imaginar Katie 
a fazer uma coisa semelhante. Mas, dois dias antes, tambm no poderia imaginar-se a si prprio a fazer o que fizera.
Teria desejado continuar a conversar com Olivia, a noite inteira. Era to honesta e franca com ele! Terminado o pequeno-almoo, ficou a recordar algumas das coisas 
que ela lhe dissera, sobre a sua vida e sobre a dele. Atravs dos olhos de Olivia, o seu casamento surgia-lhe sob uma perspectiva diferente; agora, desagradava-lhe 
o relacionamento de Katie com o pai. Eram to chegados que na verdade se sentia excludo; e aborrecia-o no poder contar a Katie o ocorrido com Suchard e a razo 
da sua demora em Paris. Mesmo que no o explicasse a Frank, gostaria de ter podido diz-lo  sua mulher... e tinha a certeza absoluta de no poder.
. Curioso o facto de lhe ter sido fcil, na noite anterior, cont-lo a uma perfeita estranha... Olivia fora to simptica, to amvel com ele, compreendera to facilmente 
quanto lhe era penosa a espera. Quem lhe dera poder voltar a conversar com ela! E enquanto tomava
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duche e se vestia, descobria que s pensava... nos seus olhos... no seu rosto... naquele olhar melanclico , afastar-se, e na dor que sentira ao v-la separar-se 
dele. Tudo to irreal! Foi quase um alvio ouvir tocar o telefone, uma hora mais tarde; era Katie. Apeteceu-lhe correr para ela, apert-la nos braos, reafirmar 
a si prprio que realmente a amava.
- Ol! - Eram sete da manh para ela e a sua voz soava viva, desperta e j apressada. - Como vai Paris?
Por um instante, Peter hesitou, inseguro quanto  resposta a dar-lhe.
- Optimamente. Tenho saudades tuas - afirmou. E de sbito pesou-lhe nos ombros a espera pela chamada de Suchard e a noite da vspera transformou-se numa mera iluso. 
Ou seria Olivia a realidade, e Katie a iluso? Ainda cansado da noite em branco, era grande a confuso nas suas ideias.
- Quando voltas para casa? - Bebia uma chvena de caf, terminava o seu pequeno-almoo em Greenwich. Ia apanhar um comboio para Nova Iorque s oito horas, tinha 
pressa.
- Daqui a poucos dias, espero - respondeu, pensativo. - No fim da semana, de certeza. o Suchad atrasou-se com os testes e eu achei que assim o apressaria um pouco.
- Foi alguma coisa importante que causou o atraso, ou s questes tcnicas? - Peter quase podia ver Frank a seu lado, atento  resposta. No duvidava de que j contara 
 filha tudo o que Peter lhe dissera na vspera' E, como sempre, teria de medir as palavras; iriam todas parar, em linha recta, aos ouvidos do pai.
- S uns pormenores insignificantes. Sabes como o Suchard  meticuloso - replicou, com despreocupao.
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 um picuinhas, se queres a minha opinio. H-de sempre encontrar problemas, quer existam quer no. o pai diz que em Genebra correu tudo lindamente. - Parecia orgulhosa 
do marido, mas um pouco fria. Com o decorrer dos anos, o relacionamento entre ambos sofrera transformaes curiosas. Era menos afectuosa do que costumava ser, e 
menos expansiva, excepto se estivesse de muito bom humor e a ss com ele. Nessa manh, no se mostrava muito calorosa.
- Claro que correu lindamente, em Genebra. -sorriu, tentando visualiz-la, mas tudo o que lhe ocorreu  mente foi o rosto de Olivia, sentada na cozinha de Greenwich. 
Uma espcie de alucinao esquisita, que o preocupou. A sua vida era com Katie, no com Olivia Thatcher. Escancarou os olhos e fixou-os na chuva que fustigava a 
janela, tentando concentrar-se no que dizia. -Que tal foi o jantar com o teu pai, ontem? - Esforava-se por mudar de assunto, no queria discutir o Vicotec com ela. 
Teria muito tempo para isso, no fim-de-semana.
- Estupendo. Fizemos montes de planos para Vineyard. O pai vai tentar ficar l os dois meses, este ano. -Estava radiante e Peter obrigou-se a esquecer o que ouvira 
de Olivia sobre compromissos a tomar. Era esta a sua vida h quase vinte anos, tinha de continuar a viv-la.
- Eu sei que ele passa l os dois meses inteiros, todos vocs me abandonam na cidade. - Sorriu a esse pensamento e ento lembrou-se dos filhos. - Como esto os rapazes? 
- O seu tom de voz revelava bem quanto os amava.
Ocupados Nunca os vejo. O Patrick acabou a escola, o Paul e o Mike chegaram a casa no dia em que
tu partiste, e isto aqui voltou a parecer um jardim zoo-
101
lgico. Passo o tempo a apanhar do cho pegas e calas de ganga e a tentar constituir pares com treze sapatos de tnis. - Ambos sabiam que tinham sido abenoados 
e todos os garotos eram bons. E Peter gostava de estar com eles, sempre gostara. Ao ouvir Katie, sentiu-lhes a falta,
- O que vo fazer hoje? - perguntou, tristonho Para ele, seria mais um dia a aguardar o telefonema
de
Suchard, com pouco para fazer alm de se sentar no quarto e trabalhar no computador.
- Eu tenho uma reunio na cidade. Pensei em almoar com o pai e quero trazer umas coisas para Vineyard. Os rapazes deram-nos cabo dos lenis, o ano passado, alm 
disso preciso de toalhas novas e outras bugigangas. - Notava-se que estava com pressa e distrada, e a informao de que ia encontrar-se outra vez com Frank no 
caiu em orelhas moucas.
-Julguei que tinhas jantado com o Frank a noite passada - comentou Peter, de sobrolho franzido. A sua perspectiva alterava-se ligeiramente.
- E jantei. Mas disse-lhe que ia  cidade hoje e ele convidou-me para um almoo rpido no seu gabinete. -O que mais poderia ter para lhe dizer? Enquanto a escutava, 
era nisso que Peter pensava. - E tu? - Katie passava-lhe a bola e ele olhou uma vez mais a chuva que se abatia sobre os telhados de Paris. Adorava Paris, mesmo com 
chuva. Adorava tudo o que com Paris se relacionava.
-Acho que vou ficar no quarto, a trabalhar. Tenho umas tantas coisas a resolver, no computador.
- No parece grande divertimento. Porque  que no vais, ao menos, jantar com o Suchard? - Quero muito mais dele do que companhia para o jantar e, alm disso, no 
pretendia distra-lo do que era suposto estar
a fazer.
102
- Acho que anda muito ocupado - retorquiu, va-
gamente.
- Tambm eu. Tenho de me despachar, seno perco o comboio. Tens algum recado para o pai? - Peter abanou a cabea, achando que, se tivesse algum, lhe telefonaria, 
ou lhe enviaria um fax. No mandava recados a Frank via Katie.
- Divirtam-se. Daqui a uns dias estou a - respondeu-lhe; e nada na sua voz denunciava que passara a noite pondo a alma a nu perante outra mulher.
- No trabalhes muito - terminou Katie, calmamente, e desligou; quanto a Peter, ficou largo tempo sentado, a pensar nela. A conversa fora inspida, mas tpica da 
sua mulher. Interessava-se pelo que ele fazia, e imenso por tudo o que se relacionasse com os negcios. Mas havia ocasies em que no tinha tempo nenhum para lhe 
dedicar, e j nunca falavam dos seus pensamentos ntimos, nem compartilhavam sentimentos. Peter gostaria de saber se a assustava no estar efectivamente ligada a 
ningum seno ao pai. Perder a me em pequena provocara-lhe o medo de perdas e abandonos, receava agarrar-se demasiado a algum, para alm de Frank. Para Katie, 
o pai h muito que prestara as suas provas e estivera sempre presente. Tambm Peter estava a seu lado, Mas o pai era a sua prioridade. E exigia-lhe imenso. Exigia 
o seu tempo, o seu interesse, a sua afeio. Por seu turno, dava imenso, e contava que a generosidade dos seus presentes fosse inteiramente recompensada em disponibilidade 
e amor. Mas tambm Katie necessitava de mais na sua vida, necessitava do marido e dos filhos. E, todavia, Peter suspeitava de que nunca ela amara ningum quanto 
amava Frank, nem a ele, nem aos filhos embora nunca o admitisse. E se desconfiava que algum'
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andava a trair Frank, lutava como uma leoa para o proteger. A reaco que seria natural para com a sua prpria famlia, no para com o pai. Essa caracterstica normal 
de relacionamento sempre contrariara Peter. Era irracional, tamanho apego ao pai.
Trabalhou toda a tarde no computador e por fim pelas quatro horas, decidiu telefonar a Suchard, o que achou idiota mal acabara de o fazer. Desta vez, Paul-Louis 
atendeu no laboratrio, mas foi breve, limitou-se a inform-lo de que no havia nada de novo. j lhe prometera telefonar quando os testes finais estivessem terminados.
-Eu sei, desculpe...  que pensei... - Sentia-se, estpido pela sua impacincia, mas o Vicotec significava tanto para ele, muito mais do que para qualquer outra 
pessoa; era um pensamento sempre presente. O Vicotec... e Olivia Thatcher. Por fim, tornou-se-lhe impossvel trabalhar e s cinco horas decidiu ir at  piscina, 
numa tentativa de se libertar de tanta tenso acumulada.
Procurou Olivia no elevador e na piscina. Procurou-a alis por toda a parte, mas no a viu. Onde estaria ela? O que pensaria da noite anterior? fora um interldio 
raro para ela, ou uma espcie de ponto de viragem? Obcecava-o tudo o que haviam dito, o aspecto dela, o significado profundo de tudo quanto lhe contara. Guardava 
na retina aqueles enormes olhos castanhos, a inocncia estampada no seu rosto, a intensidade da sua expresso e o vulto esbelto de T-shirt branca, a afastar-se. 
Nem nadar o libertou dos seus pensamentos no se sentindo muito melhor quando subiu e ligou o televisor. Precisava de alguma coisa, qualquer coisa que o distrasse 
das vozes que ecoavam na sua cabea, da v~ so da mulher que mal conhecia, da preocupao de ver o Vicotec ir por gua abaixo, aps os testes de Suchar.
104
O mundo continuava como sempre, informou-o a CNN: agitao no Mdio Oriente, um pequeno sismo no Japo; pnico com uma bomba no Empire State Building em Nova Iorque, 
que atirara para a rua milhares de pessoas aterrorizadas - o que s serviu para lhe recordar a noite anterior, quando Olivia abandonara a Place Vendme e ele a seguira. 
Ainda pensava nisso quando, inesperadamente, achou que estava 'a enlouquecer. o locutor da CNN acabava de pronunciar o nome de Olivia, mostrava uma fotografia, desfocada, 
e atrs da T-shirt branca da mulher que fugia apressada, descortinava-se um homem, indistinto, a uma larga distancia dela. Mas tudo o que se via com clareza era 
a parte de trs da cabea de Olvia, nada mais.
"A esposa do senador Anderson Thatcher desapareceu a noite passada, durante uma ameaa de bomba no Hotel Ritz, em Paris. Foi vista a afastar-se da Place Vendme 
a passos largos, e este homem, que a seguia, foi fotografado. Mas no h qualquer outra informao a seu respeito, no se sabe se a seguia com ms intenes, cumprindo 
um plano, ou por simples coincidncia. No era nenhum dos seus guarda-costas, e ningum parece saber nada a seu respeito." Peter apercebeu-se imediatamente de que 
a fotografia era a sua, quando comeara a segui-la, mas felizmente ningum o reconhecera e era impossvel identific-lo por aquela imagem. "Mistress Thatcher no 
 vista desde cerca da meia-noite de Ontem e no h quaisquer notcias a seu respeito. Um segurana nocturno julga t-la visto regressar de manh, mas outras fontes 
declaram que no voltou ao hotel depois de esta fotografia ter sido tirada. De momento,  impossvel dizer se houve crime ou se, eventualmente, sujeita a tanta presso 
poltica, Mistress Thatcher foi
simplesmente para qualquer lugar, talvez para usufruir de uma curta pausa junto de amigos, em Paris ou perto de Paris. Todavia,  medida que o tempo se escoa, a 
hiptese afigura-se cada vez menos provvel. A nica coisa certa  que Olivia Thatcher desapareceu. A CNN, em Paris>
Peter, de olhos presos ao ecr, nem queria acreditar nos seus sentidos. Acabavam de mostrar uma montagem de fotografias dela; depois, apareceu o marido e um reprter 
local entrevistou-o para o canal de lngua inglesa que Peter estava a ver. O reprter insinuou que Olivia andava deprimida nos ltimos dois anos, sobretudo desde 
a morte do pequeno filho de ambos, Alex. Andy Thatcher negou-o. Acrescentou ter a certeza de quea sua mulher estava viva e bem, algures, e que, se fora raptada, 
no tardariam a ter notcias dos raptores. Parecia muito sincero e espantosamente calmo. Tinha os olhos secos e no dava sinais de medo. O reprter informou ento 
que a Polcia estivera toda a tarde no hotel com ele e os seus assistentes, a equipar telefones e  espera de um contacto. Mas nada no aspecto de Andy i Thatcher 
induzia Peter a pensar que estivesse a desperdiar as horas de trabalho da sua campanha, e to preocupado com o paradeiro da mulher como qualquer outro no seu lugar 
estaria. Quanto a Peter, apavorou-o d.e imediato o que poderia ter-se passado com ela depois de se separarem.
Deixara-a pouco passava das seis da madrugada e vira-a entrar no hotel. O que poderia ter-lhe acontecido? Sentia-se responsvel. Tratar-se-ia de um crime? Ter sido 
apanhada quando se dirigia para o quarto? Enquanto pensava e voltava a pensar, no arredava p. A hiptese de um rapto inquietava-o tanto, parecia-lhe despropositada. 
E o nome de Agatha Christie no lhe saa da cabea. No conseguia afastar a ideia da possibilidade de algo terrvel lhe ter acontecido, mas, quanto mais pensava, 
. mais suspeitava de que no acontecera. Na noite anterior, ela afastara-se voluntariamente. Podia muito bem t-lo feito outra vez. Talvez lhe fosse realmente impossvel 
voltar a enfrentar a sua vida, embora Peter no ignorasse quanto se achava obrigada a faz-lo. Ainda na noite passada lhe confidenciara que decerto no aguentaria 
por muito mais tempo.
s voltas no quarto, Peter pensava nela e no demorou a decidir o que tinha a fazer. Era desagradvel, sem dvida, mas, se a segurana de Olivia dependia disso' 
valia a pena. Tinha de contar ao senador que estivera com ela, onde tinham ido, e que a trouxera de volta ao hotel de manh cedo. Pretendia tambm falar-lhe de La 
Favire pois, quanto mais pensava no caso, mais se convencia de que ela fora para l. Seria o lugar, soube-o no mesmo instante, onde se refugiaria. Por pouco que 
a conhecesse, para ele era bvio. E apesar de Andy Thatcher no ignorar de certeza o quanto La Favire significava para a esposa, talvez no lhe tivesse ocorrido. 
Peter queria recordar-lho e sugerir que mandassem a Polcia procur-la imediatamente. Se no a encontrassem, ento no lhe restariam dvidas de que Olivia estava 
de facto em apuros.
No perdeu tempo a esperar pelo elevador. Encaminhou-se directamente para as escadas e subiu os dois lanos at ao andar onde eles estavam hospedados. Olivia mencionara 
o nmero do quarto na noite anterior e ele viu logo Polcia e servios secretos nos corredores a conversar. Pareciam vencidos, mas no acabrunhados. At no exterior 
da sua suite, ningum se mostrava deve-
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ras preocupado. Observaram-no, enquanto ele se aproximava. Tinha um ar respeitvel, vestira o casaco ao sair do quarto. Trazia a gravata na mo; de repente, interrogou-se: 
Anderson Thatcher receb-lo-ia? No queria discutir o assunto com outra pessoa e ia ser embaraoso contar-lhe que passara seis horas com a mulher, num caf de Montmartre; 
mas achava-se na obrigao de ser sincero com ele.
Ao chegar  porta, Peter pediu para falar com o senador e o guarda-costas perguntou-lhe se o conhecia pessoalmente; Peter teve de admitir que no o conhecia. Identificou-se 
e sentiu-se parvo por no ter telefonado antes, mas fora tanta a sua pressa ao saber do desaparecimento de Olivia que quisera comunicar com a mxima rapidez o stio 
onde pensava que ela se teria escondido.
Enquanto o guarda-costas entrava na suite, Peter ouviu risos e barulho l dentro, viu fumo de cigarros e chegou-lhe aos ouvidos o som de uma conversa animada. Quase 
como se houvesse uma festa. Teria a ver com os esforos de pesquisas para localizar Olivia ou, como de incio suspeitara, o que de facto discutiam era a campanha, 
ou outros assuntos polticos?
O guarda-costas regressou num instante, apresentou
delicadamente as desculpas do senador Thatcher. Para
todos os efeitos, estava em reunio; talvez se Mr. Haskell quisesse ter a amabilidade de ligar e pudessem discutir os seus problemas por telefone? Tinha a certeza 
de
que o Mr. Haskell compreenderia, tendo em conta o
que acabara de suceder. E enquanto o homem falava
Mr. Haskell compreendeu. O que no compreendeu foi
a razo de risadas na sala, de no notar correrias, de ningum demonstrar pnico perante a hiptese de a perderem.
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Procederia ela assim com frequncia? Ou, muito simplesmente, pouco lhes importava? Ou suspeitariam, tal como ele, que Olivia apenas no aguentara mais, por agora 
e fora dar um passeio de um dia ou dois para pr as ideias em ordem?
Esteve tentado a dizer que a sua mensagem tinha a ver com o paradeiro da esposa do senador, mas percebeu que tambm poderia estar errado e agora, pensando melhor, 
via com maior clareza at que ponto ia ser constrangedor explicar o encontro de ambos, na Place de la Concorde. Qual a razo exacta por que a seguira? Numa interpretao 
maldosa, a coisa poderia degenerar num enorme escndalo, tanto para ela como para ele. S agora tomava conscincia do erro que cometera. Devia ter telefonado, e 
regressou ao seu quarto no intuito de o fazer. Mas, mal entrou, viu de novo na CNN a fotografia dela. O reprter inclinava-se mais para um suicdio do que para um 
rapto. Exibiam velhas fotografias do filho que lhe morrera e depois instantneos dela no funeral, a chorar. E os olhos acossados que o olhavam rogavam-lhe que no 
a trasse. Entrevistaram a seguir um perito em depresses, dissertaram sobre as loucuras que as pessoas fazem quando perdem a esperana, sobre o que se passara com 
Olvia Thatcher aquando da morte do filho. E Peter bem gostaria de lhes atirar qualquer coisa  cabea. O que sabiam eles da sua dor, da sua vida, das suas mgoas? 
Que direito tinham de esquadrinhar os seus problemas? E mais fotografias, do seu casamento, seis meses mais tarde, no funeral do cunhado.
Peter ia a pegar no telefone quando comearam a enumerar as tragdias da famlia Thatcher, comeando pelo assassnio de Tom seis anos antes, depois a morte do filho 
e, agora, o trgico desaparecimento de Olivia
Thatcher. J o apelidavam de trgico, quando o telefonista perguntou a Peter em que podia ajud-lo. Ia dar . o nmero da suite dos Thatcher; inesperadamente, sentiu 
que no podia faz-lo. Ainda no. Primeiro, tinha de ser ele a ver, pelos seus prprios olhos. E se ela no estivesse l, ento, certo de que alguma coisa lhe acontecera, 
telefonaria a Andy o mais depressa que pudesse. Na verdade, nada o ligava a Olivia mas, depois da noite anterior, devia-lhe o seu silncio. S esperava no estar 
a pr-lhe a vida em risco, ao deixar passar o tempo.
Ao pousar o auscultador, a CNN informava de que quanto aos pais dela, o governador Douglas e a esposa, no se tinham mostrado disponveis para comentar o desaparecimento 
da filha em Paris. A voz tornara-se montona; Peter foi buscar uma camisola ao armrio. S gostaria de ter trazido consigo um par de calas de ganga, mas no tivera 
maneira alguma de prever que surgiria uma oportunidade de os usar. Dificilmente se imaginaria de calas de ganga numa reunio de negcios.
Telefonou para a recepo e, tendo-lhe sido dito que no havia avies para Nice quela hora da noite e o ltimo comboio partira h cinco minutos, pediu um automvel 
e um mapa que o guiasse de Paris at ao sul de Frana. Propuseram-lhe um motorista, mas ele explicou que preferia guiar, embora com um motorista chegasse sem dvida 
mais depressa e mais facilmente. Mas tambm com menor privacidade. Responderam-lhe que tudo estaria a postos dentro de uma hora, que fosse buscar o carro  porta 
principal e que dentro dele encontraria os mapas. Eram sete horas, e s oito, quando desceu um Renault novo esperava-o, com uma coleco de mapas no banco da frente. 
O porteiro explicou-lhe, com
toda a amabilidade, como sair de Paris. No levava malas, no levava bagagem nenhuma. S uma ma, uma garrafa de gua de Evian e, na algibeira, a escova de dentes. 
Ao sentar-se ao volante, chegou-lhe s narinas um vago odor a ganso selvagem recm-caado. j tratara de tudo na recepo; se fosse necessrio poderia deixar o carro 
em Nice ou em Marselha e regressar a Paris de avio. Mas s se no a encontrasse. Se encontrasse, quereria regressar com ele? Pelo menos, poderiam conversar pelo 
caminho. Muitos problemas ocupavam, obviamente, a mente de Olivia; talvez ele pudesse ajudar a solucion-los durante o regresso a Paris.
A Autoroute du Soleil tinha ainda bastante trnsito quela hora da noite; s depois de Orly comeou a diminuir, permitindo a Peter rodar a uma certa velocidade durante 
duas horas, at Pouilly. Por essa altura, recuperara a calma. No sabia porqu, mas no duvidava de que o seu procedimento fora o certo para com ela. E, pela primeira 
vez em muitos dias, sentiu-se liberto de todas as suas cargas, de todas as suas preocupaes. Pegar num carro e atravessar a noite ao volante atirara-lhe para trs 
das costas as ralaes. Fora maravilhoso conversar com ela, fora como um encontro inesperado com um amigo. E enquanto conduzia, recordava o seu rosto, o seu olhar 
a persegui-lo, como da primeira vez em que a vira; e a noite em que a encontrara na piscina, e ela lhe escapara, a nado, qual pequeno peixe negro e malevel; e depois, 
a fugir pela Place Vendme, na noite anterior, a caminho da liberdade.... a desesperana nos seus olhos ao voltar... o sentimento de paz que irradiava ao falar da 
pequena aldeia de pescadores! Era uma loucura atravessar a Frana atrs dela, bem o sabia. Mal a conhecia.
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Contudo, tal como compreendera que tinha de a seguir na noite da vspera, percebia que tinha de faz-lo agora. Por razes ainda de si prprio desconhecidas, ou de 
quem quer que fosse naquele momento, tinha de encontr-la.
CAPTULO 5
A estrada para La Favire era maadora e comprida; porm, graas  velocidade que pudera atingir, Peter chegou mais depressa do que esperara, levando exactamente 
dez horas. Entrou, devagar, na povoao s seis da manh, nascia o Sol. H muito que a ma se fora e, no banco a seu lado, a garrafa de gua de Evian estava meio 
vazia. Parara para tomar caf uma ou duas vezes e no desligara o rdio, para no adormecer. Levara sempre as janelas abertas mas agora, atingido o seu destino, 
sentia-se absolutamente exausto. Passara a noite acordado, pela segunda vez em dois dias, e at a sua excitao por estar ali e a adrenalina que o estimulara esmoreciam; 
tinha de dorrnir uma hora antes de iniciar a sua pesquisa. Excepto os pescadores que comeavam a chegar ao cais, toda a gente em La Favire dormia ainda. Peter estacionou 
na berma da estrada, inclinou para trs o banco. Era apertado, mas precisava de descansar.
Acordou s nove horas; crianas brincavam  roda do carro; ouvia-lhes as vozes altas quando corriam perto dele, e do ar chegava-lhe o grito das gaivotas. Ao endireitar-se, 
envolveu-o toda uma variedade de sons. Estava meio morto. Fora uma longa noite e uma longa conduo. Mas, se a encontrasse, teria valido a pena. Enquanto se sentava 
e espreguiava, viu-se no retrovisor e riu-se. Que aspecto horrvel, definitivamente o bastante para assustar crianas pequenas. Penteou o cabelo, lavou os dentes 
com o que lhe restava de Evian, e foi com o ar mais respeitvel que conseguiu arranjar que
saiu do carro e iniciou a sua busca. No fazia a mnima
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ideia por onde comear; seguiu devagar as crianas que ouvira, foi dar a uma padaria, comprou um po com chocolate e, de novo na rua, contemplou a gua. os barcos 
de pesca j tinham partido, rebocadores e veleiros pequenos continuavam no porto, na calada soavam passadas confusas de grupos de velhotes que iam discutindo isto 
e aquilo, enquanto os homens mais novos prosseguiam nas suas pescarias. J o Sol ia alto no cu e, ao olhar em redor, Peter deu razo a Olivia. Era o lugar perfeito 
para uma fuga, pacato, belo, com um no sei qu de acolhedor, de caloroso, como o abrao de um velho amigo. Perto do porto estendia-se uma grande praia arenosa. 
Acabou o seu po com chocolate, ps-se a caminhar lentamente ao longo da praia, com vontade de beber um caf. O sol e o mar entorpeciam-no. Como encontr-la?, interrogava-se. 
Perto da areia, sentou-se numa rocha; e pensava nela, se se zangaria se a encontrasse, se estaria de facto ali, quando reparou numa rapariga que surgira da ponta 
de outra praia, mesmo atrs de si. Descala, de T-shirt e cales, era pequena e magra e a brisa agitava-lhe o cabelo escuro; quando olhou para ele e lhe sorriu, 
sentiu-se petrificado. O que tinha de acontecer... acontecera. To facilmente, to simplesmente! A estava ela, sorrindo-lhe da praia, como se o esperasse. E foi 
com esse sorriso, s a ele dirigido, que Olivia Thatcher veio ao seu encontro.
- No creio que se trate de uma coincidncia disse docemente, enquanto se sentava a seu lado na rocha. Peter ainda no cara em si, no fizera um s movimento desde 
que a avistara, demasiado perplexo.
- Voc disse-me que ia voltar para o hotel - foram as suas primeiras palavras, com os olhos mergulhados nos dela, nem zangado, nem j surpreendido, apenas ali, e 
totalmente  vontade.
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E ia. Tencionava faz-lo, Mas, quando l cheguei, vi que no podia. - Desprendia-se uma certa tristeza das suas palavras. - Como soube que eu estava
aqui?
-Vi na CNN. - Sorriu, e ela ficou horrorizada.
-Que eu estou aqui? - A pergunta f-lo rir.
- No, minha amiga. Disseram apenas que desaparecera. Passei o dia inteiro a imagin-la de novo na pele de esposa de um senador, embora a contragosto; s seis, vi 
outra vez o noticirio e voc apareceu de novo. Raptada, ao que parecia; e numa fotografia, voc comigo a segui-la,  sada da Place Vendme, na qualidade de possvel 
raptor; uma fotografia por sorte muito pouco ntida. - Sorria. Era tudo to absurdo, mesmo um tanto louco! No falou das referncias  sua depresso.
- Santo Deus, no fazia a menor ideia! - Pensativa, digeria as novidades que ele acabava de dar-lhe. - Ia deixar umas palavras ao Andy, a dizer que voltaria dentro 
de dias. A verdade  que acabei por no o fazer. Virei as costas e pronto. Vim para c. De comboio -acrescentou, em jeito de explicao; ele abanou a cabea, ainda 
a tentar perceber o que o trouxera, a ele, at junto dela. Era a segunda vez que a seguia, impelido por uma fora que no conseguia explicar mas a que tambm no 
conseguia resistir. Olivia olhava-o bem fundo nos olhos; continuavam ambos imveis. O olhar dele era uma carcia, mas nenhum dos dois esboou o mmimo gesto para 
tocar no outro. - Estou contente por voc ter vindo. - Era meiga a voz de Olivia.
- Tambm eu.... - E ento, como se fosse outra vez criana, afastou dos olhos os cabelos que o vento revolvera. Uns olhos da cor do cu de Vero. - No sabia e ficaria 
zangada comigo, se a encontrasse. -
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Preocupara-se com isso durante todo o trajecto desde Paris. Segui-la poderia ser considerado por ela uma intruso imperdovel.
-Zangar-me? Voc foi to bom para mim... viu-me... lembrou-se... - Desorientava-a O facto de ele a ter achado, ter-se preocupado o bastante para pelo menos tentar 
encontr-la. Era longa a viagem desde Paris. E, inesperadamente, ps-se em p de um salto mais do que nunca semelhante a uma rapariguinha,
estendeu-lhe a mo. - Anda, deixa-me levar-te o pequeno-almoo. Deves estar esfomeado, depois de uma noite inteira a guiar.
Deu-lhe o brao e encaminharam-se devagarinho para o porto. Estava descala, tinha uns ps pequenos, graciosos, e a areia queimava, mas isso no parecia incomod-la.
- Ests cansado?
Peter riu-se, ao recordar como chegara estafado,
-Estou ptimo. Dormi cerca de trs horas, quando cheguei. A verdade  que no durmo muito, quando tu ests perto de mim. - Mas a vida a seu lado tambm no dava 
sono, disso tinha a certeza.
- Lamento sinceramente - desculpou-se ela; e ur,1
momento depois entravam num restaurante minsculo;
ambos encomendaram omeletas, croissants e caf. A refeio chegou, cheirava bem, era abundante e Peter de
vorou-a; Olivia apenas petiscou a sua dose. Observava-
-o, enquanto bebia o forte caf.
- Ainda no acredito que estejas aqui - comentou com ternura. Mostrava-se feliz, mas simultaneamente melanclica. Andy nunca teria feito uma coisa semelhante. Nem 
sequer outrora, no princpio.
- Tentei falar ao teu marido sobre este local
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confessou ele, com honestidade, e logo ela denotou
preocupao.
- O qu? Disseste-lhe para onde pensavas que eu
tinha ido? - No queria Andy junto dela. Agora, nem
o facto de ver Peter compensava; agradava-lhe de facto que tivesse vindo, mas a verdade  que ainda no estava preparada para enfrentar Andy. Era ele a causa principal 
da sua fuga.
- Acabei por no lhe dizer nada - sossegou-a Peter de imediato. - Tencionava faz-lo, mas fui posto a andar da vossa suite. Deparei com polcias, servios secretos, 
guarda-costas, e o som do que me pareceu ser uma reunio.
_ A qual, sem dvida, no tinha nada a ver comigo. Ele tem um sentido fantstico de quando h razo para preocupaes, e quando no h. Foi por isso que no lhe 
deixei o bilhete. Foi errado, mas ele conhece-me o suficiente para saber que fiz bem. No creio que acredite realmente que fui raptada.
- Tambm fiquei com essa impresso,
quando fui  suite. - No observara aquela aura intensa de pnico que seria de esperar se ele a julgasse efectivamente em perigo. No, no achava Anderson Thatcher 
preocupado, o que o ajudara a sentir-se livre para ser ele a vir, e telefonar-lhe mais tarde. - Vais telefonar-lhe, Olivia? -Perguntou, interessado. Pensava que, 
ao menos isso, ela faria.
- Eventualmente. Ainda no sei o que quero dizer-lhe. No estou segura de ser capaz de regressar, embora ache que tenho de o fazer, pelo menos por um perodo curto. 
Devo-lhe uma explicao. Mas o que havia para explicar? Que no queria voltar a viver com ele? que o amara em tempos mas tudo acabara, que ele
117
trara todas as esperanas, todas as partculas de decncia, tudo aquilo que nele a atrara, que dele quisera? No seu esprito, nada restara que a motivasse a regressar. 
Descobrira-o nessa noite da vspera, quando metera a chave na fechadura da suite e verificara que no lhe apetecia entrar. Voltar para aquilo, nunca. Teria feito 
o que quer que fosse, para fugir dele. E tambm para Andy j no significava nada, bem o sabia. H anos que no significava. Na maior parte do tempo, o marido abstraa-se 
por completo da sua existncia.
- Olivia, vais deix-lo? - perguntou Peter com delicadeza, quando acabavam o pequeno-almoo. No era da sua conta, mas conduzira dez horas para se assegurar de que 
ela estava a salvo, de que no corria perigo. Isso dava-lhe um certo direito a um mnimo de informaes, e ela no o ignorava.
-Acho que sim.
- Tens a certeza? No vosso mundo, vai provavelmente originar um tremendo escndalo.
No tanto como descobrirem que ests aqui comigo. - Riram-se, ela abertamente, ele  socapa. Nisso, no podia discordar de Olivia, que prosseguiu, de novo sria: 
- O escndalo no me assusta. No passa de barulheira, como as brincadeiras das crianas na Noite das Bruxas. O facto  que eu no posso viver mais com as mentiras, 
as simulaes, a falsidade de uma vida
na poltica. Tive-o de sobra para no mnimo dez vidas.
E sei que no sobreviveria a outras eleies.
- Achas que ele vai concorrer ao grande lugar, 'o prximo ano?
- Possivelmente.  mais do que provvel - respondeu, aps pensar bem. - Mas, se for, eu no posso acompanh-lo. Devo-lhe alguma coisa, mas isso, no.
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Seria pedir demais. Comeamos cheios de boas intenes, eu sei que o Alex tambm significava muito para ele, embora nunca estivesse presente quando devia estar. 
Mas, na maior parte do tempo, compreendi-o. Acho que mudou quando o irmo morreu. Que com ele morreu uma parte do Andy. Esqueceu tudo o que sempre pensara, ou o 
preocupara, com relao  poltica. Eu no sou capaz. E no descortino qualquer razo que justifique a modificao dele. No quero acabar como a minha me. Bebe 
de mais, tem enxaquecas, tem pesadelos, vive no terror constante da imprensa, tremem-lhe sempre as mos. Constantemente apavorada com a ideia de criar situaes 
embaraosas para o meu pai. Ningum pode viver debaixo de tamanha presso. Est desfeita, e isto h anos. Mas sob um aspecto excelente. Fez uma plstica aos olhos 
e ao rosto, e esconde bem o seu terror. E o meu pai arrasta-a para toda a espcie de encontros, conferncias, discursos de campanha, reunies. Se fosse sincera, 
h muito teria admitido que o detesta por isso, mas nunca o fez. Ele arruinou-lhe a vida. H anos que o devia ter deixado, e talvez se o tivesse feito ainda fosse 
uma pessoa na verdadeira acepo da palavra. Acho que a nica razo por que ficou, foi para ele no perder uma s eleio. - Peter escutava-a muito srio, profundamente 
tocado pelas suas palavras. - Se eu soubesse que o Andy ia meter-se na poltica, nunca me teria casado com ele. Acho que devia ter calculado -Concluiu, triste.
- No podias adivinhar que o irmo ia ser morto, que ele se deixasse arrastar...
- Talvez seja uma desculpa, talvez de uma maneira ou de outra tudo tivesse acabado. Sabe-se l! - Encolheu os ombros e olhou pela janela. Os barcos de pesca
que salpicavam o horizonte pareciam brinquedos. - isto  to bonito... Quem me dera poder ficar para sempre. - Parecia segura do que afirmava.
- Ficarias? Se o deixares, voltas para c? - Queria saber em que cenrio a imaginar, a ver com os olhos da mente, quando pensasse nela nas longas noites frias de 
Inverno, em Greenwich.
- Talvez. - Em muitos aspectos, continuava insegura. Sabia que ainda tinha de voltar a Paris e falar com Andy, embora o admitisse com relutncia. Tendo deixado avolumar-se 
por dois dias o mito do rapto, no lhe era difcil idealizar a barafunda que ele criaria aquando do seu regresso.
- Falei ontem com a minha mulher - contou Peter, sereno, enquanto Olivia, silenciosa, pensava no ma
rido. - Foi esquisito falar com ela, depois de tudo o
que ns conversmos a noite passada. Sempre defendi
tudo o que ela fazia... e o seu relacionamento com o
pai, embora na realidade no me agradasse. Mas, depois
da conversa contigo, passou a irritar-me. - Era to espontneo com Olivia, to capaz de lhe dizer tudo o que
sentia. Ela era to aberta, to profunda, e contudo to
cautelosa em no o ferir! E ele sentia-o. - Jantou com
ele na noite anterior. Almoaram juntos ontem. Vo
passar dois meses juntos este Vero, dia e noite. s vezes,  como se tivesse casado com ele e no comigo. Penso que no fundo sempre achei isso. A minha nica
consolao  que temos uma boa vida, os nossos filhos
so estupendos e o pai dela deixa-me fazer o que eu
quero, nos negcios. - Estranhamente, parecera-lhe
tanto durante tanto tempo e, num pice, deixara de parecer!
- Deixa-te fazer o que queres? - Agora, insistia;
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em Paris, no ousara. Mas desta vez fora ele a trazer o assunto  baila. E j se conheciam melhor; a vinda a La Favire tornara-os mais ntimos.
- o Frank deixa-me fazer praticamente tudo aquilo que quero. A maior parte das vezes. - No adiantou mais. Entravam por terrenos escorregadios. Ela estava pronta 
para deixar Andy, por razes muito suas, mas Peter no tinha o mnimo desejo de fazer naufragar o barco em que navegava com Katie. At a, iam as suas certezas .
-E se derem para o torto os testes que esto a fazer com o Vicotec? Como reagir ele?
- Continuar a apoi-lo, espero. Teremos apenas de prosseguir as pesquisas, embora de certeza com custos muito elevados. - Fora sempre o combinado, no imaginava 
que Frank recuasse agora. Achava fantstico o Vicotec. Teriam apenas de informar a FDA de que ainda no estavam preparados.
- Todos ns assumimos compromissos - retorquiu Olivia calmamente. - O nico problema  quando achamos que assumimos demasiados. Talvez seja o teu caso, ou talvez 
no tenha importncia, desde que sejas feliz. s? - perguntou, de olhos muito abertos. No era como mulher que o perguntava, apenas como amiga.
- Acho que sim. - De repente, instalava-se a dvida no seu esprito. - Sempre achei que sim mas, para ser sincero, Olivia, ao ouvir-te, fico confuso. Capitulei em 
muitos pontos. Onde vivemos, as escolas dos rapazes, o Stio onde passamos o Vero. E ento penso: e da, que interessa? O problema  que talvez interesse. E talvez 
no tivesse qualquer valor, se a Katie estivesse do meu lado, mas de repente observo-a e apercebo-me
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de que no est. Ou saiu para uma reunio algures, o, est entretida com os midos ou consigo prpria, ou do lado do pai. H bastante tempo que  assim, desde que 
os rapazes foram para o internato, talvez at antes. Mas eu sempre ocupado, nunca parei para pensar nisso. E o facto  que, depois de dezoito anos em comum, no 
tenho com quem conversar. Estou aqui, a falar contigo numa aldeia de pescadores em Frana, e estou a contar-te coisas que a ela nunca contei... porque no posso 
confiar nela.  uma evidncia dos diabos - comentou, triste. - E, todavia... - Deitou-lhe um olhar penetrante e, por cima da mesa, pegou-lhe na mo. - No quero 
deix-la. Nunca tal me passou pela cabea. No me imagino a abandon-la, a viver uma vida que no seja a que partilho com ela e com os nossos filhos... Mas estou 
a perceber uma coisa que at hoje nunca percebera, ou no quisera perceber. Estou absolutamente s. - Com um simples aceno de cabea, Olivia concordou. Essa solido 
era-lhe mais do que familiar, e soubera, desde a primeira conversa entre ambos, em Paris, que tambm Peter a sofria. Todavia, estava certa de que ele no tinha conscincia 
desse facto. As coisas haviam-se encaminhado de forma a coloc-lo numa situao que nunca imaginara. Olhou ento Olivia, com uma sinceridade suprema, pois descobrira 
outra coisa sobre si prprio nos ltimos dois dias. - No importa o que sinto, ou como ela me pe de parte, tenho  a certeza de no ter nunca garra suficiente para 
a deixar. Seria um tal desmoronamento! - S pensar em recomear toda a sua vida causava-lhe calafrios.
- No seria fcil. - Olivia falava com tranquilidade, pensando no seu caso e ainda com a mo presa na dele. No o depreciou pelo que lhe ouvira. Pelo com-
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trrio, subiu no seu apreo por ser capaz de o dizer. - Tambm a mim me aterroriza. Mas tu tens, pelo menos
uma vida em comum com ela, por muito imperfeita que possa ser. Ela est l, fala contigo, preocupa-se contigo  sua maneira, mesmo se de uma maneira limitada, ou 
demasiado dependente do pai. Mas decerto tambm  leal contigo e com os vossos filhos. Tm uma vida em conjunto, Peter, apesar de no ser perfeita. O Andy e eu no 
temos nada. H anos que no temos. Acabou, quase quando principiava. - Peter suspeitava de que ela no exagerava, e no tentou defend-lo.
- Ento, talvez devas separar-te. - Preocupava-se, porm com ela; parecia to vulnervel, to frgil. No lhe agradava imagin-la sozinha, mesmo ali, na sua singular 
aldeia de pescadores. Continuava a pensar no quanto seria doloroso no voltar a v-la. Em dois nicos dias, tornara-se-lhe valiosa, no se imaginava a perd-la, 
a no conversar com ela. A lenda que vira de relance no elevador transformara-se numa mulher.
- Poderias ir para junto dos teus pais por uns tempos, at os nimos acalmarem, e s depois vir para c? -Tentava ajud-la a organizar-se, e ela sorriu-lhe. Eram 
amigos autnticos, agora cmplices no crime.
-Talvez. No sei bem se a minha me ter fora para aguentar, especialmente se o meu pai for contra e tomar o partido do Andy.
- Ests a brincar. Achas que ele faria isso?
- Pode fazer. Os polticos habitualmente unem-se.
O meu irmo concorda com tudo o que o Andy faz, por uma questo de princpios. E o meu pai apoia-o sempre. 
ptimo para eles, um descalabro para ns, as mulheres. E o meu pai acha que o Andy deve candidatar-se  presidncia. No me parece que a minha deser-
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o fosse vista com bons olhos. Diminui imenso as suas probabilidades, talvez mesmo o afaste por completo da corrida.  impensvel, um presidente divorciado. Pessoalmente, 
penso que lhe faria um favor. Para min,
o cargo  um pesadelo. Uma vida de inferno. No tenho a mnima dvida a esse respeito. Daria cabo de mim, -Peter acenou, concordante, estupefacto pelo rumo da conversa. 
Por complicada que fosse a sua vida, especialmente com o Vicotec a evaporar-se nos ares, era decerto bastante mais simples do que a dela. Pelo menos, a sua vida 
privada. Na dela, cada movimento era esmiuado. E ningum da sua famlia tinha a mais remota inteno de se imiscuir na poltica, excepto Katie, com o conselho directivo 
do liceu. Olivia, por seu turno, estava ligada a um governador, um senador, um congressista e possivelmente, num futuro no muito distante, um presidente, desde 
que no se separasse dele. Era espantoso,
- Achas teu dever ficar, se ele decidir candidatar-se, no  assim?
- No vejo como poderia. Seria o cmulo da aldrabice. Mas tudo  possvel. Se eu enlouquecer, ou se ele me amarrar, me amordaar e me enfiar num armrio. Podia dizer 
s pessoas que eu estava a dormir. -A estas palavras, Peter sorriu. Pagou o pequeno-almoo e, de brao dado, saram lentamente do restaurante. Surpreendeu-o a comida 
ser to barata.
-Se ele o fizer, tenho de correr a salvar-te outra vez - brincou, enquanto se sentavam na doca, baloiando os ps acima da gua. Peter continuava de camisa branca 
e com as calas do fato; ela, descala. Um contraste curioso.
- Foi o que fizeste, desta vez? - Sorria, maliciosa e encostou-se-lhe despreocupadamente. - Salvar-me?
A palavra agradava-lhe.
H anos que ningum acorria a salv-la; o gesto era bem-vindo.
- Pensei que sim... Ests a ver, de raptores, de terroristas, eventualmente do tipo de camisa branca que te seguia quando saas da Place Vendme. Deu-me a impresso 
de ser um sujeito perigoso... Decidi, em definitivo pela premncia de um salvamento. - Sorria-lhe, e o sol que os banhava era quente, e baloiavam os ps como duas 
crianas.
- Agrada-me a ideia. Sugeriu ento uma ida at  praia. - Podemos dar um salto ao meu hotel e de l, para o mar, nadar! - Mas ele riu-se. Tomar banho de calas no 
era o mais adequado. - Podemos comprar-te uns cales, ou um fato de banho.  uma pena desperdiar um tempo destes.
Peter fitou-a, melanclico. Era uma pena desperdiar um segundo que fosse, mas havia limites para o que tinham o direito de fazer.
- Tenho de regressar a Paris. levei quase dez horas a chegar aqui.
- No sejas ridculo! No fizeste uma viagem destas s para tomar o pequeno-almoo. Alm disso, no tens l nada a fazer excepto esperar notcias do Suchard, e ele 
at talvez nem te telefone. Podes perguntar para o hotel se tens mensagens e telefonar-lhe daqui, se for preciso.
- E ficam solucionados todos os problemas - retorquiu ele, rindo a propsito da forma rpida por que ela ordenara todos os seus deveres.
- Podes alugar um quarto no meu hotel, e amanh voltamos os dois - acrescentou Olivia, prosaica, adiando
por um dia a partida. Mas Peter no estava de modo algum certo de dever aceder, embora o convite fosse mais do que tentador.
- No achas que devias telefonar-lhe ? - sugeriu, com prudncia, enquanto passeavam pela praia de mos dadas, sob o sol abrasador. E olhou-a, radiosa, a seu lado; 
nunca na vida descortinara tamanha liberdade, pensou. 
- No necessariamente. - Olivia parecia tudo, menos contrita. - Pensa na publicidade que ele vai conseguir com esta histria, a simpatia, a ateno que desperta. 
Seria muito lamentvel, para ele, deitar tudo a perder.
- Ests h demasiado tempo na poltica. - Contra sua vontade, Peter riu-se e, puxado por ela, acabou por sentar-se na areia a seu lado. J ento descalara os sapatos 
e as pegas, que levava na mo. Sentia-se um vagabundo da beira-mar. - Comeas a raciocinar como eles.
- Nunca. Nem sequer a minha pior faceta est corrompida a esse ponto. No pretendo nada de realmente mau. A nica coisa que qus na vida... perdi-a, No tenho mais 
nada a perder. - Nunca Peter ouvira uma afirmao to triste; sabia que se referia ao filho.
- Podes vir a ter mais filhos, Olvia. - Falava-lhe docemente, enquanto ela se estendia a seu lado na areia, de olhos fechados, como se, recusando-se a ver a dor, 
pudesse afast-la. Mas no passaram despercebidas a Peter as lgrimas ao canto dos olhos, lgrimas que limpou com ternura. - Deve ter sido um horror... Tenho tanta 
pena... - Gostaria de chorar com ela, apert-la nos braos, apagar todo o seu sofrimento dos 
- ltimos seis anos. Olhava-a e sentia-se impotente para a ajudar; nada mais podia fazer para alm de a consolar. 
- Foi horroroso - murmurou Olvia, ainda de olhos fechados. - Obrigada, Peter, por seres meu ami-
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go ...e por estares aqui. - Abriu por fim os olhos e por muito tempo os seus olhares cruzaram-se. Peter fizera um longo percurso por causa dela; e ento, naquela 
pequena povoao francesa, escondidos de todos os que
os conheciam, ambos compreenderam que tinham vindo at ali um por causa do outro, para ficarem juntos o mximo de tempo possvel, o mximo de tempo que ousassem. 
Apoiando-se num cotovelo, fixando-a, teve a certeza absoluta de que nunca sentira o  mesmo por pessoa nenhuma, nem conhecera algum que se lhe igualasse. Naquele 
momento, nada nem ningum mais lhe interessava.
- por ti que c estou... - Meigamente, contornava-lhe o rosto e os lbios com a ponta dos dedos. -E sem o mnimo direito de estar. Nunca fiz nada de semelhante. 
- Atormentava-se por ela e, todavia, ela era o blsamo que sarava todas as suas outras feridas. Achar-se a seu lado era a melhor coisa que alguma vez lhe acontecera, 
e ao mesmo tempo a mais confusa.
- Eu sei... - Bem no seu ntimo, com a alma, com o corao, sabia tudo a seu respeito. - No espero nada de ti - apressou-se a acrescentar. -j me deste o que nenhuma 
outra pessoa me deu nos ltimos dez anos. No posso pedir mais... e no quero tornar-te in-
feliz. - Ergueu para ele um olhar triste. De certa ma-
neira, conhecia muito melhor a vida do que Peter.
A mgoa, a perda, a dor, mas acima de tudo, a traio.
- Schhhh... - Selou-lhe os lbios com um dedo
e, sem uma palavra, deitou-se junto a ela, tomou-a nos braos e beijou-a. No havia por ali ningum que pudesse v-los,
que se preocupasse com o que faziam, que
os fotografasse, ou interrompesse. Estavam a ss com as
suas conscincias e os obstculos que transportavam
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consigo, quais fragmentos arrastados pelo mar e espalhados pela areia. Os filhos, os cnjuges, as recordaes...
as suas vidas. Nada disso, porm, parecia contar quando a beijou com a paixo contida ao longo dos anos e h muito reprimida. Por longo tempo ficaram enlaados. 
Os beijos de Olivia eram to sfregos quanto os dele,
seu corao ainda mais faminto. S muito depois recordaram onde estavam, se obrigaram a separar-se; de novo deitados na areia, sorriam um para o outro.
- Amo-te, Olivia. - Foi ele o primeiro a falar ofegante, enquanto a puxava para mais perto de si e o' sol os inundava. - Pode parecer-te loucura, s passaram dois 
dias, mas  como se toda a vida te tivesse conhecido. Nem sequer de to dizer tenho o direito... mas amo-te. - Viu nos seus olhos um brilho novo; e sorriu.
- Tambm eu te amo. S Deus sabe o que isto nos trar, provavelmente muito pouco, mas nunca na vida me senti to feliz. Para o diabo o Vicotec e o Andy! -Ambos se 
riram da veemncia da frase; que extraordinrio, naquele preciso momento nem uma s alma a sabia onde se encontravam. Dela, pensava-se que fora raptada, ou coisa 
pior; ele, simplesmente desaparecera num carro alugado, com uma garrafa de Evian e uma ma. Era um alvio... a certeza de que no haveria no mundo quem os encontrasse.
Foi ento que um pensamento atravessou o esprito de Peter. Talvez, nesse preciso momento, a Interpol viesse a caminho.
-Porque  que o teu marido no imaginar que possas ter vindo para aqui? - Para ele fora to bvio, certamente tambm o seria para Andy.
- Nunca lhe falei deste recanto. Foi sempre um segredo meu.
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-O qu?! - Olivia mencionara-o no primeiro encontro de ambos. E no dissera nada a Andy? O facto
lisonjeou-o. A confiana em si depositada afigurava-se
extraordinria, mas era mtua. No havia nada de nada que no lhe contasse, ou no tivesse contado. - Acho que estamos em segurana, aqui. Por umas horas, pelo menos. 
- Continuava decidido a partir nessa tarde; porm, depois de terem comprado um calo de banho e nadado no mar, lado a lado, a sua resoluo comeou a enfraquecer. 
Era muito mais excitante do que nadar na piscina do Ritz. Nessa altura nem a conhecia, fora um tormento nadar perto dela. Ali, nadavam juntos, e o tormento de Peter 
era reprimir-se.
Olivia confessou-lhe que nadar no oceano a assustava, essa a razo de nunca ter gostado de navegar. Tinha medo das correntes e das mars, e daqueles peixes que nadavam 
em seu redor. Mas a presena dele protegia-a; nadaram at junto de um barquito preso a uma bia. Treparam para l e deixaram-se ficar um bom bocado; e Peter teve 
de fazer apelo a toda a sua fora de vontade para no fazer amor com ela dentro do pequeno bote. J tinham, porm, estabelecido um acordo. Peter no duvidava de 
que, se alguma coisa acontecesse entre eles, estragariam tudo. Ambos se deixavam abater pela culpa, ambos sabiam que o que entre eles nascera naquela noite tinha 
como futuro nico a amizade. No podiam correr o risco de a desperdiar, por uma loucura. E embora o casamento de Olivia fosse de longe mais precrio do que o dele, 
e menos completo, esta concordava com ele. Uma ligao entre ambos apenas complicaria as coisas, quando voltasse a Paris para conversar com Andy. "~ claro que era 
difcil manter mais ou menos platnico um relacionamento to prximo, no ir alm de uns
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beijos. Recomearam quando voltaram  praia e tentaram no avanar, mas estava muito longe de ser fcil. Com os corpos, molhados e macios, deitados bem juntos, falavam 
de tudo o que para eles era importante. Da infncia, a dela em Washington, a dele no Wisconsin. Ele confessou-lhe at que ponto se sentira sempre deslocado no ambiente 
familiar, por quanto mais ansiara, na felicidade que tivera ao conhecer Katie.
Ela falou-lhe da sua famlia, ele dos seus pais e irm. Contou-lhe que a me e a irm tinham morrido de cancro - o porqu do muito que para si significava o Vicotec.
- Se tivessem um produto semelhante  disposio, teria sido diferente - comentou, dolorido.
- Talvez retorquiu Olivia, filosoficamente. -Mas nem sempre se pode vencer, sejam quais forem os medicamentos milagrosos de que se dispe. - Ela e o marido . tinham 
tentado tudo, e mesmo assim no haviam salvo Alex. E voltou ao caso dele, a respeito da irm.
- Ela tinha filhos? - Peter abanou afirmativamente a cabea, enquanto se lhe enchiam de lgrimas os olhos, perdidos na distncia. - Vm visitar-te?
Foi envergonhado que respondeu. Ao olh-la nos olhos, entendeu o seu erro. Estar com ela induzia-o a querer alterar as coisas. Alterar muitas coisas, umas mais fceis 
do que outras.
- O meu cunhado mudou-se e voltou a casar nesse mesmo 'ano. No soube dele durante muito tempo. No sei porqu, talvez quisesse cortar totalmente com o passado. 
Nunca me telefonou, nem me disse onde
vam, at ele e a sua nova mulher precisarem de dinheiro. Acho que nessa altura j tinham mais dois filhos'
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E eu aceitei a opinio de Katie, de que passara demasiado tempo, que eles provavelmente se estavam nas tintas para
mim, e que as crianas nem me conheceriam. Deixei
andar e h sculos que no ouo falar neles. Da ltima vez, viviam numa quinta em Montana. Chego a pensar se no agradar  Katie o facto de eu no ter famlia, 
excepto ela, os rapazes e o, Frank. Ela e minha irm nunca se deram bem, e a Katie ficou furiosa por ser a Muriel a herdar a quinta, e no eu. Mas o meu pai teve 
razo em deix-la a eles. Eu no a queria nem precisava dela e o meu pai sabia-o. - Pousou o olhar em Olivia, consciente do que soubera durante anos mas se recusara 
a admitir, por considerao para com Katie. -Fiz mal em deixar as crianas fora da minha vida. Devia ter ido v-las a Montana. - Devia-o  irm. Mas teria sido doloroso; 
fora bem mais fcil dar ouvidos a Katie.
- Ainda podes ir - argumentou Olivia, meigamente.
Bem gostava. Se ainda conseguir encontr-los.
Aposto que consegues, se tentares.
Peter concordou; agora sabia o que tinha a fazer. A pergunta seguinte de Olivia foi um autntico soco no estmago.
-E se nunca te tivesses casado com ela? - Mostrava-se curiosa. Divertia-a imenso meter-se com ele, fazer-lhe perguntas de resposta difcil.
- No teria feito a carreira que fiz - foi a sua simples resposta. Mas Olivia discordou de imediato.
- Ests totalmente enganado. E a  que reside o problema. - No hesitara um s instante. - Ests convencido de que lhes deves tudo o que tens, O teu emprego, o 
teu sucesso, a tua carreira, at a tua casa em Greenvich. Que, disparate! A tua carreira teria sido bri-
lhante de qualquer forma. No foi ela que a fez, foste tu. Terias construdo uma carreira fabulosa onde quer que estivesses, talvez at no Wisconsin.  essa a tua
maneira de ser, acho que uma espcie de habilidade para detectar i a oportunidade certa e aproveit-la. V o que conseguiste com o Vicotec. Tu prprio disseste que 
era um "beb" inteiramente teu.
- Mas ainda no o tenho - interrompeu ele, modesto.
- Hs-de ter. Diga o Suchard o que disser, Um ano, dois, dez, no interessa. Hs-de l chegar. - Falava com uma convico absoluta. - E se no resultar, resultar 
qualquer outra coisa. Sem ter nada a ver coma pessoa com quem estejas casado. - No estava errada, s que ele no o sabia. - No nego que os Donovan te tenham dado 
uma oportunidade, mas outros o teriam feito. E repara no que tu lhes ds. Peter, tu pensas que eles fizeram tudo por ti, e continuas aperreado. Foste tu prprio 
quem fez tudo e nem sequer ds por isso. -Uma perspectiva que nunca lhe ocorrera; ouvir aquelas palavras insuflava-lhe confiana. Era uma mulher notvel. Dava-lhe 
o que ningum antes lhe dera, sobretudo Katie. Mas tambm ele lhe dava alguma coisa, uma espcie de calor humano e proteco e ternura que
muito lhe faltavam. Constituam uma combinao rara e Olivia estava-lhe grata.
Foi ao fim da tarde que entraram no hotel dela;
encomendaram uma salada, po e queijo, servidos na varanda. s seis horas, Peter olhou para o relgio; tinha de regressar a Paris. Mas aps um dia de banhos de mar
e sol, e domnio da paixo que ela lhe despertava, era quase excessivo o seu cansao para se pr a caminho, com dez horas de conduo pela frente, sozinho.
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-Acho que no devias - opinou Olivia, em toda a sua beleza, muito jovem e bronzeada, e um tanto preocupada. o que lhe apetecia era ficar com ela para sempre. - H 
dois dias que no tens uma noite decente de sono e no chegas l antes das quatro da madrugada mesmo se partires daqui a dez minutos.
- Tenho de admitir que no  muito convidativo. - A sua fadiga era agradvel, mas era fadiga. E no entanto, precisava de voltar. Telefonara para o Ritz, pelo menos 
no havia mensagens para si, mas na realidade tinha de regressar a Paris, talvez Suchard lhe telefonasse. Foi um alvio o facto de nem Katie nem Frank terem tentado 
comunicar com ele nessa manh.
- Porque no passas a noite e segues amanh de manh? - A sugesto era sensata, Peter hesitou.
-Vais comigo, se eu for amanh?
-Talvez. - E, de olhos postos no mar, parecia agora muito infeliz.
-  isso que admiro em ti, a tua verdadeira paixo pelos compromissos. - Mas a paixo de Olivia era por outras coisas e o pouco que dela saboreara j quase o levara 
a perder a cabea. - Bom, est bem - concordou, enfim. Estava na verdade demasiado cansado para passar a noite ao volante, preferia faz-lo depois de umas horas 
bem dormidas, na manh seguinte.
Quando quiseram alugar o outro quarto de pessoa
s do hotel j estava ocupado. O hotel tinha apenas
quatro quartos, e o dela era o melhor. Um 'pequeno quarto de casal com vista para o mar; entreolharam-se longamente.
- Podes dormir no cho - alvitrou ela finalmente com um sorriso malicioso, numa aluso a que o compromisso assumido entre ambos seria honrado e no fa-
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riam nada de que mais tarde se arrependessem. O que por vezes era difcil.
-  deprimente admiti-lo, mas  a melhor oferta que me foi apresentada ultimamente. Aceito-a.
- Ento, tudo certo. E eu prometo portar-me bem. Palavra de escuteiro. - Ergueu dois dedos, Peter fingiu-se desapontado.
- Isso ainda  mais deprimente. - Riam ambos ao sair, de brao dado,  procura de uma T-shirt, um colete e um par de calas de ganga. Encontraram tudo no armazm 
local. A T-shirt era de propaganda  Fanta, as calas de ganga serviam-lhe na perfeio; e ele insistiu em barbear-se na pequena casa de banho dela, o que lhe melhorou 
sensivelmente o aspecto. Ela apareceu com uma saia de algodo branca, um top de gola alta e um 1 par de sandlias que comprara no armazm. Com o cabelo curto muito 
brilhante, bronzeada, estava encantadora. Peter mal acreditava tratar-se da mulher sobre a qual tanto lera e que por tanto tempo o fascinara. j no parecia a mesma 
pessoa. Era a sua amiga, e a mulher por quem estava a apaixonar-se. Como era doce o que sentiam um pelo outro, fsica e emocionalmente, e a que, a despeito da oportunidade, 
se recusavam a ceder! Deliciosamente romntico... e antiquado.
Deram as mos, beijaram-se, e  meia-noite passeavam pela praia quando, ao longe, ouviram msica; danaram na areia, bem apertados, e ento ele beijou-a.
- O que vamos ns fazer quando regressarmos? - Estavam sentados lado a lado, ainda com a msica ao fundo, quando ele falou. - O que vou eu fazer sem ti? Uma pergunta 
que a si prprio fazia e refazia. - O mesmo de sempre - respondeu ela, serena. No tencionava arruinar-lhe o casamento, ou sequer in-
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duzi-lo a pensar nisso. No tinha o mnimo direito, acontecesse o que acontecesse entre ela e Andy. E alm de tudo o mais, apesar da atraco recproca, de certa 
forma mal o conhecia.
- O mesmo de sempre? - A sua voz soava infeliz. -j nem me lembro. Tudo o que ficou para trs me parece agora to irreal. Nem sei se fui feliz.-- Mas o pior  que 
comeava a desconfiar de que no fora. O que era um conceito novo para si.
- Talvez no interesse. Talvez no devas analisar-te tanto. Neste momento, temos tudo isto... e teremos a recordao do dia de hoje. Vai ajudar-me por muito tempo 
- disse ela, com sensatez mas melanclica; ergueu depois o olhar para ele. Ambos sabiam a verdade sobre a sua vida, ele expusera-a sem nunca a ter aprofundado, mas 
isso nunca ela lhe diria. Arranjara desculpas para si prprio, deixara a Katie e a Frank todas as decises, tanto relativas ao seu lar como ao seu negcio. Acontecera 
gradualmente. E a nica coisa que o espantava, ao ver agora o seu caso pelo prisma de Olivia, era no perceber como nunca dera por isso. Mas fora to ms simples 
aquela soluo!
- O que vou eu fazer sem ti? - repetia, perdido, apertando-a contra o peito. No podia imaginar no a ter, para conversarem. Sobrevivera quarenta e quatro anos sem 
ela e, de repente, nem um momento de separao admitia.
- No penses nisso. - Dessa vez, beijou-o ela.
E foi-lhes precisa toda a fora de vontade de que dispu
nham para se apartarem e regressarem devagar ao hotel,
0enlaados pela cintura. Enquanto subiam para o pequeno
Q0uarto, Peter sorriu-lhe e, tristonho, murmurou:
- Tens de ficar acordada a noite inteira, a atirar-me
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gua fria para cima. - Daria tudo por uma varinha m-
gica que alterasse as circunstncias, mas sabiam que o que desejavam estava errado, e no ceder seria um autntico teste  integridade de ambos.
- Fico - prometeu Olivia, sorrindo. Ainda telefonara a Andy e no parecia nada tentada a faz-1, naquele momento. Peter no expressou qualquer reparo. Achou que 
a deciso era dela, mas a sua rebeldia neste ponto intrigava-o; estaria a castig-lo, ou apenas com medo de lhe falar?
Olivia manteve a sua palavra. Entregou-lhe todas as almofadas e um cobertor, ajudou-o a fazer uma precria cama no tapete, do lado da cama em que dormia. Ele deitou-se 
de calas de ganga e T-shirt, descalo, ela vestiu a camisa de noite na casa de banho. E finalmente deitados, s escuras, ela na cama, ele no cho a seu lado, deram-se 
as mos e conversaram horas seguidas; mas no houve da parte dele um s movimento para a beijar. Foi pelas quatro horas que ela se calou, vencida pelo sono. Peter 
levantou-se de mansinho, aconchegou-lhe a roupa, contemplou-a, adormecida como uma rapariguinha, curvou-se e aflorou-lhe o rosto com os lbios. Voltou ento a deitar-se 
no cho, na sua cama provisria, e pensou nela at romper a manh.
CAPTULO 6
Eram quase dez e meia quando acordaram, no dia seguinte. O sol brilhava atravs da janela. Foi Olivia a primeira a despertar e olhava-o da cama, sorridente, quando 
ele se espreguiou.
- Bom dia - murmurou, com carinho; Peter resmungou ao virar-se e ficar deitado de costas. Apesar do fino tapete e do cobertor, o cho era duro e ele, que adormecera 
s sete horas, estava deveras cansado. - Ests perro? - Lia-lho na cara e ofereceu-se para lhe massajar as costas. Sentiam-se ambos muito orgulhosos de si prprios 
por terem passado a noite sem fazer nada de errado.
- Gostava imenso. - Aceitou a oferta da massagem com um sorriso aberto e foi com novo resmungo que se deitou de barriga para baixo, o que a divertiu. Ainda deitada 
na cama, tambm sobre a barriga, inclinou-se e massajou-lhe suavemente o pescoo enquanto ele, de olhos fechados, ao comprido na sua cama improvisada, se sentia 
feliz.
_ Dormiste bem? - perguntou-lhe, agora a massajar-lhe os ombros e a tentar no pensar em como era macia a sua pele. Uma pele de beb.
- Fiquei aqui deitado, a pensar em ti, quase toda a noite - respondeu-lhe, sincero. - Definitivamente,  um tributo  minha qualidade de gentleman ter-me portado 
bem, ou talvez seja apenas um sinal de estupidez e
Velhice, - Rolou sobre si prprio, fitou-a, pegou-lhe nas mos e ento, sem aviso prvio, sentou-se com a maior das facilidades e beijou-a.
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Sonhei contigo esta noite - disse Olivia, enquanto, de caras encostadas, ele a beijava uma e outra vez, brincando-lhe com o cabelo. Sabia que no tardaria a ter 
de deix-la.
- O que aconteceu no sonho? - sussurrou, beijando-lhe o pescoo e esquecendo aos poucos as suas boas intenes.
- Eu estava a nadar no mar e comeava a afogar-me... e ento, tu salvaste-me. Creio que  bem representativo do que aconteceu ao conhecer-te. Estava a afogar-me, 
quando te conheci. - E dessa vez, para a beijar, enlaou-a. Estava agora de joelhos, na cama, e, sem saber como, as suas mos comeavam a acariciar-lhe os seios 
por baixo da camisa de noite. Aesse contacto, Olivia gemeu baixinho, quis recordar-lhe o compromisso mtuo, mas, no mesmo instante, esqueceu-o e encostou-se-lhe 
mais.
Os beijos que trocavam eram cada vez mais apaixonados, enquanto ela o ia puxando, devagar, para junto de si; um momento depois, os seus corpos entrelaavam-se, emaranhavam-se 
nos lenis, ela ainda de camisa de noite, ele de calas de ganga. Deitados, beijaram-se, esquecendo tudo e descobrindo coisas um do outro que haviam jurado no 
explorar. Peter beijava-a como se quisesse devor-la, engoli-la inteira at que ela fsse parte de si e assim pudesse guard-la para sempre.
- Peter... - suspirou, e ele manteve-a colada a e de novo a beijou, ela procurou-o, sedenta.
- Olivia... no... no quero que mais tarde te arrependas... - Tentava ser responsvel, mais por ela do que por si, ou por Kate, mas tambm j no conseguia conter-se. 
Sem uma palavra, despiu as calas de ganga, a T-shirt j estava longe, a fina camisa de noite, atirada pe-
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los ares, foi cair algures no cho, enquanto comeavam a fazer amor. Era perto do meio-dia quando recuperaram a razo e se deixaram cair, enlaados, completamente, 
exaustos e saciados. Mas nunca nenhum deles se mostrara mais feliz e, do aconchego dos seus braos, Olvia sorriu -lhe, os seus membros admirveis entrelaados nos 
dele.
- Peter... eu amo-te.
- Ainda bem... - E apertava-a tanto contra si que se diria constiturem uma s pessoa. - Nunca amei tanto ningum em toda a minha vida. Acho que, afinal, no sou 
nada gentleman - acrescentou, s com um tnue arrependimento e profundamente satisfeito; O0lvia sorriu-lhe, ensonada.
-Es0tou contente por no seres... Suspirou e aninhou-se melhor contra ele.
Ficar0am em silncio por muito tempo, ali deitados nos braos um do outro, gratos por cada 0momento que haviam partilhado. Depois, cientes de que tinham de se separar 
em breve, fizeram amor outra vez, uma ltima vez. E quando finalmente se levantaram, Olivia encostou-se a ele e chorou. Por nada quereria deix-lo, mas ambos sabiam 
que tinha de ser. Decidira regressar a Paris com ele. Deixaram o hotel s quatro da tarde, com o ar de duas crianas expulsas do jardim do Paraso.
Pararam para comprar qualquer coisa para comer e repartiram entre si um copo de vinho e sanduches, sentados na praia, a contemplar o mar.
- Vou ser capaz de te imaginar aqui, se voltares para c, - Olhava-a com tristeza,desejando, tal como ela, que lhes fosse possvel ficar para sempre, juntos.
 - Virs ver-me? - Olvia sorria-lhe, melanclica, ao fazer a pergunta. O cabelo caa-lhe para os olhos,
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gros de areia colavam-se-lhe ao lado do rosto sobre que estivera deitada.
Peter levou muito tempo a responder. No sabia bem o que dizer-lhe. No podia fazer promessas. Ainda tinha uma vida com Kate e, h no mais de uma hora, Olvia afirmara 
compreender isso. No pretendia priv-lo de nada. Tudo o que pretendia era recordar com amor o que tinham partilhado nos dois ltimos dias...e que era mais do que 
algumas pessoas tm numa vida inteira.
- Tentarei - proferiu finalmente, sem querer quebrar uma promessa antes ainda de a ter feito. Tinham os dois conscincia de quanto iria ser difcil, e os dois haviam 
j dito que no podiam continuar a sua ligao. Ficaria como uma recordao, nada mais. As suas vidas eram por de mais complicadas, ambos estavam demasiado envolvidos 
com outras pessoas. E, uma vez Olvia regressada ao seu prprio mundo, os paparazzi que habitualmente a perseguiam no iriam permitir nunca que uma coisa semelhante 
se repetisse. O que ali tinham vivido fora um milagre que no se produziria segunda vez.
- Gostava de voltar para c e alugar uma casa - declarou, solene, Olvia. - Acho que, ento, poderia escrever.
- Devias tentar. - E beijou-a.
Deitaram fora o que restava do almoo e, de mos dadas, ficaram um momento de p, a admirar o oceano.
- Quem me dera que voltssemos um dia. Juntos, claro. - Prometia-lhe algo que ainda no ousara prometer, algo vago, mais do que uma promessa, uma esperana num futuro 
remoto. Ou talvez apenas num outro dia. Noutra recordao a guardar. Olvia no esperava nada dele.
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-Talvez voltemos - retorquiu ela, muito calmamente. Se tiver de ser, talvez voltemos.
 - Mas, primeiro, havia obstculos a vencer, barreiras a saltar, arcos em chamas a atravessar. Ele tinha que acompanhar o Vicotec at ao fim, a luta com o sogro, 
Katie, que o esperava em Connecticut; e ela, enfrentar o regresso e chegar a um acordo com Andy.
Dirigiram-se lentamente para o carro; ela trouxera comida para o caminho. Colocou-a no banco de trs e desejou que ele no lhe visse as lgrimas nos olhos; porm, 
mesmo sem a olhar, Peter sentia-as. Como as sentia no seu prprio corao. Chorava por razes idnticas s dela. Ansiava por mais do que aquilo a que qualquer deles 
tinha direito.
Puxou-a para junto de si ao olharem pela ltima vez o mar e disse-lhe quanto a amava. Ela disse-lhe o mesmo, tornaram a beijar-se e entraram por fim no carro alugado, 
para dar incio  longa viagem de retorno a Paris.
Durante um bocado quase no falaram; j mais descontrados, comearam a conversar. Cada um lidava  sua maneira com o que se passara, tentando absorv-lo, captur-lo 
e aceitar as limitaes inevitveis.
- Vai ser to duro... - comentou Olvia quando passavam por La Vierrerie, sorrindo atravs das lgrimas que, contra sua vontade, lhe corriam cara abaixo. - Saber 
que andas por a, e no poder estar contigo.
-Eu sei. - Tambm ele tinha um n na garganta - Vinha a pensar nisso ao sair do hotel. Vai enlouquecer-me. Com quem vou eu conversar ? - E, agora que tinham feito 
amor, de certa forma sentia-a pertena sua.
-Podes telefonar de vez em quando - sugeriu ela, esperanosa. - Eu fao-te saber onde estou.
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No entanto, no ignoravam que, onde quer que ele se encontrasse, continuaria a estar casado.
- No me parece justo para ti. - Nada o era. Um perigo que haviam corrido ao fazer o que tinham feito, mas ambos o sabiam antecipadamente. E, na realidade, no terem 
feito amor no teria alterado coisa nenhuma. De certa forma, at teria tornado tudo mais difcil. Assim, tinham-se ao menos possudo profundamente e podiam guardar 
essa lembrana.
- Talvez possamos encontrar-nos em qualquer stio, daqui a seis meses, s para ver como vo as nossas vidas. - Por instantes, ficou embaraada: viera-lhe  memria 
um dos seus filmes preferidos, com Cary Grant e Deborah Kerr. Era um clssico e fizera-a chorar milhentas vezes, quando era mais nova. - Talvez possamos encontrar-nos 
no Empire State Building - acrescentou, meio a brincar, e ele apressou-se a discordar, com um aceno de cabea.
-No  boa ideia. Nunca mais subias. Eu ficava meio maluco e tu aparecias numa cadeira de rodas. Tenta outro filme. - Sorriu; ela riu-se.
- O que vamos ns fazer ? - Melanclica, olhava pela janela.
-Voltar para trs. Ser fortes. Voltar para o que fazamos antes. Acho que ser mais fcil para mim do que para ti. Eu era to estpido e to cego, que nem percebia 
quanto era infeliz. Em minha opinio, tu tens ainda muito a resolver. O meu problema vai ser fazer 
de conta que nada aconteceu, como se no tivesse encarado a realidade durante a minha semana em Paris. Como poderia explicar-me?
-Talvez no tenhas de o fazer. - Pensava em quanto o Vicotec abanaria o seu barco, se os testes no 
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fossem satisfatrios. Era o que se veria, e Peter cada vez mais se preocupava com o caso.
-Porque  que no me escreves, Olivia? - pediu- - Ao menos, para eu saber onde ests. Dou em maluco se no souber. Prometes-me escrever ?
- Claro.
Conversavam, enquanto ele conduzia, e eram quase quatro horas da madrugada quando entraram em Paris. Peter parou a uns quarteires do hotel, encostou o carro ao 
passeio, e, embora j ambos estivessem cansadssimos, fez-lhe uma proposta.
- Posso oferecer-lhe um caf ? - Fora assim o incio do seu relacionamento, na Place de la Concorde; ela sorriu tristemente.
-Pode oferecer-me o que quiser, Peter Haskell.
-O que eu queria dar-te no pode comprar-se a preo nenhum. - Referia-se ao que sentia por ela, o que sentira desde o primeiro momento em que a vira - Eu amo-te. 
Provavelmente, amar-te-ei at ao fim da minha vida. Nunca haver ningum seno tu. Nunca houve, nunca haver. Lembra-te disso, onde quer que estejas. Eu amo-te.
 - Beijou-a ento, longa e ardentemente; e agarraram-se um ao outro como dois nufragos.
- Tambm te amo, Peter. Quem me dera que pudesses ficar comigo.
- Quem me dera... tambm a mim. - Tinha perfeita conscincia de que nenhum deles esqueceria alguma vez o que haviam partilhado nos dois ltimos dias e o que entre 
ambos acontecera nessa manh.
Conduziu-a de regresso ao hotel, deixou-a sair no extremo  oposto da Place Vendme. Olvia no trazia malas consigo, s a saia de algodo que vestia. Enrolara
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as calas de ganga e a T-shrt e levava-os na mo.  No deixava nada com ele, excepto o seu corao; olhou-o uma ltima vez, ele voltou a beij-la; depois, atravessou 
a correr a praa, banhada em lgrimas.
Peter ficou por longo tempo sentado, a pensar nela, de olhos fixos na entrada do hotel, onde pela ltima vez a avistara. Nesse momento, j teria chegado ao quarto, 
e desta vez prometera-lhe no recuar, no desaparecer. E se o fizesse, que fosse ter com ele, ou pelo menos lhe dissesse onde estava. No a queria a deambular por 
Frana. Ao contrrio do marido, Peter preocupava-se verdadeiramente com a segurana dela. Tudo alis o preocupava, o que tinham feito, o que iria acontecer-lhe agora 
que estava de volta, se iria ou no ser de novo usada e explorada, ou se desta vez deixaria o marido. Preocupava-o encarar Katie, no Connecticut; pressentiria ela 
que alguma coisa mudara entre eles? E teria mudado? Olivia demonstrara-lhe que o seu sucesso fora ele quem o construra mas, apesar das palavras desta, ainda sentia 
que devia muito a Kate. No podia p-la de lado agora. Tinha de continuar como se nada tivesse sucedido. O seu relacionamento com Olivia no possua passado, nem 
presente, nem futuro. Fora um simples momento, um sonho, um instante, um diamante encontrado na areia e guardado por ambos. E ambos 
tinham obrigaes anteriores. Era Kate o seu passado, o seu presente e o seu futuro. A nica dificuldade residia na ferida do seu corao. E, enquanto se encaminhava 
para o Ritz, pensava que esse corao no aguentaria se continuasse a pensar em Olvia. Tornaria a v-la? Onde estaria ela nesse preciso momento? A vida sem ela 
era  inimaginvel, mas era tudo o que lhe restava. 
Quando abriu a porta do quarto, reparou no peque-
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no envelope que o esperava. O Dr. Paul-Louis Suchard, telefonara e pedia que Mr. Haskell o contactasse o mais depressa possvel.
Estava de regresso  sua vida real, s coisas que lhe diziam respeito, a sua mulher, os seus filhos, os seus negcios. E algures, l longe, desvanecendo-se no nevoeiro, 
a mulher que achara que nunca teria, a mulher por quem ficara to desesperadamente apaixonado.
Permaneceu na varanda a ver nascer o Sol, e a pensar nela. Tudo aquilo lhe parecia um sonho, e talvez tivesse sido. A Place de la Concorde... o caf em Montmartre... 
a praia em La Favire... tudo. Sabia que, por muito forte que fosse o que sentia por ela, por muito maravilhoso que tivesse sido, era necessrio esquecer.
CAPTULO 7
Quando o despertaram s oito horas, Peter estava morto para o mundo e, ao pegar no telefone, estranhou sentir-se to mal. Era como se tivesse chumbo na cabea; ento, 
lembrou-se. Ela sara da sua vida. Tudo acabara. Tinha de telefonar a Suchard, voar para Nova Iorque, enfrentar Frank e Katie. E Olivia voltara para o marido.
Debaixo do duche, pensava nela, sentia-se inacreditavelmente desgraado e era tremendo o seu esforo para se concentrar no assunto de que tinha de tratar nessa manh.
Ligou a Suchard s nove horas em ponto. E Paul-Louis recusou-se a comunicar-lhe os resultados obtidos. Insistiu com Peter para que fosse ter directamente ao laboratrio. 
Informou-o apenas de que todos os testes estavam concludos. Pedia uma hora do tempo de Peter, dizendo-lhe que facilmente apanharia um avio s duas horas. Peter, 
aborrecido por ele nem ao menos lhe resumir os resultados pelo telefone, concordou em ir ao seu escritrio s dez e meia.
Encomendou caf e croissants, mas no conseguiu comer nada. Saiu do hotel s dez horas, chegou com dez ninutos de antecedncia. Suchard esperava-o, carrancudo. Afinal, 
os resultados no eram to maus quanto Peter receara ou Paul-Louis previra. Uma das substncias essenciais do Vicotec era claramente perigosa, teria de se encontrar 
maneira de a substituir, mas o produto no seu conjunto no deveria ser posto de parte. Teria, sim, de ser "retrabalhado", como Suchard dizia, o
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que talvez viesse a revelar-se um processo lento. Pressionado, admitiu que as alteraes poderiam ser levadas a cabo no espao de seis meses a um ano, eventualmente 
menos se acontecesse um milagre, no que no acreditava. Mais racionalmente, o processo levaria cerca de dois anos, o que era bem melhor do que o que Peter depreendera 
da primeira conversa que haviam tido. Talvez, com equipas extras, pudessem pr o Vicotec de p em menos de um ano, e isso no era o fim do mundo, embora no deixasse 
de ser um desapontamento. No entanto, com a presena da tal substncia, como se apresentava agora e como haviam pensado comercializ-lo, era potencialmente um medicamento 
assassino. Poderia deixar de ser, e Suchard sugeriu vrias formas de proceder s alteraes necessrias. Peter, porm, sabia que Frank no consideraria nada disto 
boas notcias. Odiava atrasos, e as intensas pesquisas ainda a fazer custariam dinheiro. No havia, para j, a mnima hiptese de pedir  FDA autorizao para ensaios 
em seres humanos, muito menos de comparecerem s averiguaes de Setembro com o objectivo de o produto ser includo nas "prioridades". O que Frank quereria seria, 
evidentemente, a aprovao do medicamento o mais depressa possvel, dando origem a lucros macios - o que no coincidia com o que Peter desejava. Quaisquer que fossem 
as razes ou os objectivos, por agora no havia nada a fazer.
Peter agradeceu a Paul-Louis o seu empenho e meticulosidade das suas pesquisas e, ao regressar ao hotel, ia absorto nos seus pensamentos, tentando encontrar as palavras 
a dizer a Frank. A frase exacta de Paul-Louis ressoava ainda, desagradavelmente, nos seus ouvidos: "O Vicotec, tal como se apresenta agora,  um assassino.
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No fora de certeza essa a inteno deles, ou o que ele teria desejado para a sua me e para a sua irm. Todavia,
por qualquer razo, Peter no via Frank a aceitar a notcia racionalmente, i nem Katie, que odiava coisas que aborrecessem o pai. Desta vez, porm, at ela teria 
de compreender. Ningum desejava uma srie de tragdias, nem uma s que fosse, nem podia arriscar-se a deixar que tal acontecesse.
No hotel, Peter fez as malas e, enquanto esperava dez minutos pelo carro, ligou para o noticirio. E l estava ela. Quase exactamente aquilo que esperara. A grande 
notcia do momento era que Olivia Thatcher fora encontrada. E a novela romanesca que impingiram era demasiado estranha para ser verdadeira, e claro que no o era. 
Fora encontrar-se com uma amiga, tiveram um pequeno acidente de viao, sofrera de leve amnsia durante trs dias. Ningum no hospital onde estivera parecia t-la 
reconhecido ou ter visto os noticirios; como por milagre, na noite anterior recuperara a memria e reunira-se, felizmente, ao marido.
-  de mais para uma reportagem sria - comentou Peter, abanando a cabea, enfastiado. Passaram as mesmas fotografias dela, antigas, j muito vistas, e depois uma 
entrevista com um neurologista, especulando sobre as consequncias cerebrais de uma concusso ligeira. Remataram desejando a Mrs. Thatcher um total e rpido restabelecimento. 
- men - disse ele entre dentes e desligou. Passeou o olhar pelo quarto uma ltima vez, pegou na pasta. A mala fora levada, nada mais restava a Peter do que abandonar 
o hotel.
Naquele momento, deixar o quarto causou-lhe uma enorme sensao de nostalgia. Tanta coisa acontecera durante a sua estada! Apeteceu-lhe de repente correr
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escada acima, s para a ver. Bateria  porta da sua suite, diria que era um velho amigo... e provavelmente Andy Thatcher iria consider-lo um louco. Peter questionava-se 
sobre se ele teria qualquer suspeita em relao aos ltimos trs dias, ou se no lhe interessava. Era difcil tirar uma concluso e a histria contada  imprensa 
no passava, e com boa vontade, de um romance de cordel, Peter achara-a ridcula e gostaria de saber quem a inventara.
Ao descer, encontrou o habitual matiz de personagens, os rabes, os japoneses... O rei Khaled fora para Londres, depois da ameaa de bomba. Parecia haver uma nova 
enxurrada de recm-chegados a registar-se, enquanto Peter, passada a recepo, seguia o seu caminho. Ao entrar na porta giratria, deparou com um numeroso grupo 
de homens de fato completo, walkie-talkies e auscultadores; e foi ento que,  distncia, a viu. Encaminhava-se precisamente para a limusina, onde j se encontravam 
Andy e dois dos seus colaboradores. Afastara-se dela, a conversar com os seus homens, e, como que pressentindo a presena de Peter, Olivia olhou por cima do ombro. 
Parou, hipnotizada, e fitou-o. Os olhares de ambos cruzaram-se, ficaram presos por um longo momento, e Peter preocupou-se com a hiptese de algum dar por isso. 
Baixou-lhe muito discretamente a cabea e ento, como que a arrancar-se dele pela segunda vez, Olivia entrou na limusina, a porta fechou-se, e Peter ficou no passeio, 
de olhos fixos no carro,  sua procura e incapaz de ver atravs dos vidros fumados.
- O seu carro espera-o, senhor - informou-o cortesmente o porteiro, ansioso por evitar um engarrafamento de trnsito defronte do Ritz. Duas modelos queriam sair 
para uma sesso e a limusina de peter blo-
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queava-as. Comeavam a ficar histricas, gritavam, agitavam os braos.
- Desculpem. - Gratificou o porteiro, entrou no carro e, sem uma palavra, fixou os olhos na rua em sua frente, sem sequer a olhar de relance, enquanto o motorista 
rumava rapidamente ao aeroporto.
E na limusina deles, Andy levava Olivia ao encontro de dois congressistas e do embaixador, na Embaixada americana. Tratava-se de uma reunio que planeara durante 
toda a semana, e insistira com a mulher para o acompanhar. De incio, enfurecera-se com ela pela barafunda que provocara, mas, uma hora aps v-la de regresso s 
e salva, concluiu que o seu desaparecimento fora um bnus para si. Ele e os seus assistentes tinham arquitectado uma srie de possibilidades, todas elas destinadas 
a atrair as simpatias, especialmente tendo em conta os seus planos do momento. Queria fazer dela uma outra Jackie Kenedy. O seu aspecto prestava-se a isso, e o seu 
ar acrianado, aliado ao seu estilo e inteligncia naturais, e a sua coragem perante a adversidade. Todos os conselheiros de Andy a declaravam perfeita. Tinham de 
lhe prestar maior ateno do que no passado e prepar-la um pouco mais para as suas funes, de forma alguma duvidando de que as desempenharia bem.
Precisava de pr ponto final nas suas curtas ausncias, Fizera-o com frequncia aps a morte de Alex, afastar-se por umas horas, passar uma noite algures, geralmente 
com o irmo ou com os pais. Desta vez, desaparecera por mais tempo, mas ele nunca realmente sentira que a mulher corria perigo. Sabia que ela voltaria, e esperava 
que entretanto no fizesse qualquer coisa estpida. E, antes de sarem para a embaixada, dissera-lhe precisamente o que pensava do assunto e tambm o que
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agora se esperava dela. Olivia comeara por declarar que no iria com ele. E objectara com veemncia contra a fantochada que estavam a impingir aos media a seu respeito.
- Pareo uma mentecapta total - dissera, horrorizada. - Uma doente mental. - Queixara-se amargamente da histria.
- No nos deixaste muito por onde escolher. O que querias que dissssemos? Que estiveras a cair de bbeda durante trs dias, num hotel da margem esquerda? Ou a verdade? 
A propsito, qual  a verdade, se qqueres que eu a conhea?
- No  nem de perto to interessante como o que quer que seja que tenhas imaginado. Precisei de algum tempo para mim,  tudo.
- Foi o que eu pensei. - mostrava-se mais aborrecido do que ofendido. Tambm ele desaparecia imenso, mas fazia-o com mais subtileza do que a mulher. - Da prxima 
vez, fars o favor de me deixar umas linhas ou de informar algum.
- Ia faz-lo. Depois, hesitei, duvidosa de que desses sequer pela minha ausncia. - Parecia atrapalhada.
- Deves pensar que eu estou completamente a leste do que se passa  minha volta - retorquiu ele, desta vez ofendido.
-E no ests? No que se me refere, pelo menos.
Apelou ento a toda a coragem e disse-lhe o que planeara dizer-lhe desde o seu retorno. - Gostava de falar contigo esta tarde. Talvez quando voltarmos da embaixada.
- Tenho um almoo - respondeu ele, desinteressado. Regressara. No o pusera em xeque. A imprensa fora satisfeita. Precisava dela na embaixada, quanto
ao resto, tinha mais em que pensar.
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- Convinha-me esta tarde - insistiu Olivia, impassvel. Conhecia bem aquele brilho do seu olhar, significava que no tinha tempo para ela. Um olhar que lhe era familiar, 
nem por sombras um olhar de boas-vindas.
- Algum problema? - indagou, surpreendido. Era raro a mulher roubar-lhe tempo, mas no suspeitava minimamente do que estava para vir.
- Nada de nada. Apenas me evaporei durante trs dias de uma s vez. Que problema poderia haver? -Andy no gostou nem do olhar, nem da voz de Olivia.
-Tiveste uma sorte dos diabos por eu ter sido capaz de corrigir o teu erro, Olivia. Se eu fosse a ti, no me mostraria to insolente. No podes esperar continuar 
a cirandar quando te apetece, e encontrar todos bem-dispostos quando voltas. Se a imprensa quisesse, poderia ter-te feito em fanicos. Portanto, porque no te limitas 
a pr uma pedra sobre o assunto? - No tinha a menor dvida de que golpes do gnero poderiam diminuir seriamente as suas hipteses.
-Desculpa. - Mantinha-se inflexvel. - No era meu intuito causar-te tantos trabalhos. - No ouvira do marido uma nica palavra que sugerisse preocupao com ela, 
receio de que tivesse cado nalguma armadilha. % verdade, nunca tal passara pela cabea de Andy. Conhecendo-a
to bem como conhecia, sempre se convencera de que ela estava escondida. - Porque no conversamos depois dos teus encontros, esta tarde? At l, pode esperar. - 
Tentava manter-se calma. Mas est furiosa com ele. Nunca lhe dava nenhuma importncia, H anos que tal acontecia. E agora ainda era mais difcil, ao compar-lo com 
Peter.
Era em Peter que pensava e, ao seguirem para a
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embaixada uns minutos mais tarde, partira-se-lhe o corao ao v-lo. No ousara sequer acenar-lhe. Sabia que, por uns tempos, a imprensa no a perderia de vista 
nem por um segundo. Provavelmente, tambm eles desconfiariam da historieta fiada, cada "Pitu" que conseguissem desencantar lhes saberia a pouco.
Levou todo o caminho at  embaixada absorta nos seus pensamentos; e Andy no lhe pediu que o acompanhasse ao tal almoo. Teve um demorado encontro com um poltico 
francs. Porm, quando s quatro horas regressou, no vinha minimamente preparado para o que ia ouvir. Olivia esperava-o, serena, na sala da suite, sentada numa 
cadeira, de olhos fixos na janela. Por essa altura, Peter estaria num avio rumo a Nova Iorque, era s nisso que pensava. Voltaria para "eles", os outros da sua 
vida, os que no se preocupavam com ele. E tambm ela voltara para as mos dos exploradores, mas no por muito tempo.
- O que  essa coisa to importante? - disparou Andy ao entrar. Acompanhavam-no dois dos seus homens mas, perante a cara da mulher, o seu ar srio, apressou-se a 
dispens-los. S lhe vira aquele aspecto uma ou duas vezes, aquando da morte do irmo e da de Alex. No resto do tempo, mostrava-se sempre alheada dele, do mundo 
em que vivia.
-Tenho uma coisa a dizer-te. - Falava calmamente, sem saber bem por onde comear. o que sabia 
que tinha que lho dizer. - Isso... eu calculo. - Era mais bem-parecido que qualquer outro homem que ela conhecesse. Os seus olhos azuis, enormes, e o cabelo alourado 
emprestavam-lhe um ar agarotado. Tinha ombros largos e cintura fina, umas pernas altas, bem lanadas, que cruzou ao sen-
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tar-se numa das cadeiras de brocado. Mas j no 
fascinava olivia, nem sequer a atraa. Sabia a que ponto era egosta, e obcecado... e tambm que no tinha qual-
quer interesse nela. - Vou-me embora - foram as suas nicas palavras. S isso. j o dissera. Acabara-se.
-Embora, para onde? - perguntou o marido, confuso. No percebera o significado da frase, e Olivia no pde evitar um sorriso. Ultrapassava a sua compreenso e a 
sua imaginao.
-Vou deixar-te - traduziu ela. - Logo que voltarmos para Washington. No posso continuar. Foi por isso que me afastei estes dias. Tinha de pensar no assunto. Agora, 
tenho a certeza. - Queria lamentar o que estava a comunicar-lhe, mas ambos sabiam que no lamentava. Nem ele dava mostras de o lamentar; estava era boquiaberto.
-A ocasio que escolheste no  a ideal - replicou, meditativo, mas no lhe perguntou para onde ia.
- Nunca o so, as ocasies para dizer coisas deste gnero.  como adoecer. Nunca  conveniente. -Pensava em Alex, e ele abanou a cabea, concordando. Sabia quanto 
fora duro para ela. Mas acontecera h dois anos. Achava que, de certa maneira, a mulher no recuperara. Nem ela, nem o casamento deles.
._ H algum facto especfico que tenha desencadeado isto. Alguma coisa que te incomode? - No se deu ao trabalho de lhe perguntar se havia algum. Conhecendo-a como 
conhecia, deduziu facilmente que no havia, Estava convencido de saber tudo a seu respeito.
- H imensas coisas que me incomodam, Andy. Tu sabes. - Trocaram um longo olhar e nenhum deles se atreveria a negar que se haviam tornado dois estra-
nhos. Ela nem sabia quem ele era agora. - Nunca quis ser a mulher de um poltico. Disse-to quando casmos,
- No posso fazer nada, Olivia. As circunstncias alteram-se. Nunca esperei que o Tom fosse assassinado. H muitas coisas que nunca esperei. Nem tu. As coisas acontecem, 
e pronto. Faz-se o melhor que se pode para as enfrentar.
-E eu fiz. Estive a teu lado. Fiz campanha contigo. Fiz tudo o que esperavas de mim, mas j no somos um casal, Andy, e tu sabe-lo bem. H anos que no me prestas 
ateno. Nem sei quem tu s agora.
- Lamento - retorquiu ele, calmo e parecendo sincero; mas no props qualquer modificao. - uma m altura para me fazeres isto. - Olhou-a com um olhar penetrante, 
que a teria aterrorizado se pudesse ler-lhe o pensamento. Precisava desesperadamente dela, no estava de todo preparado para a deixar ir-se embora naquele momento. 
- H uma coisa que tenho estado a pensar em discutir contigo. S tomei uma deciso definitiva na semana passada. - E fosse a deciso o que fosse, era claro para 
Olivia que no fora ouvida nem achada. - Gostava que fosses uma das primeiras pessoas a saber. - "Uma das primeiras", no a primeira, era esse o resumo dos ltimos 
anos do casamento deles. - Vou candidatar-me  presidncia no prximo ano. Para mim significa tudo. E vou precisar da tua ajuda para vencer. - Sentada, olhou-o fixamente; 
no teria sido maior o impacte se a tivesse atingido com uma bola de basebol. Daquilo, no estava  espera. Sabia que havia uma possibilidade, mas agora tornara-se 
real, e a maneira como lho lanara era uma bomba prestes a rebentar-lhe nas mos; no fazia a menor ideia do caminho a seguir. - Pensei muito, sabendo o que sentes 
em relao a campanhas polticas. Mas acho que constituir uma pequena atraco vir a ser primeira dama. - Esboava um sorriso, pretensamente encorajante, mas ela 
no lho retribuiu. Pelo contrrio, mostrou-se horrorizada. A ltima coisa que queria neste mundo era ser primeira dama.
No constitui atraco de espcie alguma - re-
torquiu, trmula.
- Mas para mim constitui - declarou Andy, bruscamente. Era pelo que ele ansiava, mais do que por ela, ou pelo casamento de ambos. - E sem ti, no consigo.  impensvel, 
um presidente separado, e divorciado pior ainda. Isso no  novidade para ti. - Olivia era uma profissional da poltica, tendo crescido, como crescera, ao lado do 
pai. Ao olh-la, ocorreu-lhe uma ideia. Se mais no fosse possvel, tinha de tentar salvar o mximo, embora sem fazer o menor esforo para a convencer de que ainda 
a amava. Era demasiado esperta para um tal jogo e ele j metera vezes de sobra o p na argola. Fora longe de mais, ambos o sabiam. - Deixa-me fazer-te uma sugesto 
- continuou, medindo as palavras. - No  exactamente uma ideia romntica mas talvez seja til s necessidades dos dois. Eu preciso de ti. Falando com franqueza, 
pelo menos durante os prximos cinco anos. Um para a campanha e quatro para o meu primeiro mandato. Depois, poderemos renegociar, ou o pas ter de se adaptar  
nossa situao. Talvez tenha chegado o momento de o povo compreender que at o seu presidente  humano. No fim de contas, olha o Prncipe Carlos e a princesa Diana. 
A Inglaterra sobreviveu, ns tambm sobreviveremos. - No seu esprito era j presidente e o povo teria de ceder, tal como ela fazia.
- No tenho bem a certeza de que a nossa federa-
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o seja igual - comentou com uma ironia de que Andy nem se apercebeu.
- Seja como for - prosseguiu, ignorando-a, a pensar e a concentrar-se no que deveria propor-lhe como atractivo -, estamos a falar de cerca de cinco anos. Tu s muito 
nova, Olivia. Podes aguentar, e ganhar um cunho que nunca tiveste. As pessoas no s te lamentaro, ou tero curiosidade a teu respeito, elas vo acabar por te adorar. 
Os meus rapazes e eu podemos fazer com que isso acontea. - Ao ouvi-lo, apetecia-lhe vomitar; deixou-o prosseguir. - Eu porei quinhentos mil dlares numa conta em 
teu nome no final de cada ano, isentos de impostos. E, no fim dos cinco anos, ters dois milhes e meio de dlares. - Levantou uma mo, antecipando-se a qualquer 
comentrio. - Eu sei que no te deixas comprar, mas, se te vais embora por tua livre vontade,  um bom p-de-meia para ponto de partida. E, se tivermos outro filho... 
- Sorriu-lhe, a adoar o contrato. - Bom, dou-te mais um milho. Falmos nisso h pouco tempo, seria um argumento de peso. No vais querer que as pessoas pensem 
que h qualquer coisa errada connosco, ou digam que somos ambos homossexuais, ou que tu ficaste obcecada pela tragdia. J falam de mais a esse respeito. Acho que 
 tempo de agirmos e termos outro filho. - Olivia no queria acreditar no que os seus ouvidos ouviam. Falmos h pouco tempo significava ele e a gente da sua campanha. 
Ultrapassava o nojento.
- Porque no alugamos um beb? Ningum precisava de saber. Bastava-nos arrast-lo para a caravana da campanha e devolv-lo ao chegar a casa. Seria muito mais simples. 
As crianas geram tanta balbrdia, do tanta maada. - Andy no gostou do olhar com que ela acompanhou as suas palavras.
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- Comentrios desses no vm a propsito - replicou, calmo, parecendo exactamente aquilo que era, um rapaz rico que frequentara as melhores escolas preparatrias, 
seguindo-se-lhes a licenciatura em Harvard na Faculdade de Direito. Tivera montes de dinheiro da famlia a apoi-lo e sempre partira do princpio de que no havia 
coisa alguma que no pudesse ter, ou comprando-a ou lutando ferozmente. Queria aproveitar as duas possibilidades, mas no por ela. E nada no mundo a levaria a ter 
outro filho seu. Nunca estivera junto dela e de Alex, nem mesmo quando este ficara canceroso. Era em parte por isso que a morte do filho lhe doera tanto. Fora bastante 
mais fcil para Andy. No estava, nem pouco mais ou menos, to agarrado ao filho como ela.
- A tua proposta  revoltante. A coisa mais repugnante que jamais ouvi - respondeu-lhe, ultrajada. -Queres comprar cinco anos da minha vida, a um preo sensato, 
e queres que eu tenha outro filho porque isso te ajudaria a ser eleito. Recuso-me a continuar aqui sentada a ouvir-te por mais tempo. - A expresso de Olivia disse-lhe 
o que pensara da sua proposta.
- Sempre gostaste de crianas. No vejo qual  o problema.
-Eu j no gosto de ti, Andy,  esse o problema, ou parte dele. Como podes ser to grosseiro e insensvel? O que te aconteceu? - Lgrimas queimavam-lhe os olhos, 
mas no choraria. Ele no o merecia. - Adoro crianas. Ainda hoje. Mas no vou ter um beb para apoiar uma campanha eleitoral, de um homem que no me ama, O que 
estavas a sugerir Que o fizssemos por enseminao artificial? - No durmo com ele h meses, O que de facto a deixava indiferente. No tivera
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tempo, alm de ter outros recursos que explorava com regularidade, e ela no mostrava interesse.
- Acho que ests a exagerar - contraps um bocado embaraado pelas palavras da mulher. Havia nelas verdade, at ele o sentia. Mas agora no podia voltar atrs. Era 
demasiado importante para si levar a melhor, Dissera ao director da sua campanha que ela levantaria obstculos a ter um filho. Apegara-se imenso ao primeiro, ficara 
destroada com a sua morte, suspeitava de que nunca se disporia a ter outro. Via-a muito amedrontada; era de aproveitar a ocasio. - Est bem, mas gostaria que pensasses 
no assunto. Digamos, um milho por ano, So cinco milhes por cinco anos, e mais dois se tiveres um filho. - Falava a srio; nada restava a Olivia seno rir-se. 
- E riu-se.
- Achas que devo aguentar tudo por dois milhes, trs se tiver um beb? Isso faz... - Fingiu concentrar-se. - Deixa-me ver... So seis se tiver gmeos... nove se 
tiver trigmeos. Podia levar injeces de Pergonal
talvez at quatrigmeos... - Virou-se e olhou-o, magoada. Quem era aquele homem, em quem em tempo, acreditara? Como pudera enganar-se tanto a seu respeito? Ao ouvi-lo, 
perguntava-se se ele fora alguma vez humano, embora bem fundo no corao soubesse que o fora, muito, muito no princpio. Por causa da pessoa que em tempos fora, 
e no da que era agora, decidiu ficar e prestar-lhe ateno. - Se eu fizer qualquer coisa por ti, e duvido que faa, no ser por qualquer distorcido sentido de 
lealdade para contigo, nem por ganncia, ou para tentar enriquecer  tua custa. Mas sei a que ponto anseias por vencer. - Seria a ltima ddiva que lhe faria, e 
ento nunca mais teria de sentir-se
culpada por deix-lo.
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-  tudo o que eu quero, Olivia. - Havia tal ansiedade na sua voz e estava to plido que ela percebeu que, por uma vez, era sincero.
Vou pensar - disse, serenamente. No sabia que fazer. Nessa manh, convencera-se de que regressaria a La Favire pelo fim da semana e agora estava prestes a tornar-se 
primeira dama. Um pesadelo! Mas sentira que lhe devia qualquer coisa. Era ainda seu marido, fora o pai do seu filho, e ela poderia ajud-lo a concretizar o nico 
sonho da sua vida. Um presente incrvel a dar a algum. E, sem ela, sabia que no o conseguiria.
-Quero fazer o anncio dentro de dois dias. Voltamos amanh para Washington.
- gentil da tua parte informar-me.
- Se continuas confusa, talvez acates os nossos planos de viagem - replicou rudemente, observando-a, inseguro quanto  deciso que ela tomaria. Mas conhecia-a o 
suficiente para saber que no valia a pena for-la. Talvez conversar com o pai dela ajudasse; temia, no entanto, que o tiro acabasse por lhe sair pela culatra.
A noite no hotel foi uma agonia para Olivia; quanto desejaria dar outro longo passeio sozinha! Precisava de tempo para pensar mas no ignorava que, compreensivelmente, 
todo o pessoal da segurana se colaria a si. ~, que mais a satisfaria seria poder conversar com Peter. Qual seria a opinio dele, dir-lhe-ia que devia a Andy esse 
ltimo favor, ou que estava mal? Cinco anos pareciam-lhe uma eternidade, no duvidava de que seriam cinco longos anos que odiaria, sobretudo se ele vencesse as eleies.
De manh, porm, tomara uma deciso e foi encontrar-se con, Andy ao pequeno-almoo. Achou-o nervoso e plido, no pela perspectiva de a perder, mas pelo terror de 
que ela no o ajudasse a ganhar a eleio.
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- Suponho que deveria dizer qualquer coisa filosfica - comeou, por entre caf e croissants. Andy pedira a todos os outros que sassem, o que nele era raro. No 
estavam sozinhos h anos, excepto  noite na cama, agora acontecia pela segunda vez em dois dias. olhou-a de modo estranho, convencido da sua recusa. - Mas > acho 
que a filosofia j no  connosco, pois no? s me pergunto como chegmos a este ponto. Continuo a lembrar-me do princpio. Creio que nessa altura estavas apaixonado 
por mim, e no consigo entender bem o que aconteceu. Recordo os acontecimentos como dos comentrios que revejo em esprito, mas no sou capaz de determinar o momento 
exacto em que tudo se deteriorou. Tu s capaz? - perguntou-lhe, tristemente.
- No tenho a certeza de que isso interesse - respondeu Andy, abatido. j sabia o que ela ia dizer-lhe. Nunca a julgara to vingativa. Fizera a sua dose de garotices, 
cometera uma srie de erros, mas nunca pensara que a mulher realmente se importasse. Via agora a que ponto fora parvo. - Acho que as coisas foram acontecendo, com 
o andar do tempo. E o meu irmo morreu. No imaginas o que isso foi para mim. Estavas a meu lado, mas para mim foi diferente. De repente, tudo 1 que se esperava 
dele passou a esperar-se de mim. Tive de deixar de ser quem sou e transformar-me nele. Acho que tu e eu nos perdemos no meio desta mudana total.
- Se calhar, devias ter-mo comunicado ento -Talvez nunca devessem ter tido Alex. Talvez devesse t-lo deixado logo no princpio. No teria trocado por nada os dois 
anos da vida de Alex. Mas nem isso a incitava a ter outro filho agora. Sentiu, enquanto o olhava que tinha de arranc-lo  sua angstia. Decidiu faz-lo sem mais 
delongas. - Aceito ficar contigo durante os
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prximos cinco anos, a um milho por ano. No tenho a menor ideia do que vou fazer com o dinheiro, d-lo a uma obra de caridade, comprar um castelo na Sua, criar 
um fundo para pesquisas em nome do Alex, seja o que for. Decido mais tarde. Ofereceste-me um milho por ano, e eu aceito. Mas tambm tenho condies a impor. Quero 
uma garantia da tua parte de que se acabaram as minhas obrigaes no fim dos cinco anos, sejas ou no reeleito. E se perderes para o ano, quebra-se o compromisso 
e eu vou-me embora no dia seguinte s eleies. Sem nenhumas pretenses posteriores. Posarei para todas as fotografias que quiseres, farei a campanha contigo, mas 
entre ns acabou-se o casamento. Ningum mais tem de o saber, mas quero que fique bem claro entre ns. Quero um quarto s para mim onde quer que vamos, e no haver 
mais filhos. - Rude, rpido, directo e final. Excepto que acabava de se condenar por cinco anos, e ele estava to chocado que nem contentamento demonstrava.
-Como  que eu vou explicar os quartos separados? - articulou, simultaneamente preocupado e agra-
dado. Tinha obtido quase tudo o que queria, excepto um filho... Alis, essa fora uma ideia do seu director de campanha.
- Diz-lhes que tenho insnias - respondeu por ele  sua prpria pergunta - ou pesadelos, - A ideia era boa, arranjariam uma fantasia qualquer... Ele tinha tanto 
trabalho a fazer... O stress da presidncia... qualquer coisa do gnero.
- E uma adopo? - Negociava os mnimos por-
menores do acordo, mas nesse ponto ela no cedeu. - Esquece. No entro no negcio de compra de crianas para a poltica. No o faria a ningum, com
certeza nunca a uma criana inocente. Mereceria uma vida melhor e melhores pais. - Talvez um dia desejasse outro filho, ou mesmo adoptar um, mas no com ele e no 
como parte de um acordo to isento de amor corno aquele. - E quero tudo estabelecido num contrato. Tu s advogado, podes redigi-lo tu prprio, s entre ns, ningum 
ter nunca de o ver.
_ So precisas testemunhas - esclareceu ele, ainda estupefacto. A proposta da mulher subjugara-o em absoluto. Depois de tudo o que lhe dissera na vspera, ficara 
com a certeza de que ela se negaria.
- Ento, arranja algum em quem confies - foi a resposta calma de Olivia; isso, porm, era um enorme problema no seu mundo. Poderiam tra-lo na primeira oportunidade.
- No sei o que dizer-te. - Continuava boquiaberto.
- No h mais nada a dizer, pois no, Andy? -Dum s golpe, comeava a corrida dele  presidncia
e terminava o casamento de ambos. O facto entristeceu-a mas entre os dois no ficara ternura, nem sequer amizade. Para ela, os cinco anos iam ser uns cinco anos 
muito compridos; tinha esperana, para seu prprio bem, de que ele no ganhasse.
- O que te levou a faz-lo? - interrogou-a Andy suavemente, mais grato do que jamais estivera a algum em toda a sua vida.
-No sei. Achei que to devia. No me pareceu certo ter a possibilidade de te dar uma coisa que tanto queres, e negar-ta. E no me arrancas a nada que queira ter 
de verdade, excepto liberdade. Talvez queira escrever, mas isso pode esperar. - Olhou-o com interesse e pela primeira vez em anos, Andy apercebeu-se de que nunca 
a conhecera.
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- Obrigado, Olivia. - Levantou-se, sereno. -Boa sorte - desejou-lhe ela em tom suave. Ele agradeceu com um aceno de cabea e saiu da sala, sem se voltar, sem a olhar. 
E foi depois da sua sada que Olivia se lembrou de que nem uma s vez o marido a beijara.
- CAPTULO 8
Quando o avio de Peter aterrou no Aeroporto Kennedy, aguardava-o uma limusina. Tratara de tudo a bordo, e Frank estava  sua espera no escritrio. De certo modo, 
as notcias no eram to ms quanto Suchard o fizera recear, mas continuavam a no ser boas. E tudo seria, para Frank, uma novidade muitssimo difcil de explicar. 
Parecia ir tudo to bem h apenas cinco dias, quando partira de Genebra!
O trnsito de sexta-feira  noite para entrar na cidade era catico.  hora de ponta, e em junho, surgiam carros de toda a parte e passava das seis horas quando 
Peter chegou finalmente  Wilson-Donovan, com um aspecto crispado e exausto. Passara horas, no avio, s voltas com os relatrios e notas de Suchard. Caso excepcional, 
nem pensara em Olivia. S em Frank, no Vicotec e no futuro deles. A notcia mais desagradvel era terem de cancelar a apresentao  FDA e o pedido de liberao 
rpida; tal procedimento no implicava complicaes; o pior - e Peter no o ignorava - ia ser o desapontamento de Frank.
O sogro esperava-o l em cima, no quadragsimo quinto andar da Wilson-Donovan, na enorme suite de canto que ocupava h trinta anos, desde que a Wilson-Donovan se 
mudara para aquele edifcio. E a sua secretria ainda no sara. Quando viu chegar Peter, ofereceu-lhe uma bebida, mas ele s aceitou um copo de gua.
-Ento, l conseguiste! - acolheu-o Frank, distinto e jovial no seu fato escuro com uma risca fina, e a
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sua farta cabeleira branca; Peter viu pelo canto do olho uma garrafa de champanhe francs a arrefecer num frapp de prata. - Para qu tanto segredo? Parece um romance 
de capa e espada! - Os dois homens trocaram um aperto de mo e Peter perguntou-lhe como passava.
Frank, porm, aparentava melhor sade do que ele. Com setenta anos, mantinha uma enorme vitalidade, uma ptima sade, sempre atento a tudo, como nesse preciso momento. 
Quase ordenou a Peter que lhe contasse o que acontecera em Paris.

- Encontrei-me com o Suchard - comeou Peter enquanto se sentava, no seu ntimo lamentando no o
ter posto de sobreaviso pelo telefone. A garrafa fechada
de champanhe fixava-o, acusadora. - Levou imenso tempo com os testes, mas acho que valeu a pena. - Os joelhos tremiam-lhe como os de uma criana; apetecia-lhe sumir-se 
pelo cho.
- O que  que isso quer dizer? Um atestado de sade perfeita, presumo. - Piscou o olho ao genro que abanou a cabea e o encarou frontalmente.
- infelizmente, no. Um dos componentes secundrios quase deu com ele em doido na primeira srie de ensaios, o Suchard recusou-se a autorizar o produto at os refazer 
todos e descobriu um grave problema, a menos que o sistema estivesse errado.
-E o que era? - Ambos estavam agora srios.
- O nosso medicamento. H um elemento, s um que temos de mudar. Quando o fizermos, tudo ficar em ordem. Neste momento, segundo as palavras do Suchard, tal como 
as coisas se apresentam, o Vicotec  um medicamento assassino. - Para Peter, tratava-se de um problema a enfrentar, mas Frank limitou-se a abanar a cabea, descrente, 
e voltou a sentar-se na sua cadeira, a meditar no que Peter acabara de dizer-lhe.
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- Isso  ridculo. E ns sabemos que . Olha Berlim! Olha Genebra! Fizeram ensaios durante meses, e todos com resultados satisfatrios.
- Mas em Paris, no. No podemos ignor-lo. Felizmente, surgiu num s componente e ele acha que pode ser alterado com bastante facilidade. - Eram as palavras de 
Suchard.
- "Com bastante facilidade"... O que quer dizer ... ? - Frank fitava-o de sobrolho franzido. S uma resposta lhe interessava.
- Acha que, se tivermos sorte, a pesquisa pode levar seis meses a um ano. Se no tivermos, talvez dois anos. Mas, se pusermos duas equipas a trabalhar, penso que 
o teremos pronto durante o prximo ano. Antes, no acredito.
- Isso  um disparate. Vamos pedir  FDA autorizao para testes em seres humanos daqui a trs meses. Foi o que planemos, e  o que faremos. Fica a teu cargo. Se 
for preciso, traz para c esse francs maluco, para ajudar.
-Em trs meses,  impossvel. - As palavras de Frank horrorizavam Peter. -  impossvel. Temos de adiar o pedido  FDA, e a nossa comparncia aos questionrios e 
averiguaes.
- No! - berrou-lhe Frank. - Pareceramos uns idiotas. Temos tempo de sobra para limar as arestas antes de nos apresentarmos perante eles.
-E, se no tivermos, e eles nos concederem a autorizao que quer, vamos matar algum. Ouviu o que disse o Suchard,  perigoso. Frank, ningum mais do que eu anseia 
por ver o produto no mercado. Mas, para o conseguir, no vamos sacrificar seres humanos.
- J to disse! - O sogro falava-lhe de dentes cerrados. - Tens trs meses para o aperfeioar, at  apresentao  FDA.
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- No irei  FDA com um produto perigoso, Frank. Entende bem o que estou a dizer-lhe? - Peter levantou-lhe a voz pela primeira vez na sua vida. Mas estava cansado, 
o voo fora longo, h dias que no tinha uma verdadeira noite de sono. E Frank reagia como um louco, ao insistir na questo da apresentao, no pedido de autorizao 
do incio de experincias em seres humanos e da incluso do Vicotec nas "Prioridades", quando Suchard acabara de avis-lo de que se tratava de um medicamento potencialmente 
assassino. - Entendeu-me bem? - repetiu; Frank abanou a cabea, numa fria silenciosa.
- No, no entendi. Sabes o que quero de ti neste caso. F-lo. No vou deitar mais dinheiro pela janela fora com novos estudos. Ou levanta voo, ou no levanta. Fui 
claro?
-Muito - respondeu Peter, de novo controlado. - Ento, acho que no levanta. Investir ou no mais fundos  uma deciso sua - acrescentou, mas Frank limitou-se a 
olh-lo de esguelha, irado.
- Dou-te trs meses.
-Preciso de mais, Frank. E voc sabe que sim,
- No me interessa aquilo de que precisas. Limita-te a assegurar uma maneira de estar pronto para a apresentao de Setembro. Apeteceu a Peter chamar-lhe doido, 
mas no se atreveu. Nunca o vira tomar decises perigosas. Desta vez, mostrava-se totalmente irresponsvel, ao pretender uma coisa que deitaria por terra a companhia. 
Era ridculo, s restava a Peter esperar que na manh seguinte tivesse cado em si. Tal como Peter, ficara desapontado.
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- Lamento as ms notcias - disse Peter, sereno; e pensou se Frank lhe ofereceria boleia para Greenwich na limusina. Se oferecesse, a viagem iria ser longa e desagradvel, 
mas Peter estava morto por chegar a casa.
- O Suchard est maluco - comentou Frank, furioso, atravessando o gabinete e abrindo a porta, uma espcie de sinal de despedida a Peter.
- Tambm eu fiquei contrariado - retorquiu o genro com sinceridade; mas pelo menos fora muito mais racional do que Frank, que parecia no medir as consequncias 
do que propunha. No se pediam testes clnicos imediatos, nem a liberao prematura de um produto que se mostrava ainda nitidamente perigoso, que no fora aperfeioado, 
ou ento, caminhava-se deliberadamente ao encontro de problemas. E Peter no via como Frank se recusava a compreend-lo.
-Foi para isto que ficaste toda a semana em Paris? - Frank continuava encolerizado. A culpa no era de Peter, mas era ele o portador das ms notcias.
- Foi. Achei que se despacharia mais depressa se eu l estivesse  espera.
- Talvez no devssemos ter-nos dado ao incmodo de mandar testar o medicamento. - Peter caiu das nuvens.
- Tenho a certeza de que vai mudar de ideias quando pensar melhor no assunto e ler o relatrio. -Estendeu-lhe um monte de papis que tirou da pasta.
- Entrega isso ao gabinete de pesquisas. - Afastou a papelada com impacincia. - No vou ler essa porcaria. S serve para nos atrasar desnecessariamente. Eu conheo 
o estilo do trabalho do Suchard.  uma velha histrica!
-  um cientista premiado - replicou Peter com
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firmeza, determinado a apoi-lo; mas o encontro com Frank fora um pesadelo do princpio ao fim e sentia-se ansioso por partir, por se ver em Greenwich. - Acho que 
devemos voltar a discutir o assunto na segunda-feira, depois de o senhor ter tido tempo para o digerir,
-No h nada a digerir. Nem sequer a discutir. Tenho a certeza de que o relatrio do Suchard  mera histeria e recuso-me a consider-lo. Se tu o tens em conta, isso 
 contigo. - Semicerrou os olhos e espetou um dedo na direco de Peter: - E no quero isto discutido com ningum. Diz s nossas duas equipas daqui que mantenham 
o bico calado. Basta que se espalhe o boato, e a FDA recusa-nos o pedido.
Peter sentia-se actor de um filme surrealista. Chegara realmente a hora de Frank se retirar, se ia pr-se a tomar decises daquelas. No tinham escolha: no podiam 
apresentar-se  FDA com o Vicotec ainda no aperfeioado. E no fazia a menor ideia da razo que levava Frank quela atitude. Mas este continuava incrivelmente aborrecido 
quando passou ao assunto seguinte.
- Recebemos uma notificao do Congresso, enquanto estiveste fora - informou-o, rspido. - Querem que nos apresentemos  sua subcomisso no Outono, para a discusso 
do impacte dos preos elevados dos produtos farmacuticos no mercado actual. Mais choradeira do governo; o que eles queriam era que andssemos a oferecer medicamentos 
pelas esquinas. j contribumos muito para os hospitais e para os pases do terceiro mundo. Isto  uma indstria, que diabo, no  uma fundao! E no pensem que 
vamos dar ao Vicotec um preo de misria. No o permitirei! - Peter arrepiou-se ao ouvir o sogro. O nico objectivo do medicamento era ser acessvel s massas, s 
pessoas das reas
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remotas ou rurais, ou com situaes familiares em que fosse difcil, ou mesmo impossvel, recorrer a quem a tratasse, tal como acontecera com a me e a irm. Se 
a Wilson-Donovan ia aplicar-lhe um preo de medicamento de luxo, falseava esse objectivo; Peter teve de lutar contra a onda de pnico que o avassalava.
-Acho que a questo dos preos vai ter consequncias importantes - comentou, plcido.
- O Congresso tambm acha - rosnou-lhe Frank. - No nos chamaram s por causa disso, a importncia das consequncias, mas temos de lutar por preos altos, se no, 
vo atirar-nos  cara as nossas prprias palavras quando o Vicotec chegar ao mercado.
- Penso que no devemos exagerar - contraps Peter, com o corao aos saltos. No gostava de nada do que ouvira. Tudo se resumia a lucros. Estavam a desenvolver 
um medicamento miraculoso e o fito nico de Frank Donovan era tirar do facto o maior proveito que pudesse.
-j aceitei. Vamos. Achei que poders ir em Setembro, no dia da apresentao  FDA. Assim como assim, tens de ir a Washington.
- Talvez no - foi a resposta seca de Peter, decidido a adiar a luta; estava exausto. - Vai para Greenwich? - perguntou delicadamente, para mudar de assunto, e ainda 
obcecado pela obstinao de Frank, que ultrapassava toda a racionalidade.
-janto na cidade - foi a resposta sucinta que obteve. - Vejo-te no fim-de-semana. - Peter estava certo de que ele e Kate tinham combinado qualquer coisa que a mulher 
lhe contaria  sua chegada a casa. Porm, depois de sair, o que absorvia os seus pensamentos era a insensatez da posio de Frank. Talvez estivesse
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senil. Ningum em seu perfeito juzo pretenderia apresentar-se  FDA a pedir a liberao imediata de um produto perigoso, sobretudo depois do que Suchard dissera 
e enquanto existisse o mnimo risco. A Peter no interessavam legalidades, ou obrigaes, mas sim responsabilidade moral. Imagine-se que o Vicotec era aprovado e 
Ia matar algum! No havia a menor dvida no seu esprito de que ele e Frank seriam os responsveis, e no o medicamento. Estava fora de questo, a FDA.
Levou-lhe a hora inteira da viagem para recuperar do encontro com Frank; ao chegar a casa, Katie e os trs rapazes andavam s voltas com a cozinha. Ela tentava organizar 
um churrasco e Mike prometera ajudar, mas estava agarrado ao telefone a marcar um encontro para essa noite e Paul decidira que tinha outras coisas a fazer. Peter 
olhou para a mulher e, com pena dela, despiu o casaco e ps o avental. Para ele, eram duas horas da manh, estivera ausente toda a semana e sentia-se um bocado culpado.
Tentou saudar Katie com um beijo, depois de posto
o avental, mas surpreendeu-o a sua frieza; passou-lhe
pela cabea que suspeitara de alguma coisa relacionada
com Paris. A telepatia feminina assombrava-o. Em de
zoito anos, nunca a trara e, da nica vez em que o fizera, desconfiava de que ela tinha conhecimento. Os rapazes desapareceram quase de imediato, embrenhados nos
seus prprios planos, e ela mostrou-se fria durante todo
o jantar. Foi s depois de os filhos terem sado que lhe
falou, e Peter ficou estupefacto ao ouvi-la.
- O meu pai disse-me que foste muito rude com
ele, hoje. - Calma, fitava o marido com animosidade. - No acho justo. Estiveste fora toda a semana, ele
andava excitadssimo com o lanamento do Vicotec, e tu
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deitaste tudo a perder. - No era por causa de outra
mulher que se mostrava aborrecida, era por causa do
pai. Como de costume, apressava-se a defend-lo ms-
mo sem saber o que se passara.
-No deitei tudo a perder, Katie, foi o Suchard
quem deitou. - Esgotado, nem foras sentia para com
bater ambos. Mal dormira durante a semana inteira e,
alm disso, ter de discutir com a mulher as suas decises
de negcios aborrecia-o profundamente. - O laborat
rio de Frana detectou um problema srio, uma falha na
fabricao do Vicotec que poder, potencialmente, matar
algum. Temos de corrigir o erro. - A sua resposta fora serena e explcita, mas ela continuava duvidosa.
- O pai diz que te recusas a ir  FDA. - A voz
dela soava melancolicamente na cozinha.
- Claro que me recuso. Achas que quero apresen
tar  FDA um produto com uma falha e pedir a sua li
berao imediata, para depois o vender a um pblico
confiante? No sejas ridcula. No fao a mnima ideia
do porqu da reaco do teu pai. Mas estou convencido de que, quando ler os relatrios, cair em si.
- O pai diz que ests a agir como uma criana, que os relatrios so histricos, e que no h motivo para pnico. - Katie mantinha-se implacvel e Peter cerrou os 
dentes. No ia continuar a conversa.
-No me parece que seja o momento certo para falar disso. No duvido que o teu pai tenha ficado contrariado. Tambm eu fiquei. E, tal como ele, tambm eu no desejaria 
que os resultados fossem o que foram. Mas ignor-los no  a soluo.
- Falas como se ele fosse estpido. - Estava furiosa e Peter perdeu as estribeiras.
-Reagiu como tal, e tu reages como se fosses a
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me dele, Katie. Isto no nos diz respeito.  um assunto srio da companhia, uma deciso capital, de vida ou de morte. No  um problema teu, nem sequer para o comentares, 
e no me parece que devas envolver-te. - Enfurecia-o o facto bvio de Frank lhe ter telefonado a queixar-se, mal ele sara do escritrio. De repente, ocorreu-lhe 
tudo o que Olivia lhe dissera. Ela tinha razo. Katie governava a vida dele, ela e o pai. E o que o agastava era nunca se ter permitido dar por isso.
- O pai diz que nem sequer queres ir ao Congresso, por causa dos preos. - Mostrava-se magoada. Peter suspirou, desalentado.
-Eu no disse isso. Disse que achava que no devemos exagerar, neste momento, mas no decidi nada quanto ao Congresso. Ignoro o que se passa. - Mas no ela. Frank 
contara-lhe tudo. Como de costume, sabia mais do que o marido.
- Porque ests tu a mostrar-te to difcil? - insistiu Katie, enquanto ele metia a loua na mquina, num esforo para a ajudar. Sentia-se to exausto e to desorientado 
com a diferena horria que mal via o que fazia.
- Isto no  da tua conta, Katie. Deixa o teu pai dirigir a Wilson-Donovan. Ele sabe o que est a fazer. - E no devia ter ido chorar no ombro da filha. Peter estava 
lvido.
- exactamente o que eu te disse! - retorquiu, vitoriosa. Nem sequer se mostrava contente por o ver. Obcecava-a a defesa do pai. Pouco lhe interessava o seu cansao, 
ou o seu desapontamento pela falha no Vicotec, ou a sua indisponibilidade para o apresentar  FDA, ou iniciar a sua produo. No esprito dela, s o pai existia. 
Nunca para ele fora to evidente como agora; o olhar
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da mulher feriu-o profundamente. - Deixa o meu pai tomar as decises. Se ele diz que podes ir  FDA, no h razo para no o fazeres. E se o faz feliz que compareas 
ao Congresso por causa dos preos, porque no hs-de comparecer? - Ao ouvi-la, Peter teve vontade de desatar aos gritos.
- Comparecer ao Congresso no  a soluo, Katie, e apresentar cedo de mais  FDA um produto potencialmente perigoso  suicdio, para todos os da companhia, e para 
os doentes que decidam us-lo, inconscientes das suas complicaes letais em potncia. Tu tomarias talidomida, sabendo o que agora sabes? Claro que no. Pedirias 
 FDA uma liberao rpida? Claro que no. No podem ignorar-se as falhas potenciais dos medicamentos, uma vez que se tem conhecimento delas, Katie.  irracional, 
e tambm o  ir  FDA prematuramente. Pode pr-se o pas inteiro contra um medicamento pelo facto de o comercializar cedo de mais, ou com insensatez.
-Acho que o pai tem razo. Tu s um cobarde.
- No posso acreditar! - Fitava-a, incrdulo. -Foi o que ele disse? - Como resposta, Katie abanou a cabea em assentimento. - O teu pai est extenuado; gostaria 
que tu ficasses fora de tudo isto. Estive ausente quase duas semanas, no quero discutir contigo por causa dele.
- Ento, no o atormentes. Ele ficou incomodadssimo com o teu comportamento desta tarde. Acho desonesto da tua parte, Peter, e desagradvel... e desrespeitoso.
-Quando eu quiser que me ensines normas de conduta, Katie, peo-to. Mas, at l, convence-te de que o teu pai e eu podemos entender-nos entre ns.  um adulto, no 
precisa da tua defesa.
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- Talvez precise. Tem quase o dobro da tua idade e, se no o respeitas, se o tratas desabridamente, leva-lo depressa  cova. - Repreendia o marido quase em lgrimas; 
este sentou-se, tirou a gravata. Nem queria acreditar nos seus ouvidos!
- Por amor de Deus, queres parar? Que ridculo  um adulto. Pode tomar conta de si, no h razo para brigarmos por sua causa. A mim  que tu levas depressa para 
a cova, se no me deixas em paz. Mal dormi toda a semana, preocupado com os testes do laboratrio...
E tambm, claro, Olivia, e trs noites passadas a conversar com ela e uma viagem de ida e volta a La Favire. Todavia, nada disso fora mencionado e parecia agora 
to irreal que j nem ele prprio acreditava que acontecera. Katie catapultara-o para o seu prprio mundo com a subtileza de uma exploso nuclear.
- No sei porque foste to cruel com ele - insistiu, assoando o nariz; Peter comeava a perguntar-se se no seriam ambos loucos, ela e o pai. Havia um produto de 
que estavam a ocupar-se. Surgiram alguns problemas a resolver. No era nada de pessoal. Recusar-se a lev-lo  FDA no era uma rebelio contra Frank, nem a sua franqueza 
com ele significava uma afronta a Katie. Teriam perdido o juzo? Fora sempre assim? Ou, de repente, era pior do que antes? Cansado como estava, dificilmente poderia 
decidir em "cara ou coroa", e o choro de Katie foi a ltima gota; levantou-se e enlaou-a.
- Eu no fui cruel com ele, Katie, acredita-me. Talvez ele tenha tido um dia mau. Eu tambm tive. Vamos para a cama, por favor... Estou morto de fadiga. -Ou seria 
por perder Olivia que se sentia assim? De momento, no conseguia destrinar a questo.
Katie dirigiu-se com ele para o quarto com relutn-
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cia, e sempre a queixar-se das suas injustias para com o pai. Era to grotesco que deixou de lhe responder e, passados cinco minutos, adormecera e sonhava com uma 
jovem numa praia. Ria-se e acenava-lhe e ele corria para ela convencido de que era Olivia, mas ao alcan-la era Katie, e estava furiosa com ele. Gritava-lhe e, 
enquanto a ouvia, via Olivia desaparecer ao longe.
No dia seguinte, acordou inerte, subjugado por um desespero que lhe pesava como pedras. No se lembrava da razo por que se sentia assim; olhou ento em seu redor, 
viu o quarto familiar e recordou-se. Recordou-se de um outro quarto, de um outro dia, de uma outra mulher. Custava a acreditar que s haviam passado dois dias. Poderia 
ter decorrido uma vida inteira. Deitado na cama, pensava nela quando Katie entrou e lhe disse que  tarde iam jogar golfe com o pai.
Acabara Olivia, acabara o sonho. Fora para esta realidade que voltara para casa. Para a mesma vida que sempre vivera, embora agora tudo fosse to diferente!
CAPTULO 9
A poeira assentou, de certa forma por acaso. O humor de Katie melhorou, deixando de defender o pai como se ele fosse um beb de colo. Viam-no muito, no plano social, 
e, passados os primeiros dias do regresso de Peter a casa, tanto este como Frank andavam mais bem-dispostos. Quanto a Peter, sempre gostara de ter os filhos perto 
dele, embora nesse ano eles passassem cada vez menos tempo com os pais. Mike j tirara a carta e conduzia Paul a toda a parte, o que lhes aliviava a carga mas tambm 
significava que os viam muito mais raramente. At Patrick pouco tempo estava com eles. Tinha uma paixoneta pela vizinha do lado e passava em casa dela a maior parte 
dos seus tempos livres.
-O que  que se passa connosco? Teremos lepra? - queixou-se Peter a Katie uma manh, ao pequeno-almoo. - Nunca vemos os midos. Andam sempre por fora. Estava convencido 
de que passariam o tempo connosco quando vm do internato, em vez de andarem permanentemente por a, com os amigos. -Desolava-o de verdade a ausncia deles. Gostava 
de estar com os filhos, entristecia quando no os tinha consigo. Eram uma espcie de compensao para a camaradagem e bem-estar que h muito deixara de partilhar 
com Katie.
- Vais v-los em Vineyard, no Vero - respondeu ela, calmamente, mais habituada s suas idas e vindas e s suas vidas atribuladas. E na verdade, no apreciava tanto 
a sua presena como Peter. Fora sempre um pai formidvel, mesmo quando os rapazes eram pequenos.
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- Ser que agora tenho de marcar entrevistas com eles? Que inferno, faltam cinco semanas para Agosto.. Detestaria no os encontrar, s l passo um ms. -Brincava, 
mas s em parte; Katie riu-se.
- Todos eles cresceram - argumentou, e com razo.
- Isso significa que eu fui despedido? - Estava deveras alarmado. Com catorze, dezasseis e dezoito anos, os rapazes pouco tinham a ver com os pais.
-Mais ou menos. Podes jogar golfe com o meu pai nos fins-de-semana. - O facto irnico  que ela ainda passava mais tempo com o pai do que os seus filhos com os pais 
deles. Mas no lhe chamou a ateno para o facto, isto , no lhe disse que a reaco dos filhos era muito mais normal do que a dela.
E as coisas continuavam ainda levemente tensas entre Peter e Frank. S nessa semana Frank aprovara um oramento enorme de pesquisa para o Vicotec, levada a cabo 
por equipas duplas, a trabalhar de noite e de dia; mas ainda no concordara em cancelar a apresentao  FDA, embora Peter tivesse cedido, de m vontade, em ir ao 
Congresso por causa da questo dos preos, tendo feito tal s para agradar ao pai de Katie.
No ia por prazer, mas no valia a pena lutar e era prestigioso para a firma ser visto l. S no lhe aprazia ter de defender os altos preos que eles, e outros 
da indstria, propunham desnecessariamente para os produtos. Porm, como Frank acentuava, estavam nos negcios para obter lucros. Preocupavam-se com as doenas da 
humanidade, mas isso no os impedia de querer fazer dinheiro. Peter, contudo, desejava que com o Vicotec fosse diferente, esperava convencer o sogro a lucrar mais 
com o volume de vendas do que com um preo astro-
nmico. E, pelo menos de incio, no haveria concorrncia para o medicamento. De momento, Frank no estava disposto a discutir o assunto. Tudo o que queria era a 
promessa de Peter de que ainda poderiam apront-lo para a FDA, em Setembro. Tornara-se uma obsesso. Queria o Vicotec no mercado o mais depressa possvel, custasse 
o que custasse. Queria fazer histria... e vrios milhes de dlares.
Continuava a insistir em que dispunham de imenso tempo, que lhes bastava um tudo-nada de sorte para "limarem as arestas" antes de Setembro. Peter acabara por desistir 
de discutir com ele e sabia que, se necessrio, adiariam para mais tarde a apresentao  FDA. Havia uma possibilidade nfima de estar tudo pronto na data, mas, 
segundo Suchard, era muito duvidoso. Peter considerava irrealistas os intuitos de Frank.
- O que acha de trazer para c o Suchard? Poderia apressar um pouco as coisas - sugeriu Peter, mas Frank no achou boa ideia; e quando Peter telefonou a Suchard 
para a discutir com ele, foi-lhe respondido que o Dr. Suchard se ausentara. Surpreendeu-o e contrariou-o a ocasio escolhida. Todavia, ningum em Paris sabia para 
onde ele fora passar as frias. Peter nada podia fazer para o localizar.
Em fins de junho, as coisas pareciam ter acalmado e chegara o momento de Frank, Katie e os rapazes partirem para Vineyard. Peter passaria com eles o fim-de-semana 
do 4 de julho, depois regressaria e comearia as suas viagens de comboio. Usaria o estdio que a firma tinha na cidade durante a semana, trabalhando horas a fio 
no escritrio. E nos fins-de-semana, rumaria a Vineyard. De segunda a sexta-feira, queria estar disponvel para as equipas de pesquisa, pronto a ajud-las no que
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quer que quisessem. E gostava de ficar na cidade. Alis, Greenwich era solitrio, sem Katie ou os filhos. Aproveitava a oportunidade para liquidar imensos assuntos 
de trabalho.
Todavia, no s o trabalho tinha em mente, no fim de junho. Vira duas semanas antes o anncio de que Andy Thatcher se candidatava  presidncia. Comeava pelas primrias 
e, se as vencesse, concorreria s eleies nacionais de Novembro do ano seguinte. Reparara, interessado, que durante a primeira conferncia de imprensa de Thatcher, 
e mesmo nas subsequentes, Olivia estava a seu lado. Haviam prometido um ao outro no se telefonarem; ser-lhe-ia pois difcil faz-lo para lhe perguntar o que se 
passava. O sbito e notrio aparecimento junto a Andy Thatcher desconcertava-o; gostaria de saber o que significava dada a sua inteno anterior de o deixar. Mas, 
combinado como fora entre ambos no telefonarem, embora contrariado, Peter ficou-se pelo que via. E decidiu que a regularidade da presena de Olivia ao lado de Andy 
na arena poltica era um sinal bvio de que decidira no se separar dele. Como se sentiria ela? Teria Andy encontrado maneira de a manipular? Sabendo o que sabia 
a seu respeito, e sobre o relacionamento dos dois, parecia-lhe improvvel que o fizesse por afecto. Se estava com ele, era por um sentimento de dever. Na verdade, 
no acreditava que fosse por amor.
Era estranho terem tido de seguir as suas vidas, depois do breve tempo que haviam passado juntos em Frana. No conseguia deixar de se perguntar se para ela, como 
para si prprio, tudo se modificara inesperadamente. Atribua agora maior importncia a coisas que nunca o tinham incomodado. O trabalho parecia-lhe
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mais difcil. Os ensaios do Vicotec continuavam a no resolver nada, e Frank jamais fora to pouco razovel como actualmente. j nem os filhos precisavam dele. Mas, 
pior do que tudo, Peter perdera a sua alegria, a sua vida carecia de excitao, de mistrio, de romance. No encontrava nela nada do que havia partilhado com Olivia, 
em Frana. E o mais penoso era no ter com quem conversar. Nunca se apercebera, no decurso dos anos, at que ponto ele e Katie se tinham afastado, quanto outras 
coisas a ocupavam, a preocupavam... as suas actividades, os seus amigos, na sua maior parte comisses ou amigas. Como se j no existisse lugar para ele, pois o 
nico homem por quem de facto se interessava era o pai.
Estaria a ser demasiado susceptvel, ou pouco racional, ou ainda demasiado cansado, ou abatido pelo desapontamento com o Vicotec? Achava que no. E at em Vineyard, 
no 4 de julho, tudo o irritou. Sentiu-se deslocado entre os amigos, dessincronizado com ela, e mesmo ali pouco via os filhos. Era como se, sem sequer se aperceber, 
tudo tivesse mudado e a sua ligao a Katie se tivesse quebrado. Incrvel... fazer o balano da sua vida. Teria ele, de uma qualquer maneira, forado um arrefecimento 
com a mulher, de forma inconsciente, como que para justificar o que fizera com Olivia no Sul de Frana? Faz-lo, com um casamento  beira da ruptura, seria mais 
facilmente perdovel; com um casamento bem sucedido o remorso era mais pesado.
Deu por si  procura de fotografias de Olivia nos jornais, e no 4 de julho, viu Andy na TV. Estava numa reunio em Cap Cod, mostraram-no junto ao seu enorme veleiro, 
ancorado na doca mesmo atrs dele. Suspeitou de que Olivia andaria por ali, mas, por mais que se esforasse, no a viu.
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- O que  isso, tu a veres TV a meio do dia? -Katie encontrou-o na sala e, ao olh-la de relance, no pde abster-se de reparar na sua ainda esbelta figura. Vestia 
um fato de banho azul-forte e usava a pulseira com o corao pendente que lhe trouxera de Paris. Apesar do cabelo louro e da cara atrevida, no tinha nele o efeito 
poderoso que Olivia exercia de cada vez que a via. Sentiu-se culpado e Katie ficou surpreendida pelo seu ar abatido. - Passa-se alguma coisa? - perguntou, H j 
uns tempos que as coisas andavam difceis entre eles. Peter mostrava-se mais crtico do que habitualmente e mais irritvel, o que no era nada do seu feitio, Andava 
assim desde a ltima viagem  Europa.
- No, est tudo bem. S quis ver as notcias. -Desviou dela o olhar, apontou o comando da -TV com uma expresso vaga.
-Porque no vais l para fora nadar? - sugeriu Katie, sorrindo-lhe. Ali, sentia-se sempre feliz. O lugar era agradvel, a casa de fcil manuteno. E gostava de 
se sentir rodeada pelos filhos e pelos amigos. Fora sempre um stio apetecvel, para ela e para Peter. Embora este ano tudo parecesse ligeiramente diferente. Era 
enorme a presso sobre ele, com os ensaios em curso do Vicotec; Katie esperava que tudo corresse bem e obtivessem os resultados que Peter e o pai queriam. Mas, de 
momento, o marido parecia infeliz e distante.
Faltavam duas semanas para o laboratrio se pronunciar. Depois de desligar o telefone, Peter sentou-se, de olhar perdido no espao. No podia acreditar no que ouvira; 
meteu-se no carro e seguiu para Martha's Vineyard para discutir o caso pessoalmente com o pai de Katie.
Despediu-o? Porqu? Como pde fazer uma coisa
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dessas? - Frank Donovan abatera o mensageiro que lhes trouxera as ms notcias. Ainda no compreendera que, a longo prazo, Paul-Louis os salvara.
-  um idiota. Uma velha histrica, que v fantasmas no escuro. No havia razo nenhuma para o conservar. - Pela primeira vez em dezoito anos, Peter comeava a convencer-se 
de que o sogro estava demente.
-  um dos mais conceituados cientistas de Frana, Frank, e tem quarenta e nove anos. O que est voc a fazer? Podamos t-lo usado aqui, para nos ajudar a apressar 
a nossa pesquisa.
- A nossa pesquisa est a correr lindamente. Ainda ontem a discuti com eles. Dizem-me que tudo estar a postos no Dia do Trabalho. Por essa altura, j no haver 
niquices com o Vicotec... Nem "falhas", nem fantasmas, nem perigo. - Mas Peter no o acreditava.
- Pode prov-lo? Tem a certeza? O Paul-Louis disse que podia levar um ano.
-A deciso  minha. Ele no sabia o que estava a dizer. - Peter, aterrado pelo acto de Frank, serviu-se dos registos da firma para localizar Paul-Louis. Na pri
meira noite do seu regresso a Nova Iorque telefonou-lhe, para lhe expressar quanto lamentava o sucedido e para trocar impresses com ele sobre o Vicotec e os seus 
progressos.
- Vocs vo matar algum - afirmou Paul-Louis, no seu ingls carregado de sotaque. Mas sensibilizara-o o telefonema, sempre tivera a maior considerao por Peter. 
De incio, disseram-lhe que a sua demisso fora ideia de Peter, mas mais tarde veio a saber que a ordem viera de facto directamente do administrador. - Ainda no 
podem arriscar-se - insistiu. - Tem de passar por todos os testes, e isso leva meses, mesmo com equipas duplas a trabalhar dia e noite. No os deixe fazer isso.
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- No deixo. Prometo-lhe. No houve nada no seu trabalho que eu no apreciasse. Nem sabe quanto lamento o rumo dos acontecimentos. - E as suas palavras eram o puro 
reflexo dos seus sentimentos.
- No faz mal. - O francs encolheu os ombros, com um sorriso filosfico. j recebera uma oferta de uma importante firma farmacutica alem que possua uma enorme 
fbrica em Frana, mas precisava de algum tempo para ponderar a sua deciso. - Eu compreendo. Desejo-lhe boa sorte nesta histria. Poderia vir a ser um produto maravilhoso.
Os dois homens conversaram mais um bocado, Paul-Louis prometeu manter contacto e na semana que se seguiu Peter vigiou com ainda maior cuidado os resultados que iam 
obtendo. Se Paul-Louis estava certo, havia muito trabalho pela frente at poderem dar "luz verde" ao produto com a conscincia tranquila.
Em fins de julho, os progressos pareciam animadores. E Peter partiu encorajado para as suas frias em Vineyard. O departamento de pesquisas prometera enviar-lhe 
todos os dias, por fax, os relatrios do escritrio. Do que resultou ser-lhe mais difcil descontrair-se do que era hbito. Dir-se-ia ligado ao fax pelo cordo umbilical, 
tanto por causa do Vicotec como por questes burocrticas.
-Este ano no ests a aproveitar nada - lamentou-o a mulher, mas, para alm dessa verificao, pouca ateno lhe prestou. Tinha montes de amigos a ver, jardinagem 
a fazer e perdia imenso tempo com a casa do pai, ajudando-o a renov-la, a decidir se a sua cozinha de Vero deveria ou no ser substituda. Secundou-o a entreter 
os amigos e organizou vrios jantares para as visitas dele, jantares a que ela e Peter compareciam. Mas
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Peter tambm se queixava disso. Dizia-lhe que nunca estavam sozinhos e que, cada vez que a via, estava apressadssima para ir encontrar-se com o pai.
O que  que se passa contigo? Sinto-me uma bola de pingue-pongue, entre vocs dois - protestou, contrariada. Peter sempre aceitara to bem as coisas que fazia com 
o pai, e agora no parava de se queixar. E com o pai nada ia melhor, continuava furioso com Peter por causa da posio que este assumira relativamente ao Vicotec.
Era ntida a tenso ente os dois homens e, em meados de Agosto, Peter decidiu voltar para a cidade, alegando como desculpa o trabalho. Tinha de o fazer. No percebia 
o que se passava, talvez a culpa fosse sua, mas tivera vrias pegas com os rapazes, achava anormalmente difcil lidar com Katie e no suportava mais idas a jantares 
em casa de Frank. Ainda por cima, o tempo estava pssimo, a semana fora de trovoadas e havia a ameaa de um ciclone proveniente das Bermudas. No terceiro dia, mandou 
todos para o cinema, fixou firmemente as persianas e amarrou a moblia da varanda. Mais tarde, almoou em frente do televisor a ver um jogo de futebol e, no intervalo, 
mudou para o noticirio, para ouvir o que diziam sobre o ciclone Angus. Ficou instantaneamente assustado ao ver a foto de um enorme veleiro e logo a seguir uma outra 
do senador Andy Thatcher, em pose. A notcia ia j a meio e o comentador falava da ... tragdia ocorrida na noite anterior, j tarde. At agora, os corpos no foram 
recuperados. O senador escusou-se a fazer comentrios>
- Oh, meu Deus! - exclamou em voz alta, e no mesmo momento estava de p, a largar a sanduche sobre a mesa atrs de si. Tinha de saber o que se passava
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T
i
com ela. Estava morta ou viva, era o seu um dos corpos que procuravam?  beira das lgrimas, saltava de canal em canal.
- Ol, pai. Quem est a ganhar? - perguntou Mike ao entrar de rompante na sala, de regresso do cinema. Peter no o ouvira chegar, olhou-o como se visse um fantasma.
- Ningum ganhou... no houve golos... no sei deixa... - Voltou a concentrar-se na TV, enquanto Mike saa; mas no encontrava o que queria. At que, no Canal Dois, 
pde ouvir a notcia quase desde o princpio. Tinham sido apanhados por uma tempestade em guas traioeiras, mesmo ao largo de Gloucester, no veleiro de cento e 
dez ps de Andy. E a despeito do tamanho e da alegada estabilidade do barco, este embateu numas rochas e afundou-se em pouco mais de dez minutos. Havia cerca de 
uma dzia de pessoas a bordo. O barco era computorizado e fora o prprio Thatcher quem o manobrara, apenas com a ajuda de uni nico homem de convs e de alguns amigos. 
Por enquanto, faltavam vrios passageiros, mas o senador sobrevivera. Estavam a bordo a sua mulher e o irmo desta, o Jovem. congressista de Bston, Edwin Douglas. 
Tragicamente, a esposa do congressista e os seus dois filhos pequenos haviam sido projectados borda fora. O corpo dela fora encontrado ao romper da manh, mas os 
das crianas ainda no. E ento, numa simples frase, o comentador acrescentou que a esposa do senador, Olvia Douglas Thatcher, quase se afogara. Continuava em estado 
critico no Hospital Adison Gilbert e fora salva na noite anterior pela Guarda Costeira. Haviam-na encontrado inconsciente, mas mantivera-se a flutuar no meio da 
tempestade graas ao seu colete salva-vidas.
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- Oh, meu Deus... oh, meu Deus... - Olivia. E com o medo que tinha do mar! Mal podia imaginar o que lhe sucedera, enquanto pensava freneticamente em correr de imediato 
para junto dela. Mas como o explicaria? O que iriam dizer nos noticirios? Um homem de negcios annimo apareceu no hospital, desesperado por ver Mrs. Thatcher, 
e foi posto a andar. Meteram-no num colete-de-foras e devolveram-no  esposa, para recuperar a razo.
... No fazia a mnima ideia de como chegar at ela, ou de como v-la sem causar problemas a nenhum dos dois. Voltou a sentar-se, de olhos fixos no televisor, e 
concluiu que de momento, enquanto Olivia estivesse em estado grave, no havia provavelmente maneira alguma de o conseguir. Outro canal informou que Olivia Thatcher 
ainda no recuperara os sentidos e constava que se encontrava em coma profundo; passaram todas as imagens dela que possuam e enumeraram tragdia por tragdia, tal 
como tinham feito em Paris. Havia tambm reprteres agrupados no exterior da casa dos seus pais, em Bston, e passaram uns minutos de filmagem do irmo, atingido 
pela tragdia, ao sair do hospital logo aps ter perdido a mulher e os filhos. Era indescritvel a dor que revelava, e ao olh-lo Peter sentiu lgrimas rolarem-lhe 
pela face.
-Tens alguma coisa, pai? - Mike voltara e ficou preocupado ao ver o pai.
-No, eu... eu estou bem... foi uma coisa que aconteceu a uns amigos meus, terrvel. Uma tempestade ao largo de Cape Cod, a noite passada, e o barco do senador Thatcher 
afundou-se. Parece que morreram vrias pessoas e outras ficaram feridas... - E ela continuava em coma. Porque fora acontecer-lhe semelhante coisa? E se morresse? 
Nem queria pensar nisso!
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- Conhece-los? - Ao atravessar a sala a caminho da cozinha, Katie mostrou-se surpreendida. - O jornal da manh traz qualquer coisa sobre o acidente.
- Conheci-os em Paris - respondeu, temendo acrescentar mais, no fosse ela perceber tudo pelo tom da sua voz ou, pior ainda, se o visse chorar.
-Dizem que ela  muito estranha. Segundo consta, ele vai concorrer  presidncia - comentou Katie de passagem, e Peter no respondeu. Precipitara-se escada acima 
o mais rapidamente que pudera, indo ao quarto telefonar para o hospital.
Contudo, no ficou a saber nada de novo pelas enfermeiras do Addison Gilbert. Identificou-se como um amigo ntimo da famlia e elas confirmaram-lhe exactamente o 
que ouvira na TV. Estava na UCI e no recuperara os sentidos desde que fora salva. E quanto tempo poderia continuar assim? O seu crebro seria afectado, morreria, 
tornaria a v-la? Quanto mais pensava, mais vontade tinha de estar ao p dela. Mas tudo o que pde fazer foi estender-se na cama e recordar.
- Ests bem? - Katie viera ao andar de cima buscar qualquer coisa e estranhara v-lo deitado. H uns dias que o seu comportamento era esquisito, no que lhe dizia 
respeito, a ela, fora na verdade esquisito o Vero inteiro. Mas o do pai tambm. Pelo que via, o Vicotec era desastroso para ambos, chegava a lamentar que tivessem 
decidido fabric-lo. No valia o preo que cada um deles estava a pagar. Baixou ento os olhos para Peter e pareceu-lhe que os dele estavam molhados. No fazia a 
menor ideia do que sucedera. - Sentes-te bem? - insistiu, preocupada. Ps-lhe a mo na testa. Febre no tinha.
-Estou bem - respondeu Peter, uma vez mais
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vergado ao sentimento de culpa, mas to desesperadamente preocupado com Olivia que mal raciocinava. Mesmo que nunca mais a visse, sentia que o mundo seria um lugar 
diferente sem o seu rosto delicado, os seus olhos que sempre lhe lembravam veludo castanho. Quereria ir ter com ela e abri-los, e beij-la. Quereria ficar a seu 
lado. E, quando voltou a ver Andy na TV, apeteceu-lhe estrangul-lo por no estar com ela. Andy pormenorizava o que se passara, a rapidez com que a tempestade se 
aproximara, a tragdia de no terem podido salvar as crianas. E de certo modo, sem que o explicitasse, manobrou as palavras para que se deduzisse que, a despeito 
da perda de vidas, e do perigo que a sua mulher corria, ele era um heri.
Nessa noite, Peter manteve-se ainda mais calado do que habitualmente. O ciclone prometido passara ao lado; voltou a ligar para o hospital. Nada se alterara. Para 
ele, e para a famlia Douglas que aguardava no hospital, foi um fim-de-semana de pesadelo. No domingo  noite, j tarde, depois de Katie ter ido para a cama, telefonou 
uma vez mais. Era a quarta nesse dia, e quase se lhe dobraram os joelhos ao ouvir da enfermeira as palavras pelas quais tanto rezara.
-Voltou a si - dizia ela, enquanto a voz de Peter se embargava de lgrimas. - Vai ficar boa - acrescentou, gentilmente. Quando desligou, Peter encostou a cara s 
mos e chorou. Estava sozinho, podia finalmente desabafar. Fora incapaz de pensar noutra coisa nos dois dias anteriores, at mesmo de lhe deixar uma mensagem; mas 
consagrara-lhe todos os seus pensamentos e preces. A prpria Katie surpreendera-se ao v-lo ir  igreja, no domingo de manh.
- No sei o que lhe deu - disse ao pai nessa noi
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te, ao telefone. -juro. E todo este disparate  por causa do Vicotec. Odeio essa porcaria. Est a p-lo doente, e a mim, maluca.
- Ele h-de ultrapassar isso - sossegou-a o pai. -Todos ficaremos mais aliviados quando estiver no mercado. - Mas Katie no estava assim to certa. As lutas deles 
por causa do medicamento eram-lhe demasiado dolorosas.
Na manh seguinte, Peter telefonou para o hospital, mas no o deixaram falar com Olivia. Continuava a dar nomes falsos, desta vez disse que era um primo de Bston. 
Nem sequer poderia enviar-lhe uma mensagem codificada, porque no tinha maneira de saber quem iria intercept-la. Mas ela estava viva, e a melhorar. O marido salientou 
numa conferncia de imprensa a sorte que tinham tido, e que ela voltaria para casa dentro de poucos dias. E partiu para a costa oeste nessa mesma manh, mais tarde. 
Estava em campanha e, agora, com a mulher livre de perigo.
Voltou a tempo de assistir aos funerais da mulher e dos filhos de Edwin. Peter ficou pasmado pela enorme cobertura da TV e satisfeito por ver que, felizmente, Olivia 
no estava presente. Conhecia-a o suficiente para saber que no aguentaria. Ter-lhe-ia recordado de mais o seu prprio filho. Mas estavam l os pais dela e Edwin, 
manifestamente acabrunhado, e, claro, Andy, com um brao sobre os ombros do irmo de Olivia. A famlia poltica completa, e todos os jornais e canais de televiso 
possveis e imaginrios cobrindo o acontecimento a uma distncia discreta.
Olivia seguia tudo no televisor da UCI e chorava convulsivamente. As enfermeiras no queriam que ela assistisse, mas ela insistira. Eram a sua famlia, no podia
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estar com eles; quando a seguir viu uma entrevista de Andy, em que este sublinhava a coragem demonstrada por todos e a sua heroicidade, apeteceu-lhe mat-lo.
Depois de tudo acabado, o marido nem se deu ao trabalho de lhe telefonar para lhe dizer como estava Edwin! Quando ligara para casa, a voz do pai parecera-lhe entaramelada, 
dizendo que a me tivera de tomar um sedativo. O momento era terrvel para todos, e Olivia lamentava no ter podido dar a sua vida em troca da deles. As crianas 
eram to pequenas, a cunhada estava outra vez grvida, embora ningum o soubesse. E ela no tinha, na sua opinio, qualquer razo para viver. A sua vida era um vazio, 
a vida de uma marioneta manobrada por um egocntrico. No teria tido importncia para nenhum deles se morresse, excepto talvez para os pais. Pensou ento em Peter 
e nas horas que haviam partilhado. Ansiava tanto por v-lo! Mas, tal como outras pessoas que amara, fazia agora parte do seu passado, no podia inclu-lo no seu 
presente ou no seu futuro.
Deixou-se ficar estendida na cama, depois de desligado o televisor, e chorou, a pensar na futilidade da vida. O seu sobrinho e a sua sobrinha tinham morrido, a me 
deles, o filho dela... Tom, o irmo de Andy. Tantas pessoas boas. Era incompreensvel a razo de uns serem poupados e outros no.
- Como se sente, Mistress Thatcher? - perguntou-lhe amavelmente uma das enfermeiras, ao v-la chorar. Era bvia a sua infelicidade e, com toda a famlia em Bston 
para os funerais, ningum viera v-la. A enfermeira estava preocupada com ela. Ento, lembrou-se: - Tem telefonado uma pessoa a saber de si, vezes sem conta por 
dia, desde que c chegou. Um homem. Diz que  um velho amigo. - Sorriu. - E esta
manh disse que era seu primo. Mas tenho a certeza de que era a mesma voz. Nunca deixa o nome, e parece preocupadssimo consigo. - Sem um momento de hesitao, Olivia 
soube que s podia ser Peter. Quem mais telefonaria e porque no diria o nome? Tinha de ser ele; levantou os olhos repletos de tristeza para a enfermeira, de p 
a seu lado.
-- Da prxima vez, posso falar com ele? - Dir-se-ia uma criana maltratada. Cobriam-na contuses horrveis, nos stios onde fora apanhada pelos destroos que se 
haviam desprendido do veleiro. Fora uma horrenda tragdia; no duvidava de que nunca mais se aproximaria do oceano.
-Tentarei ligar-lhe, se ele voltar a telefonar -tranquilizou-a a enfermeira, e saiu. Quando na manh seguinte Peter telefonou, ela estava a dormir. E mais tarde, 
era outra a enfermeira de servio.
A partir da, Olivia, estendida na sua cama, pensava nele incessantemente: como estaria, o que teria acontecido com o Vicotec, e com a apresentao  FDA. No tinha 
maneira alguma de obter notcias, haviam combinado no contactar um com o outro depois de partirem de Paris. Mas, agora, que difcil se tornava! Especialmente ali, 
no hospital. Tinha tanto em que pensar, havia na sua vida tantas coisas que abominava. Prometera a Andy apoi-lo, mas cada passo dado no cumprimento dessa promessa 
lhe custava os olhos da cara. Ocorreu-lhe ento, subitamente, quanto a vida era breve e imprevisvel, e como era preciosa. Vendera a alma pelos prximos cinco anos, 
que agora se lhe afiguravam uma eternidade. A sua nica esperana residia em que ele no vencesse as eleies. Sentia-se incapaz de sobreviver ao que a esperava. 
E a esposa de um presidente no po-
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dia simplesmente desaparecer. Durante os prximos cinco anos, tinha de aguentar.
Passou mais quatro dias na UCI, at ter os pulmes limpos e poderem mud-la para um quarto; nessa altura, Andy deslocou-se da Virgnia para a visitar. Tinha l uns 
trabalhos em curso, mas mal chegou ao hospital surgiram reprteres por todos os cantos, e uma equipa fotogrfica; um deles at se infiltrou, para a ver. De imediato, 
Olivia escondeu-se debaixo dos lenis e uma enfermeira escoltou-os para fora do andar, mas Andy atraa a imprensa como o sangue atrai os crocodilos, e Olivia era 
o pequeno peixe de que queriam alimentar-se.
Andy teve uma grande ideia. Convocou uma conferencia de imprensa para ela no hospital, no dia seguinte, mesmo  sada do quarto. Viria um cabeleireiro pente-la 
e um esteticista. Tudo estava combinado, ela falaria aos media numa cadeira de rodas. Quando, porm, lho comunicou, o corao de Olivia acelerou-se, o seu estmago 
revolveu-se.
-Por enquanto, no quero fazer nada disso.
Recordava-lhe a morte de Alex, a perseguio incessante de que fora alvo por parte da imprensa. Agora, queriam saber se vira morrer a sobrinha e o sobrinho, ou a 
cunhada, como se sentia por eles terem morrido e ela escapado, como o explicava... s de pensar nisso, apertava-se-lhe a garganta; abanou a cabea, em pnico. -No 
posso, Andy... desculpa... - Virou-lhe as costas, pensou se Peter teria voltado a telefonar. No vira a tal enfermeira desde que sara da UCI; alis, ningum falara 
com ela. E no podia perguntar por ele, um homem sem nome que passara dias a telefonar. No podia fazer
que quer que fosse que chamasse a ateno.
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Ouve, Olivia, tu tens de falar  imprensa, seno eles vo pensar que escondemos alguma coisa. Estiveste em coma quatro dias. Com certeza no queres que o pas pense 
que sofreste qualquer leso cerebral, ou coisa semelhante. - Falava-lhe como se ela estivesse bem, e Olivia s tinha na cabea a dolorosssima conversa que tivera 
com o irmo nessa manh. Ele metia d e, depois de tudo o que passara com Alex, era-lhe fcil imaginar como se sentia. O irmo perdera toda a sua famlia, e agora 
Andy queria que ela falasse  imprensa numa cadeira de rodas.
-No me interessa o que pensam. No fao isso - repetiu, com firmeza.
- Tens de o fazer - rosnou-lhe ele. - Assinmos um contrato.
- Metes-me nojo.
Virou-lhe as costas e, no dia seguinte, quando eles chegaram, recusou-se a receb-los. No recebeu o cabeleireiro, nem o esteticista e nunca saiu do quarto na cadeira 
de rodas. Os media sentiram-se alvo de um embuste e Andy convocou uma conferncia de imprensa no corredor, sem ela. Explicou o trauma por que a mulher passara, o 
seu sentimento de culpa por ser um dos poucos sobreviventes. Disse que tambm ele o sofria, mas era difcil acreditar que alguma coisa fizesse sofrer Andy Thatcher, 
excepto um desejo avassalador pela Casa Branca, a qualquer preo. No ia, porm, deixar escapar a oportunidade e, no dia seguinte, acompanhou ele prprio trs reprteres 
ao quarto da mulher. Ao v-los, Olivia mostrou-se pateticamente frgil e desesperada. Desatou a chorar, e uma enfermeira e dois ajudantes obrigaram-nos a deix-la 
em paz. Mesmo assim, arranjaram maneira de lhe tirar meia dzia de fotografias antes
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de abandonarem o quarto, juntando-se todos no corredor, onde conversaram com Andy. Quando este voltou, depois de os reprteres terem sado do hospital, Olivia saltou 
da cama, decidida a aniquil-lo com a sua vingana.
- Como pudeste fazer-me isto? Toda a famlia do Edwin acabou de morrer e eu ainda nem sequer sa do hospital. - Soluava, enquanto lhe socava o peito com os punhos 
cerrados, dominada por um sentimento de violao. Mas ele precisara de lhes provar que ela estava viva e bem viva, que no cedera  tenso, como comeavam a suspeitar, 
por lhes parecer que se escondia deles. O que ela tentava era preservar a sua dignidade, que a Andy deixava totalmente indiferente. O que ele protegia era a sua 
sobrevivncia poltica.
Nessa noite, Peter viu as fotografias no noticirio e o seu corao sangrou por ela. Era patente o seu medo, a sua fragilidade, ali, deitada na cama; e chorava. 
O seu olhar de abandono atingiu-o em cheio. Vestia uma camisa de noite do hospital, saam-lhe tubos intravenosos de ambos os braos e um dos reprteres dizia que 
continuava a sofrer de pneumonia. O pouco que dela se vislumbrava era dramtico, originaria sem dvida uma onda de simpatia, tal como o marido pretendia. Desligado 
o aparelho, Peter s pensava nela.
Olivia, porm, surpreendeu Andy quando no hospital a informaram de que teria alta no fim da semana: participou-lhe que no ia para casa com ele. j conversara com 
a me sobre o assunto. Ia para casa dos pais. Precisavam dela. E ela ia para casa dos Douglas, em Bston.
- Isso  ridculo, Olivia - queixou-se Andy quando ela lho comunicou pelo telefone. - No s uma criana, o teu lugar  na Virgnia, a meu lado.
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-Porqu? - perguntou, brusca. - Para poderes levar-me reprteres ao quarto todas as manhs? A minha famlia passou por uma provao horrvel e eu quero estar com 
eles. - No o culpou pelo acidente. De facto, no fora culpa sua o ciclone, mas sim a forma por que tudo fora manipulado, sem qualquer pingo de dignidade ou compaixo, 
ou at mesmo de decncia; isso nunca lhe perdoaria. Usara-os a todos. E voltou a faz-lo, pois deparou com uma horda de jornalistas  sua espera nos corredores, 
quando deixou o Addison Gilbert. S Andy conhecia o dia da sua sada, s ele poderia t-los advertido. E tambm apareceram em casa dos pais dela, o que levou o pai 
ao ataque de fria.
- Queremos privacidade, aqui - explicou e, sendo ele o governador, deram-lhe ouvidos. Concedeu algumas entrevistas, poucas, mas declarou que nem a esposa, nem a 
filha, nem evidentemente o filho, se encontravam de momento em condies de conversar com a imprensa. - Tenho a certeza de que compreendem - rematou com delicadeza, 
posando para uma nica fotografia. E acrescentou que no havia outras razes para a presena da Mrs. Thatcher em sua casa para alm do seu desejo de estar junto 
da me, e do irmo, que tambm estava com eles. Edwin Douglas no se sentia ainda com coragem para ficar na sua casa, sozinho com o seu drama.
- Houve um distanciamento entre os Thatcher depois do acidente? - A pergunta, lanada por um dos jornalistas, surpreendeu-o. Nem tal coisa lhe ocorrera e,  noite, 
repetiu-a  mulher, que talvez soubesse algo que ele ignorava.
- Acho que no. - Janet Douglas franziu o sobrolho. - A Olivia no disse nada. - Todavia, nenhum
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deles ignorava que a filha calava muitas coisas. Atravessara grandes crises nos ltimos anos e gostava de tomar ela prpria as suas decises.
Andy apressou-se a queixar-se; comeavam a ouvir-se uns zunzuns. Disse-lhe que, se no voltasse depressa para casa, os boatos no tardariam.
- Volto para casa quando me sentir suficientemente bem para sair daqui - foi a fria resposta que obteve.
- E quando ser isso? - Regressava para a Califrnia dentro de duas semanas e queria que ela o acompanhasse.
Na verdade, Olivia planeava voltar para a Virgnia da a poucos dias, mas o facto de ele a pressionar levou-a a ficar mais tempo; passada uma semana de permanncia, 
a me questionou-a finalmente sobre o assunto.
- O que se passa? - perguntou-lhe, com gentileza, enquanto Olivia se sentava no quarto dela. A me tinha enxaquecas com regularidade e estava precisamente a recompor-se 
de uma, com um saco de gelo na cabea. - Corre tudo bem entre ti e o Andy?
- Isso depende da sua definio de "tudo, bem" -respondeu Olivia, impassvel. - Nada de pior do que o costume. Ele est danado por eu no permitir que a imprensa 
d cabo de mim, nem reconstituir para ela todo o drama, na TV. Mas d-lhe um dia ou dois, me. Pode crer qu ele vai dar a volta por cima.
-A poltica tem efeitos estranhos nos homens -comentou a me, sensatamente. Sabia melhor do que ningum como era, e quanto lhe custava. At a sua recente mastectomia 
fora anunciada na TV, com diagramas e uma entrevista com o mdico. Ela era a esposa do governador, conhecia aquilo com que devia contar. Vivera exposta ao pblico 
a maior parte da sua vida de
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adulta, e quanto isso a deprimira! Via agora que estavam tambm a deprimir a sua filha. Um preo caro pelo sucesso, ou quem sabe insucesso, em eleies.
Olivia encarou-a ento, perguntando a si prpria o que diria a me se lhe contasse a verdade. H uns dias que pensava no caso.
- Vou separar-me dele, me. No posso continuar. Tentei deix-lo em junho, mas ele ansiava to intensamente pela presidncia que concordei em fazer campanha a seu 
lado e ficar durante os primeiros quatro anos, se ele ganhar. - Infeliz, olhou para a me. A grosseria do que fizera soava pessimamente, ao ser contada. -Ele paga-me 
um milho de dlares por ano por este favor. E o mais engraado  que isso nem me interessa. Soou-me a jogo a dinheiro, quando mo props. Fi-lo, porque em tempos 
o amei. Mas acho que no o amei o bastante, mesmo no princpio. Agora, tenho a certeza de que no vou cumprir o que prometi. - No devia tanto a ningum, nem sequer 
a Andy.
- Ento no cumpras - aconselhou-a Janet Douglas abruptamente. - Mesmo um milho de dlares no compensa. Nem dez milhes. Nenhuma quantia vale a runa da tua vida. 
Foge enquanto podes, Olivia. Eu devia t-lo feito h anos. Agora,  tarde de mais. levou-me a beber, arrumou a minha sade, destruiu o nosso casamento, impediu-me 
de fazer tudo aquilo que queria fazer, magoou a nossa famlia e tornou difcil a vida de todos ns. Olivia, se no  o que queres, se por ti no o desejas ardentemente, 
foge j, enquanto ainda te  possvel. Por favor, querida. - Tinha os olhos cheios de lgrimas ao apertar a mo da filha. - Sou eu quem to pede. E no importa o 
que o teu pai disser, estou cem por cento contigo. - Fitou-a ento com
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maior seriedade. Uma coisa era abandonar a poltica, outra abandonar um casamento que talvez valesse a pena salvar. - E ele? E o Andy?
-H muito que tudo acabou, me.
Janet abanou a cabea. No era, na verdade, surpresa para ela.
-j me parecera. Mas no tinha a certeza. - Ento sorriu de mansinho. - O teu pai vai pensar que lhe menti, no outro dia. Perguntou se estava tudo bem contigo, eu 
respondi-lhe que sim. Mas, nessa altura, eu ainda no tinha a certeza.
- Obrigada, me. - Olivia abraou-a. - Adoro-a. - A me acabara de oferecer-lhe a maior de todas as prendas, a sua bno.
- Tambm eu te adoro, querida - retribuiu, apertando-a contra si. - Faz o que tiveres a fazer e no te preocupes com o que o teu pai disser. H-de passar-lhe. Ele 
e o Andy protestaro durante algum tempo, mas vo safar-se bem. E o Andy ainda  novo. Pode voltar a casar-se e candidatar-se  eleio seguinte. No  o fim dele 
em Washington. No deixes que te amedronte, no voltes atrs, Olivia, a menos que o queiras. -O que na realidade desejava para a filha era v-la longe dali. Queria 
a liberdade dela.
- Eu no quero voltar atrs, me. Nunca. Devia t-lo deixado h anos... antes de o Alex nascer, ou pelo menos a seguir  sua morte.
- Tu s jovem, construirs o teu prprio futuro -comentou, melanclica. Ela nunca o fizera. Desistira da sua vida, da sua carreira, dos seus amigos, dos seus sonhos. 
Aplicara cada grama de energia na carreira poltica do marido, e queria que fosse diferente com a filha -O que vais fazer agora?
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- Quero escrever - sorriu, envergonhada, e a me riu-se.
- Fecha-se um crculo, no ? Ento, escreve, e no deixes que ningum te impea.
Sentaram-se e conversaram a tarde inteira, depois lancharam juntas na cozinha. Olivia esteve quase a falar-lhe de Peter, mas acabou por no o fazer. Disse-lhe que 
provavelmente voltaria para Frana, para a aldeia de pescadores de que tanto gostava. Era um ptimo lugar para escrever, para se esconder.
- No podes esconder-te para sempre - advertiu a me.
-Porque no? - Sorriu tristemente. Nada mais lhe restava agora seno desaparecer, desta vez legitimamente. No queria mais contactos com a imprensa ou com o pblico.
 noite, o irmo juntou-se-lhes para o jantar. Estava dorido, abatido, mas Olivia f-lo rir uma ou duas vezes; e ele mantinha-se diariamente a par do que se passava 
em Washington, por telefone ou por fax. Para Olivia, era incrvel Edwin poder pensar em semelhantes coisas nesse momento; porm, mesmo perante to imensa perda, 
parecia-se muitssimo com o pai. Era bvia a sua obsesso pela poltica, muito semelhante  do pai e do marido. Mais tarde, nessa mesma noite, telefonou a Andy e 
comunicou-lhe que tomara uma deciso importante.
- No vou voltar - declarou, pura e simplesmente.
- No recomeces. - E desta vez parecia aborrecido. Esqueceste o nosso contrato?
No h nele nada que me diga que tenho de ficar contigo ou seguir-te para a presidncia. Diz apenas que, se o fizer, me pagars um milho de dlares por ano. Pois 
bem, estou a poupar-te uma mo-cheia de dinheiro.
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- No podes fazer uma coisa dessas! - Nunca o vira to zangado. Olivia estava a interferir na nica coisa que queria.
-Posso, sim. E vou faz-lo. Parto para a Europa amanh de manh.
Na verdade, ficaria ainda uns dias, mas quis que ele no duvidasse de que se acabara tudo. Mesmo assim, Andy apareceu em Bston no dia seguinte e, tal como a me 
previra, o pai interveio na briga deles. Olivia, porm, tinha trinta e quatro anos, pensava por si prpria, era uma mulher adulta. E consciente de que nada a abalaria.
- Sabes ao que ests a renunciar? - gritou-lhe o pai do outro lado da sala, enquanto Andy o olhava, grato. A Olivia, pareciam uma ral de linchamento.
- Sei - respondeu calmamente, olhando-o nos olhos. - Estou a renunciar a mgoas e a mentiras. Convivi com ambas bastante tempo, penso que me vou arranjar lindamente 
sem elas. Ah, esqueci-me, e explorao.
-No sejas to presumida - replicou o pai, desgostoso. Era um poltico da velha escola e no to arrogante como Andy. -  uma vida grandiosa, uma grande oportunidade, 
e tu sabe-lo.
- Para vocs, talvez - respondeu Olivia, olhando o pai com lstima. - Para o resto da famlia, uma vida de solido e desencanto, de promessas de campanha no cumpridas. 
Eu desejo uma vida autntica, com um homem autntico, ou sozinha se tiver de ser assim. j nem me interessa. S quero ver-me o mais longe possvel da poltica, nunca 
mais ouvir tal palavra. - Lanou  me um olhar de soslaio; viu que sorria.
-s maluca - vociferou-lhe o pai.
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Quando nessa noite se foi embora, Andy ameaou-a, jurando-lhe que ela iria pagar pelo que lhe fizera. E no estava a mentir. No dia em que partiu para Frana, trs 
dias mais tarde, apareceu nos jornais de Bston uma histria que ela compreendeu de imediato que s ele a podia ter divulgado. Lia-se que aps o seu recente e trgico 
acidente, no qual lhe tinham morrido trs membros da famlia, Olivia, sofrera um grave choque traumtico e acabava de dar entrada num hospital com um esgotamento 
nervoso. O marido estava preocupadssimo com ela e, embora sem o mencionar abertamente, dava-se a entender uma desavena motivada pelo seu estado mental. Toda a 
pea predispunha os leitores a manifestarem simpatia por Andy, a braos com o problema psquico da mulher. Apagava-se-lhe o rasto na perfeio. Se estava maluca, 
compreendia-se que se desfizesse dela. Primeiro round para Andy... ou seria o segundo... ou o dcimo ... ? Fora ele que a pusera KO, ou ela que muito simplesmente, 
apanhando-o distrado, fugira e salvara a vida? j no sabia muito bem.
Peter tambm leu a histria e suspeitou que fosse arquitectada por Andy. No lhe parecia de Olivia, apesar do pouco tempo que a conhecera. Mas desta vez no podia 
certificar-se, visto que no mencionavam em que hospital se encontrava. No havia maneira de saber a verdade, o que o deixou louco de preocupao.
A me acompanhou-a ao aeroporto numa sexta-feira  tarde, poucos dias depois de ela ter dito a Andy que o deixava. Estava-se nos fins de Agosto; Peter e a famlia 
em Vineyard. Janet Douglas meteu a filha no avio e deixou-se ficar at o aparelho descolar. Quis ter a certeza de que ela estava a salvo, que partira mesmo. Olivia 
escapara a um destino pior do que a morte, na
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opinio da me, que ficou aliviada ao ver o avio sobrevo-la lentamente, na sua rota para Paris.
- Coragem, Olivia - murmurou, esperanada em no a ver nos Estados Unidos por muito tempo. Ali, esperava-a muita dor, muitas recordaes, demasiada corrupo, homens 
egostas prontos a feri-la. Foi uma felicidade para a me saber que regressava a Frana. E quando o avio deixou de ser visvel, Janet acenou aos seus guarda-costas 
e, com um suspiro, saiu lentamente do aeroporto. Agora, Olivia estava salva.
CAPTULO 10
Conforme ia decorrendo o ms de Agosto e as informaes continuavam a surgir sobre as pesquisas do Vicotec, a tenso entre Peter e o sogro aumentava. No fim-de-semana 
do Dia do Trabalho era quase palpvel; at os rapazes comeavam a senti-la.
- O que se passa entre o av e o pai? - perguntou Paul no sbado  tarde, e Katie franziu-lhe o sobrolho ao responder.
- O teu pai est a criar dificuldades. - A sua voz era calma, mas at para o filho era ntido que ela acusava Peter do clima existente.
- Tiveram uma zanga, ou coisa do gnero? - Tinha idade suficiente para compreender, e a me era habitualmente bastante franca com ele, embora "zangas" no abundassem 
na famlia. Mas sabia que o pai e o av s vezes discordavam nalguns pontos.
- Esto a trabalhar num novo produto - foi tudo o que a me lhe explicou, mas era muito mais do que isso e ela no o ignorava. Pedira repetidamente a Peter que no 
complicasse a vida. O pai ocupara-se do caso o Vero inteiro e, na sua idade, no era bom para ele. Embora tivesse de admitir que Frank tinha melhor aspecto do que 
nunca. Aos setenta, ainda jogava tnis uma hora por dia e nadava dois mil metros todas as manhs.
- Ah! - A explicao dada satisfez Paul. - Ento, aposto que no  muito grave. - Varreu o multimilionrio problema do Vicotec com a determinao fcil dos seus 
dezasseis anos.
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Nessa noite foram todos a uma grande festa de celebrao do fim do Vero. Estaria l o grupo inteiro de amigos e, da a dois dias, cada um teria partido. Patrick 
e Paul regressavam ao liceu, Milce ia para Princeton. E, na segunda-feira, toda a famlia regressava para Greenwich.
Katie andava atarefadssima, tinha de fechar a sua casa e a do pai, em Vineyard. Separava alguns dos seus vestidos quando Peter passou. Parou, a observ-la. O Vero 
no fora grande coisa para ele. O duplo golpe de quase perder o Vicotec e de ter que desistir de Olivia pouco depois de a ter conhecido era uma agonia que arrastara 
durante todo o ms de Agosto. As preocupaes com o Vicotec abalavam as suas convices, e a presso constante de Frank no ajudara, nem o constante envolvimento 
clandestino de Katie, numa coisa em que em caso algum deveria ter-se metido. Envolvia-se demasiado no que se passava entre eles, defendia demasiado o pai. E era 
inegvel que a estada de Peter em Frana modificara o ambiente. No quisera que isso acontecesse. Regressara absolutamente decidido a retroceder e a recomear do 
ponto de onde partira, mas o facto  que tal no acontecera. Era como que rasgar uma janela sobre uma bela paisagem e voltar a tap-la. Continuava imvel, de olhar 
fixo numa parede nua, a recordar o que l possura, ainda que por pouco tempo. A paisagem que contemplara com Olivia era inesquecvel, e, embora no fosse essa a 
sua inteno, agora via que alterara para sempre a sua vida, apesar de no ir mudar nada, e no levar a lado nenhum. Nunca mais entrara em contacto com ela, excepto 
para telefonar ao hospital depois do acidente e obter notcias atravs da enfermeira da UCI. Mas no a esquecia. E o seu acidente aterrorizara-o: s
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o saber que quase morrera o aterrava. Porqu ela e no ele? Porque haveria Olivia de ser castigada?
- Lamento que tenha sido um Vero to desagradvel - disse tristemente, sentando-se na cama, enquanto Katie metia uma quantidade de camisolas numa caixa com bolas 
de naftalina.
- No foi assim to mau - respondeu ela amavelmente, olhando-o por cima de um ombro do alto de um pequeno escadote.
- Para mim, foi - retorquiu ele, sincero. Sentira-se pessimamente o Vero inteiro. - Tenho imensas coisas metidas na cabea - acrescentou,  laia de explicao simplificada, 
e Katie sorriu-lhe; mas, de sbito, ficou sria. Pensava no pai.
- Tambm o meu pai tem. Tambm no tem sido fcil para ele. - Pensava apenas no Vicotec, Peter, na mulher extraordinria que encontrara em Paris. Olivia tornara 
quase impossvel o convvio familiar com Katie. Katie era to independente e to fria, to apta a desembaraar-se sem ele! Quase j no faziam nada em conjunto, 
excepto de vez em quando sair  noite com amigos, e jogar tnis com o pai dela. Ele queria mais do que isso. Tinha quarenta e quatro anos e, inesperadamente, queria 
ternura e romance. Queria contacto com ela, queria conforto e amizade, e at alguma excitao. Queria aconchegar-se  mulher, sentir o seu corpo junto ao dele. Queria 
que ela o desejasse. Mas conhecia Katie h trinta e quatro anos e pouco lhes restava de romance. Havia inteligncia, e respeito, e uma quantidade de interesses partilhados, 
mas no o excitava v-la deitada a seu lado, e, quando excitava, ela tinha normalmente uns telefonemas a fazer, ou uma reunio algures, ou um encontro com o pai. 
Deixava escapar todas as opor-
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tunidades de fazerem amor, de estarem sozinhos, s para se rirem em conjunto, ou para se sentarem a conversar, e isso fazia-lhe falta. Na verdade, o que tivera com 
Olivia nunca tivera com Katie. Houvera uma espcie de excitao inebriante em tudo o que fizera com ela. A vida com Katie fora sempre mais como ir a um baile de 
pessoas adultas; com Olivia, como ir ao baile com uma princesa encantada. A comparao era idiota, deu-lhe vontade de rir, e foi ento que reparou que Katie o olhava 
fixamente.
- Ests a sorrir de qu? Eu s comentei como tudo isto tem sido duro para o meu pai. - No ouvira uma palavra do que ela dissera. Estivera a sonhar com Olivia Thatcher.
-  o preo a pagar pela gesto de um negcio como o nosso. - Era bvio. -  um fardo pesado, e uma tremenda responsabilidade. Ningum disse que ia ser fcil. - 
Estava cansado de a ouvir falar no pai. -Mas neste momento no estava a pensar nisso. Porque no vamos os dois dar uma volta, tu e eu? Precisamos de sair daqui. 
- Em Martha's Vineyard, no haviam existido as frias repousantes dos anos anteriores.
Porque no vamos at Itlia, ou outro stio qualquer? Talvez s Carabas, ou ao Havai? - Seria diferente e excitante estar com ela, talvez uma viagem trouxesse um 
pouco de vitalidade ao casamento.
- Agora? Porqu? Estamos em Setembro, tenho milhares de coisas a fazer, e tu tambm. Tenho de levar os rapazes para o liceu, e temos de pr o Mike em Princeton no 
prximo fim-de-semana. - Olhou-o como se ele tivesse enlouquecido, mas ele insistiu. Depois de todos aqueles anos, tinha pelo menos de tentar que se mantivessem 
juntos.
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-Ento, depois de os rapazes estarem nas escolas. No quis dizer hoje, mas dentro das prximas semanas. Que achas? - Olhou-a, esperanado, enquanto ela descia do 
escadote; gostaria de sentir pela sua mulher mais do que sentia. A situao era angustiante. Talvez uma viagem s Carabas modificasse as coisas.
-H a apresentao  FDA, em Setembro. No tens de te preparar?
No lhe contara que, dissesse o pai o que dissesse, no tencionava ir, nem deixar que o pai dela fosse. No podiam cometer perjrio baseados na hiptese remota de 
todos os problemas estarem solucionados antes de o Vicotec ser lanado no mercado. - Deixa esse problema comigo - foi tudo o que lhe respondeu. - Diz-me s quando 
podes ausentar-te, e eu fao os planos. -A nica coisa na sua agenda era a reunio no Congresso sobre a fixao dos preos, a que acabara por aceder. Mas sabia que, 
se necessrio, podia adiar a sua comparncia. Era mais uma questo de cortesia e prestgio do que um caso de vida ou de morte. Para ele, o casamento de ambos contava 
muito mais.
- Tenho imensas reunies do conselho directivo este ms - comentou Katie, vagamente; e abriu outra gaveta cheia de camisolas. Sempre a observ-la, Peter interrogou-se 
de repente sobre o sentido exacto das palavras dela.
- Talvez prefiras no te afastar de c? - Se era esse o caso, queria sab-lo. Ou talvez tambm qualquer coisa a aborrecesse; ocorreu-lhe ento um pensamento que 
o atingiu como um raio de luz. Tambm ela tivera uma aventura? Estava apaixonada por outra pessoa? Evitava-o? Afinal de contas, tambm podia ter-lhe acontecido a 
ela, embora tal nunca lhe tivesse passado pela cabea; de
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repente, ao aperceber-se de que Katie era to vulnervel quanto ele, achou-se parvo. Ainda atraente, bastante nova, haveria imensos homens a quem agradaria. Mas 
Peter no fazia a menor ideia de como perguntar-lho. A mulher era sempre bastante fria, e algo afectada, e perguntar-lhe se tinha tido uma aventura estava fora de 
questo. Em vez disso, fixou-a com os olhos semicerrados, punha ela bolas de naftalina noutra caixa de camisolas. - H alguma razo para no quereres fazer uma viagem 
comigo? - Deu  voz a entoao mais spera que pde e Katie ergueu por fim o olhar para ele; a sua resposta irritou-o grandemente.
- S acho que no seria justo para o meu pai, logo agora. Anda ralado com o Vicotec. Tem montes de preocupaes. Em minha opinio, seria na verdade egosta da nossa 
parte irmos esticar-nos ao sol numa praia e deix-lo sentado no seu gabinete, apoquentadssimo. -Com dificuldade, Peter tentou esconder o seu agravo, Estava farto 
de se preocupar com Frank. Fazia-o h dezoito anos.
-Talvez precisamente agora devamos ser egostas. - Sentia-se a pression-la. - Nunca te incomoda o facto de estarmos casados h dezoito anos e pouca ateno prestarmos 
a ns prprios, ou s nossas necessidades, ou ao nosso casamento? - Tentava transmitir-lhe algo, mas no viu qualquer sinal de alarme da sua parte.
O que ests tu a dizer-me? Que ests cansado de mim . e que precisas de me ver estendida numa praia longnqua para apimentar um pouco a nossa relao? -Virou-se, 
olhou-o e por um momento no soube o que dizer-lhe. Aproximava-se muito mais da verdade do que ele ousara insinuar.
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- S penso que seria bom afastarmo-nos do teu pai, e dos midos, e do atendedor de chamadas, e das tuas reunies do conselho directivo e at do Vicotec. Mesmo aqui, 
somos constantemente perseguidos pelo fax, eu pelo menos sou,  como estar no escritrio, s tem a mais a areia. Tudo o que me apetecia era ir para fora contigo, 
para qualquer stio onde nada nos distrasse e pudssemos conversar, recordar como ramos loucos quando nos conhecemos, ou quando nos casmos.
Ento, ela sorriu-lhe. Comeava a compreender.
-Acho que ests a atravessar uma crise da meia-idade. E o que na realidade penso  que ests nervoso por causa da apresentao  FDA; queres fugir e ests a usar-me 
com esse fim. Pois bem, esquece, meu menino. Vais sair-te lindamente.  s um dia, e todos vamos or- gulhar-nos de ti. - Sorria e ele sentiu cair-lhe o corao aos 
ps. No percebera nada, sobretudo que ele precisava de qualquer coisa dela que no estava a obter, que no tinha a mnima inteno de pr os ps na FDA. A nica 
coisa que faria seria ir ao Congresso, por causa dos preos.
- Isto no tem nada a ver com a FDA - afirmou com firmeza, tentando manter-se calmo e recusando-se a discutir com ela a questo da apresentao. j lhe bastava o 
pai! - Estou a falar de ns, Katie. No da FDA. - Nesse momento, um dos rapazes interrompeu-o. Mike queria as chaves do carro, Patrick esperava-o ao incio das escadas 
com dois amigos, e precisavam de saber se haveria mais pizas congeladas escondidas em qualquer stio; estavam esfomeados.
- Ia agora mesmo ao armazm! - gritou-lhes a me, e a oportunidade perdeu-se. Ao sair do quarto, voltou-se e olhou-o por cima do ombro. - No te
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preocupes, vai correr tudo bem. -j desaparecera e ele sentou-se na cama, deixou-se ficar por muito tempo completamente oco. Pelo menos tentara. Mas no chegara 
a parte nenhuma, o que era uma pequena compensao. Katie no interpretara minimamente as suas palavras, a nica coisa que lhe prendia a ateno era o pai e a apresentao 
 FDA.
Frank voltou a falar do assunto na festa. Era como ouvir um disco falhado, e Peter fez tudo o que estava ao seu alcance para mudar de tema de conversa. Frank aconselhara-o 
a "ser um bom rapaz" e a "ir em frente com as coisas" por um tempo. No duvidava de que as suas equipas de pesquisa encontrariam os defeitos muito antes de o Vicotec 
chegar ao mercado, e que ficariam mal vistos, e sem uma soma importante, se desistissem agora de pedir uma liberao imediata  FDA. No esprito de Frank, seria 
uma bandeira vermelha a assinalar  indstria que o produto deles continha problemas srios.
- Poderia levar-nos anos a fazer esquecer isto. Sabes como  quando esta espcie de boatos se espalha. Poderiam manchar o Vicotec para todo o sempre.
- Temos de correr esse risco, Frank - replicou Peter, com uma bebida na mo. j conhecia de cor a ladainha e nenhum deles cedia um milimetro nas suas posies opostas.
Logo que foi possvel, Peter afastou-se dele e pouco depois viu-o de conversa com Katie. Adivinhava o assunto, e deprimia-o observ-los. Era bvio que ela no lhe 
contara a sua proposta de umas frias para os dois. Sabia, sem sombra de dvida, que o seu pequeno plano nunca daria frutos. Nessa noite, no lhe falou mais nele. 
E, nos dois dias que se seguiram, estiveram ocupados a fechar a casa. Nunca era aberta no Inverno, s l voltariam no prximo Vero.
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No carro, de volta  cidade, os rapazes discutiam o regresso ao liceu. Paul estava morto por reencontrar os seus amigos de Andover, Patrick queria visitar Choate 
e Groton nesse Outono. E Mike s falava em Princeton. Fora ai que o av estudara, toda a vida ouvira mencionar clubes e reunies.
-  pena que no tenhas andado l, pai. Diz que  bestial.
Um diploma obtido com aulas nocturnas na Universidade de Chicago dificilmente poderia comparar-se a Princeton.
-Tenho a certeza de que  bestial, filho, mas, se eu tivesse ido para l, no teria conhecido a vossa me. - Recordava o primeiro encontro de ambos na Universidade 
de Michigan.
- Um ponto a teu favor - comentou Mike, com um sorriso. Tencionava entrar para o clube do av logo que lhe fosse permitido. Tinha de esperar um ano, mas entretanto 
procuraria outras associaes de estudantes. Planeara e j organizara tudo. Tagarelou a esse respeito durante todo o caminho at Nova Iorque, o que deixou Peter 
fora da conversa e algo solitrio. Estranhamente, era "um dos deles" h dezoito anos e mesmo assim ainda lhe acontecia sentir-se um outsider, agora at com os prprios 
filhos.
Como seguiam para sul, e os outros no se lhe dirigiam, o seu pensamento desviou-se para Olivia. A conversa em Montmartre na primeira noite, o passeio com ela na 
praia, em L Favire... Tinham tido tanto que dizer, tanto em que pensar. Quase bateu com o carro, perdido nos seus sonhos, e toda a famlia gritou quando se desviou 
bruscamente para evitar a coliso.
-Santo Deus, pai, o que ests a fazer? - Mike nem queria acreditar no que quase acontecera.
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- Desculpem! - E passou a guiar com mais cuidado. Ela dera-lhe qualquer coisa que ningum lhe dera. Tambm pensava no que lhe dissera, que o que alcanara na vida 
fora graas a si, e no aos Donovan, mas isso era difcil de acreditar, sobretudo para uma pessoa como Peter. Era to bvio para ele que Kate e o pai tinham sido 
a origem de tudo!
E de novo o seu esprito voou para Olivia. Onde estaria ela agora, se  que a histria do hospital era verdadeira? O que lera a esse respeito soava a impostura. 
Como uma dessas desculpas para uma separao, ou uma aventura, ou uma cirurgia plstica, e ele sabia que, no caso dela, pelo menos duas dessas hipteses eram improvveis. 
De sbito ocorreu-lhe que, a despeito da entrada de Andy na corrida para a presidncia, ela o deixara. E era mesmo de Andy desculpar-se com o enlouquecimento da 
mulher.
Dois dias depois, viu que tinha razo, ao receber no escritrio um postal dela. Encontrou-o na secretria ao voltar do almoo. Ilustrava-o um pequeno barco de pesca 
e o carimbo dos correios era de L Favire.
Escrito com a sua letra mida, bem desenhada, era algo enigmtico. "Voltei para aqui. Escrevo. Finalmente. Estou fora da corrida para sempre. No pude.  tudo obra 
tua. Tu fizeste tudo. Precisaste de mais coragem do que para fugir, como eu fugi. Mas estou feliz. Cuida de ti. Amor, sempre." E assinado simplesmente "O". Para 
alm das palavras, leu nas entrelinhas. Ainda no esquecera a profundidade da voz dela quando lhe dissera que o amava. Am-la-ia sempre. Viveria no seu corao, 
nas suas recordaes, eternamente.
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Voltou a ler o postal, pensativo. Olivia era to mais forte do que julgava ser! Fora o facto de partir que exigira uma coragem real, no ficar como ele. Admirava-a. 
E alegrava-se por ela, por ter escapado  vida que levava. Esperava que fosse feliz ali e que vivesse em paz. No tinha a menor dvida de que o que quer que escrevesse 
seria brilhante. Era to corajosa perante os seus sentimentos, queria tanto ser ela prpria, dizer o que pensava! Surgiria do nevoeiro como uma farpa, como fizera 
com ele. Com Olivia no havia mentiras, nada era falso. Era uma mulher que vivia para a verdade, custasse o que custasse. Assumira compromissos e admirava-o. Mas 
no agora. Agora, Olivia era livre, e ele invejou-a; guardou o postal, esperanado em que mais ningum o tivesse visto.
Os resultados dos testes finais do Vicotec chegaram no dia seguinte, e melhores do que ele previa; porm, em termos de uma liberao imediata do medicamento eram 
desastrosos, e Peter compreendeu-o logo. Estava a tornar-se perito na interpretao dos testes; percebeu-lhes o significado, tal como o pai de Katie percebeu. Os 
dois homens tinham uma reunio marcada para os discutir em profundidade na sexta-feira e, s duas horas, encontraram-se na sala de conferncias anexa ao gabinete 
de Frank. Frank esperava-o com um ar austero, j a prever a posio de Peter. E no perderam tempo com conversas, excepto para falar de Mike. Peter e Katie iam lev-lo 
a Princeton na manh seguinte, e era visvel o orgulho de Frank. Mas uma vez liquidado esse assunto, passou ao outro, o srio.
- Ambos sabemos por que estamos aqui, no sabemos? - Olhava bem fundo nos olhos de Peter. - E eu sei que no concordas comigo - acrescentou, com
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precauo. Tinha todo o corpo tenso, como o de uma cobra prestes a saltar. E Peter era a presa, a preparar-se para se defender e defender a integridade da companhia, 
mas Frank antecipou-se-lhe, preparado para saltar se tivesse de ser. - Acho que agora vais ter de acreditar no meu bom senso. j passei por situaes destas. H 
quase cinquenta anos que me ocupo do negcio. Decerto no duvidas quando digo que sei o que ando a fazer. No  um erro irmos ter com eles j. Na altura em que pusermos 
o produto  venda, ele estar em condies. No corria um risco destes se no pensasse que podemos comercializ-lo.
- E se estiver errado? Se matarmos algum? Mesmo uma s pessoa... um homem... uma mulher ou uma criana... E depois? O que dizemos? Como vivemos connosco prprios? 
Como podemos arriscar-nos, pedir uma liberao imediata? - Peter era a voz da sua conscincia, mas Frank preferiu achar que ele era a voz da runa, e acusou-o de 
reagir como uma velha, igual a "esse idiota de Paris". - O Suchard sabe destas coisas, Frank. Foi para isso que o contratmos, para ele nos dizer a verdade. Mesmo 
que seja desfavorvel. Eu sei que ele j no tem nada a ver com o caso, mas abrimos uma caixa de Pandora que no podemos limitar-nos a ignorar. E o senhor sabe-o.
- Ser-me-ia difcil conceber um valor de dez milhes de dlares de pesquisa adicional durante dois meses, "ignorando-o", Peter. E no chegmos a lado nenhum. Enfrenta 
os factos, ele meteu-se numa caa s bruxas... pior do que isso, numa caa aos gambozinos. No se encontra nada. Estamos a falar de um elemento que "poderia reagir" 
ou "talvez desencadeasse" uma srie extraordinariamente rara de circunstncias, numa proba-
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bilidade de um para um milho; no caso incerto de alguma coisa correr mal... e ns acabarmos por ter um problema. Por amor de Deus, s franco, achas isto razovel? 
Que diabo, podes tomar duas aspirinas com uma bebida e ficar maldisposto. E da?
- Duas aspirinas com uma bebida no matam. O Vicotec mata, se no se for cuidadoso.
- Mas ns somos cuidadosos.  a que bate o ponto. Todos os medicamentos tm os seus riscos, os seus efeitos colaterais, o seu lado negativo. Se no queremos conviver 
com isso, o melhor que temos a fazer  fechar a porta e ir vender algodo doce para as feiras. Por amor de Deus, Peter, deixa de me atazanar os ouvidos, s sensato. 
Quero que entendas que eu vou passar por cima de ti, neste caso. Se tiver de ser, vou eu prprio  FDA, mas quero que saibas porqu. Quero que saibas que acredito 
sinceramente que o Vicotec  seguro, aposto a minha vida nele! - E as ltimas palavras foram j pronunciadas aos gritos. Estava vermelho e agitado, a voz tornava-se-lhe 
cada vez mais rouca; e trmula. Frank estava completamente fora de si, transpirava, perdia a cor, e fez uma pausa para beber um gole de gua.
- Sente-se bem? - perguntou-lhe Peter, calmo, observando-o. - Isto no merece que aposte a sua vida.  esse o fulcro da questo. Temos de avaliar o assunto clinicamente 
e conduzi-lo sem exaltaes.  um produto, Frank, no passa disso. Desejo-o mais do que qualquer outra pessoa, mas, no fim de contas, ou servir, ou no servir, 
ou poder vir a servir mas leva mais tempo do que o que quereramos para ficar pronto. Ningum anseia mais do que eu por v-lo no mercado. Mas no "a qualquer preo", 
no enquanto existir um s factor de que no estejamos seguros. H um fio solto em qual-
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quer stio. Ns sabemo-lo. Vimos os seus sinais. At o detectarmos, no podemos permitir que algum o use.  to simples como isto. - Falara com conciso e clareza 
e, quanto mais agitado Frank ficava, mais ele parecia calmo.
- No, Peter, no... no  assim to simples! -Frank rugia, a sua fria aumentava perante a exasperante frieza do genro. - Quarenta e sete milhes de dlares em 
quatro anos, no  de maneira nenhuma "simples"! Quanto dinheiro achas que vamos investir no total, por amor de Deus? Quanto dinheiro pensas que ? - Estava a tornar-se 
srdido, e Peter recusou-se a morder o isco.
- O suficiente para fazer tudo como deve ser, espero, ou ento pe-se de parte o produto. Foi sempre essa a nossa opo.
-Ao diabo, a opo! - Frank, de p, berrava-lhe. - Achas que eu vou deitar perto de cinquenta milhes de dlares pela janela fora? Ests louco! De quem achas que 
 esse dinheiro? Teu? Pois pensa bem, tu s meu, e da companhia, e da Katie, e que um raio me parta se vais dizer-me o que tenho a fazer. Nem sequer aqui estarias 
hoje se eu no te tivesse comprado, fechado a cadeado, guardado e aprisionado para a minha filha. - As suas palavras foram para Peter uma machadada, cortaram-lhe 
a respirao e tudo o que lhe ocorreu  memria foram as do seu pai, h dezoito anos, quando lhe participara que ele e Katie iam casar-se: "Sers sempre um marido 
alugado se casares com ela, meu filho. Est errado,  injusto, mas  assim. Sempre que olharem para ti, ver-te-o como eras antes, no como s no momento." Mas casara, 
e o resultado estava  vista, Era isto o que pensavam dele, dezoito anos depois.
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j ento Peter se levantara tambm e, se Frank Donovan tivesse alguns anos a menos, alguma demncia a menos, Peter ter-lhe-ia dado um bom murro.
- No fico a ouvir mais - exclamou, a tremer dos ps  cabea por no poder assentar-lhe o tal murro, mas Frank no ia desistir. Agarrou-o por um brao e continuou 
aos berros.
- Vais ouvir tudo o que eu te disser, raios, e fazer tudo o que eu quero. E no me olhes com esses olhos de carneiro mal morto, meu filho da me. Ela podia ter tido 
qualquer um, quis-te a ti, por isso eu fiz de ti o que s hoje, para no lhe causar embaraos. Mas tu no s nada, no s nada! Comeas este maldito projecto, custa-nos 
milhes, fazes promessas, vs tudo cor-de-rosa, e depois, quando surge um problemazeco que um francs qualquer presumido julga ver num quarto escuro, apunhalas-nos 
pelas costas e queres ir grunhir como um porco para a FDA. Pois bem, deixa-me dizer-te uma coisa: prefiro que morras do que faas semelhante coisa. Ditas estas palavras, 
apertou o peito, a tossir freneticamente. A cara estava vermelha como um tomate e era bvio que no conseguia respirar. Agarrou-se ento aos dois braos de Peter, 
e este suportou todo o peso do velho enquanto ele comeava a descair, quase o arrastando consigo. Por um instante, nem acreditou no que estava a passar-se; depois 
percebeu. Estendeu-o rapidamente no cho, discou o nmero das emergncias o mais depressa que pde e deu todos os pormenores. Nesse momento, Frank vomitava, e continuava 
a tossir; Peter, mal desligou o telefone, ajoelhou-se, virou-o de lado e tentou suportar o seu peso e manter-lhe a cara afastada do vmito. Ainda respirava, embora 
com extre-
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ma dificuldade; quase perdera os sentidos, mas Peter continuava a rebobinar tudo o que o homem lhe dissera. Nunca o imaginara capaz de tanto veneno, tanto que quase 
o matara. E enquanto, inclinado, o amparava, Peter s pensava que Katie diria que ele fora o culpado. Acus-lo-ia pelo facto de teimar e o contrariar por causa do 
Vicotec. Mas nunca saberia o que Peter acabava de ouvir, o que o pai lhe dissera, as coisas inesquecveis que lhe vociferara. E quando os paramdicos chegaram, no 
lhe restavam dvidas de que, acontecesse o que viesse a acontecer, ser-lhe-ia impossvel esquecer ou perdoar-lhe. No se tratava de injrias gritadas num momento 
de raiva, mas de armas letais, horrendas, que durante anos escondera, apontadas contra si e prontas a ser disparadas um dia. Punhais afiados que o haviam trespassado 
e que Peter sabia que jamais esqueceria.
Os paramdicos ocupavam-se de Frank; Peter ergueu-se e recuou. Tinha o fato sujo do vmito e a secretria de Frank,  porta, estava histrica. No corredor, vrias 
pessoas observavam a cena e um dos paramdicos ergueu o olhar para Peter e abanou a cabea. O sogro deixara de respirar. Os dois outros paramdicos pegaram no desfibrilhador 
e abriram a camisa de Frank, precisamente quando meia dzia de bombeiros entravam no gabinete. Parecia uma conveno; todos se ajoelharam e no o largaram durante 
uma hora, enquanto Peter os observava, sempre a pensar no que iria dizer a Katie. Comeava a convencer-se que no restava a menor esperana, quando os paramdicos 
mandaram os bombeiros buscar a maca. O corao batia de novo, irregular mas j no em fibrilao, o homem voltara a respirar. Ento, com uma mscara de oxignio 
posta, levantou os olhos turvos para Peter, sem dizer uma palavra, e Peter
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tocou-lhe na mo quando ele passou por si. Levavam-no para a ambulncia e Peter pediu  secretria que ligasse para o mdico particular do sogro. Esperavam-no no 
Hospital de Nova Iorque, com uma equipa de cardiologistas. Parecia ter escapado  morte por muito pouco.
- Vou l ter - disse Peter aos paramdicos e correu ao lavabo dos homens para tentar dar um jeito nas calas e no casaco. Tinha uma camisa limpa num armrio, mas 
todo o resto metia nojo. At os sapatos estavam cobertos do vmito de Frank. Mas o que se sobrepunha, o que verdadeiramente o cobria, era a imundcie do que Frank 
lhe dissera. A infmia do que lhe atirara  cara era to virulenta que quase o matara.
Cinco minutos depois, Peter saa do lavabo com outra camisa, as calas to limpas quanto fora capaz, uma camisola e sapatos limpos. Dirigiu-se ao seu gabinete para 
telefonar a Katie. Felizmente, encontrou-a em casa, ia mesmo a sair para umas voltas que tinha a dar. Quando atendeu, Peter quase chocou com as suas prprias palavras. 
No sabia como lhe contar.
- Katie... eu... Ainda bem que ests em casa. -A mulher gostaria de lhe perguntar porqu, tinha andado to estranho com ela ultimamente, alheio de um modo esquisito 
e deprimido. Vira imensa televiso umas semanas antes, de repente no via nenhuma. Durante uns dias, obcecara-o a CNN, e fora uma ideia to peregrina aquela de querer 
fazer frias com ela.
- Passa-se alguma coisa? - Deitou uma olhadela ao relgio de pulso. Tinha ainda montes de coisas de Mike a tratar, antes da partida dele para Princeton, na manh 
seguinte. Precisava de lhe comprar um tapete para o quarto e uma colcha nova. Mas o tom de voz do marido, ao responder-lhe, apanhou-a desprevenida.
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-Passa, sim...  que... Katie, ele agora est bem, mas foi o teu pai. - Ficou quase sem respirao ao ouvi-lo. - Teve um ataque cardaco no escritrio. -No lhe 
disse que estivera s portas da morte, que o seu corao parara por uns segundos. Os mdicos dir-lho-iam, mais tarde. - Levaram-no para o Hospital de Nova Iorque 
e eu vou agora para l. Acho que deves vir logo que possas. Ele  bastante forte.
-Ele est bem? - A sua voz soava como se o mundo tivesse desabado, e para ela desabara; pelo espao de um horrvel segundo, Peter no pde impedir-se de imaginar 
se soaria de igual forma se tivesse sido ele e no o pai. Teria Frank razo? Ele no passava de um brinquedo que haviam comprado e pago?
- Penso que sim. Durante uns minutos, aqui, teve mau aspecto, mas os homens das emergncias foram formidveis. Vieram c paramdicos e bombeiros. -E tambm um polcia 
que, no exterior, acalmava toda a gente e anotava o relato da secretria de Frank, embora esta nem soubesse ao certo o que se passara. Estavam  espera de falar 
com Peter, e todos pareciam bastante correctos. Peter ouviu a mulher chorar. - No te aflijas, querida. Ele est bem. S achei que querias vir v-lo. - De repente, 
veio-lhe  cabea que talvez ela no se achasse em condies de guiar. No queria que tivesse um acidente. - O Mike est a? - Katie soluou ao telefone, dizendo 
que o filho no estava. Se estivesse poderia trazer a me. Paul s tinha licena de aluno de conduo e no guiava ainda suficientemente bem para fazer todo o trajecto 
desde Greenwich. - Podes pedir a um dos vizinhos que te traga no carro?
-Eu posso guiar - respondeu ela, ainda a chorar. - O que aconteceu? Ele ontem estava ptimo. Foi
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sempre to saudvel. - E era, mas havia factores incontornveis.
-  um homem de setenta anos, Katie, e tem andado numa grande tenso.
A mulher parou de chorar, e foi com voz dura que lhe perguntou:
- Estiveram outra vez a discutir por causa da apresentao  FDA? - Sabia que tinham planeado reunir-se para tratar desse assunto.
- Discutimo-la, sim. - Mas havia mais do que isso. Frank berrara-lhe ofensas, que no era sua inteno contar a Katie. O que o pai dela lhe dissera era doloroso 
de mais para ser repetido, especialmente tendo em conta o que sobreviera. Se ele morresse, Peter no queria que Katie soubesse at que ponto tinham chegado as coisas 
entre eles.
- Devem ter feito mais do que "discutir", se ele teve um ataque cardaco - retorquiu ela, acusadora, mas Peter no quis perder tempo ao telefone.
- Penso que deves vir. Podes falar nisso depois. Ele est na UCI de cardiologia - informou com brusquido, e Katie recomeou a chorar. Peter detestava pensar que 
ela viria a conduzir. - Eu vou l agora ver o que se passa. Telefono-te do carro se houver alteraes. V se colocas bem o telefone.
-  bvio! - A sua voz era cortante e, ao falar, assoava-se. - V tu se no lhe dizes nada que o incomode.
Frank, porm, estava longe de poder ouvir algum quando Peter chegou ao Hospital de Nova Iorque, vinte minutos mais tarde. Primeiro, teve que falar com a Polcia, 
assinar uns formulrios deixados pelos paramdicos, e o trnsito era imenso na direco de East River. Quando l chegou, Frank estava j sob o efeito de seda-
tivos e atentamente vigiado. O rosto passara de rosado a cinzento. Todo despenteado, tinha ainda restos secos de vmito no queixo e o peito nu coberto de fios e 
sensores. Encontrava-se ligado a qualquer coisa como meia dzia de mquinas e parecia extremamente doente e muito mais velho do que uma hora antes.
Com total franqueza, o mdico disse a Peter que Frank no estava de modo algum livre de perigo. O ataque cardaco fora forte e ainda havia o risco de o seu corao 
recair em fibrilao. As prximas vinte e quatro horas eram cruciais. Ao olh-lo, era fcil acreditar no diagnstico. Impossvel era acreditar que, duas horas antes, 
quando Peter entrara no seu gabinete, parecesse jovem e cheio de sade.
Peter esperou por Katie no corredor da entrada e tentou avis-la antes de ela subir. De calas de ganga e T-shirt, com o cabelo desalinhado e um olhar esgazeado 
pelo pnico, subia no elevador com o marido quando, perturbadssima e anormalmente distrada, lhe perguntou pela quinta vez:
- Como est ele?
- Vais ver. Tem calma. Acho que parece um pouco pior do que est.
As mquinas a que estava ligado assustavam, mais parecia um corpo para estudo do que um doente. Mas Katie no estava minimamente preparada para o que se lhe deparou 
quando entrou na UCI e viu o pai. Desatou a soluar e foi enorme o seu esforo para no gritar quando chegou junto dele e lhe pegou na mo. Frank abriu os olhos 
e reconheceu-a; voltou depois ao seu sono provocado pelos medicamentos. Queriam-no em repouso absoluto nos prximos dias, se no morresse entretanto.
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- Oh, meu Deus! - exclamou ela, quase a desmaiar nos braos de Peter quando saam do quarto. Peter teve de a sentar numa cadeira o mais depressa que pde e uma enfermeira 
trouxe-lhe um copo de gua. -No posso crer. - Na meia hora seguinte no parou de chorar e Peter ficou sentado a seu lado. E quando finalmente o mdico voltou, para 
falar com eles, disse-lhes que Frank tinha cinquenta por cento de probabilidades de sobreviver.
As suas palavras deixaram Katie de novo histrica; passou o resto da tarde em lgrimas, numa cadeira no exterior da UCI, e a ir v-lo de meia em meia hora, quando 
lho permitiam. Mas a maior parte das vezes que l foi, encontrou-o inconsciente. Ao fim do dia, Peter tentou lev-la a comer qualquer coisa, mas ela recusou terminantemente. 
Disse-lhe que dormiria na sala de espera o tempo que fosse preciso, mas que no saa dali, nem por um instante.
- Katie, tens de sair - insistiu Peter, com ternura. - No vai ajudar nada, se tu tambm adoeceres. Ele fica bem, por uma hora ou mais. Podemos ir para o apartamento 
e deitar-nos, e se for necessrio eles telefonam.
- No gastes saliva - foi a sua resposta obstinada, com o olhar de uma criana que no quer ser levada de onde est. - Eu fico com ele. Durmo aqui esta noite, e 
todo o tempo at ele estar livre de perigo. - Na verdade, era mais ou menos o que Peter esperara.
- Tenho de ir a casa informar os rapazes, mas s at certo ponto - disse, pensativo; com um aceno de cabea, Katie concordou. Os filhos eram a ltima coisa que a 
preocupava, ali sentada no corredor deserto. -Eu vou l, ocupo-me deles e depois volto,  noite. -Uma vez mais, ela concordou sem palavras com o seu
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plano. - Ficas bem, enquanto eu vou? - perguntou-lhe com delicadeza, mas ela mal o olhou. Dava a impresso de j ter perdido o pai, enquanto olhava fixamente a janela. 
No conseguia imaginar o mundo sem o pai. Nos seus primeiros vinte anos, fora tudo o que tinha na vida. E nos vinte seguintes, uma das pessoas mais importantes para 
si. Na opinio de Peter, Frank era para ela um dolo, uma paixo, quase uma obsesso e, embora sem nunca o ter dito, parecia amar mais o pai do que os prprios filhos. 
- Ele vai ficar bom - repetiu, docemente, mas a mulher apenas chorou e abanou a cabea quando ele saiu; no podia fazer mais nada por ela. A Kate s lhe interessava 
o pai.
Peter conduziu o mais depressa que pde, na confuso de carros de sexta-feira  noite, e por sorte apanhou os trs rapazes em casa; falou-lhes do ataque cardaco 
de Frank, tentando no os alarmar, e todos trs ficaram preocupadssimos. Tranquilizou-os o melhor que pde e, a uma pergunta de Mike, respondeu que acontecera durante 
uma reunio de negcios entre os dois. Mike queria ir  cidade para ver o av, mas Peter achou melhor aguardarem. Quando Frank se sentisse capaz de o receber, o 
seu neto mais velho podia vir de Princeton para o visitar.
- E amanh, pai? - quis saber Mike. Estava combinado levarem-no a Princeton. no dia seguinte e, tanto quanto Peter sabia, quase tudo estava pronto, excepto o tapete 
e a colcha que Kate no pudera comprar nessa tarde; mas Mike arranjar-se-ia sem eles.
-Eu acompanho-te, de manh. Penso que a tua me vai querer ficar com o teu av.
Peter levou-os a jantar fora; um jantar rpido; pelas nove da noite meteu-se ao caminho de regresso  cida-
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de. Do carro, telefonou a Katie, que lhe disse no haver alteraes, embora ela o achasse com pior aspecto do que umas horas antes; mas a enfermeira dissera que 
era mesmo assim.
Peter estava de volta ao hospital s dez horas e ficou com ela at depois da meia-noite, hora a que voltou para Greenwich, para junto dos filhos. E na manh seguinte, 
s oito horas, levou Mike  faculdade, com todas as suas malas, sacos e equipamentos de desporto. Foi colocado num quarto com dois outros estudantes, e cerca do 
meio-dia Peter fizera tudo o que tinha a fazer. Abraou Mike, desejou-lhe boa sorte e regressou a Nova Iorque, para ver Katie e o pai. Chegou pouco antes das duas 
e ficou atnito com o que se lhe deparou: Frank sentado na cama, com um aspecto fraco e cansado. Ainda estava plido, mas penteado, com um pijama limpo e Katie a 
dar-lhe a sopa, como a um beb. Umas melhoras sensacionais.
- Ora bem, ora bem! - comentou, enquanto entrava. - Parece que dobrou o cabo! - Frank sorriu. Mas Peter ainda no confiava muito nele. No esquecera as coisas que 
lhe ouvira, nem o tom em que lhas dissera. Apesar disso, no lhe queria mal por ter sobrevivido. - Onde arranjou esse pijama to giro? - No parecia, na verdade, 
o mesmo homem que vira na vspera, deitado no cho do gabinete e coberto com o seu prprio vmito; Katie sorriu, radiante. Ela no tinha de lutar com essa recordao, 
nem com a do ataque torpe contra Peter, acusado de ter sido comprado e devidamente pago.
- Consegui passar-lhes por cima, com um recado do Bergdorf - informou-o Katie, toda contente. -A enfermeira disse que eles devem pr o pai num quar-
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to particular amanh, se ele continuar a melhorar. -A prpria Katie parecia exausta, mas nem por um s momento fraquejou. Daria todas as suas foras, todo o seu 
sangue, se isso o ajudasse.
- ptimo, boas notcias. - Em seguida, contou-lhes a chegada de Mike a Princeton. Frank mostrou-se extremamente agradado; pouco depois Katie ajudou-o, com todo o 
cuidado, a deitar-se para dormir um bocadinho, e ela e Peter saram para o corredor. Mas no se mostrava nem de longe to animada como quando estava a dar a sopa 
ao pai. Peter percebeu instantaneamente que algo acontecera.
- O pai contou-me o que se passou ontem - disse ela, com um olhar penetrante, enquanto passeavam de c para l no corredor.
-E o que  que isso quer dizer? - Tambm ele estava cansado e pouco disposto a entrar em jogos de palavras. Achou difcil acreditar que o sogro tivesse confessado 
at que ponto fora incorrecto, ou repetido o que lhe dissera e o que dissera a seu respeito.
-Tu sabes o que quer dizer. - Parou para o encarar, perguntando a si prpria se acaso o conhecia. -Explicou-me que o traste em relao  apresentao  FDA, que 
chegaste quase a ser violento.
-Ele disse o qu? - Peter estava atnito.
- Disse que nunca te ouviu falar com ningum daquela maneira e que te recusaste a dar ouvidos  razo. Disse que foi de mais para ele e... e ento... - Comeou a 
chorar e por um momento teve de interromper-se, sempre a olh-lo com um olhar repleto de acusaes. - Quase mataste o meu pai. Se tivesses morto, se ele no fosse 
to forte... e to bondoso... - Desviou dele o olhar, incapaz de continuar a fit-lo, mas Peter
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ouviu-a muito nitidamente: - Acho que nunca poderei perdoar-te!
- Ento, somos dois! - exclamou ele, com uma fria sem limites. - Sugiro que lhe perguntes o que me disse antes de desmaiar. Acho que foi qualquer coisa sobre ter-me 
comprado h anos, e fechado a cadeado, e guardado, e aprisionado, e ver-me morto se eu no for  maldita apresentao. - Baixou para a mulher os seus olhos azul-claros 
e Katie viu neles algo que nunca vira antes; depois, afastou-se o mais depressa que pde e entrou no elevador; ela observava-o, mas no fez qualquer movimento para 
o seguir. Isso, porm, j no lhe interessava. No havia no seu esprito mais interrogaes quanto  dedicao da mulher.
CAPTULO 11
Frank recuperou surpreendentemente bem do seu ataque cardaco e duas semanas depois tinha alta; Kate quis ficar em casa dele. Peter achou justo, ambos precisavam 
de algum tempo para pensar e decidir o que sentiam um pelo outro. Ela nunca se desculpou pelo que lhe dissera no hospital e ele nunca tocou no assunto. Mas tambm 
no o esqueceu. E, claro, Frank no fez mais qualquer meno a Peter ter sido "comprado e devidamente pago". Peter nem sabia se ele se lembrava.
Era cordial com o sogro quando o visitava, o que fazia com regularidade, tanto por cortesia como para ver Katie, mas as suas relaes com Frank eram notoriamente 
frias. E Katie mantinha as distncias em relao a Peter. Andava, alis, demasiado ocupada com o pai para prestar muita ateno ao marido. Peter cuidava de si, fazia 
o seu jantar todas as noites, o que na realidade no o incomodava nada. Os rapazes mais velhos estavam fora, nos colgios, e j tinham recebido notcias de Mike 
vrias vezes. Estava louco com Princeton.
Foi duas semanas depois de ter sofrido o ataque, que Frank voltou a referir-se  apresentao do medicamento. Os dois homens sabiam que continuavam na agenda da 
FDA. E os interrogatrios teriam lugar da a poucos dias. Se no iam pedir a aprovao  FDA, tinham de cancelar a sua presena.
- Ento? - interrogou Frank, recostado nas almofadas que Katie acabara de ajeitar. Estava impecavelmente barbeado e limpo; o seu barbeiro acabara de chegar para 
lhe cortar o cabelo. Parecia um anncio para pija-
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mas e lenis de luxo, no um homem que estivera s portas da morte, mas apesar de tudo Peter no pretendia molest-lo. - O que se passou nestes dias? Que tal vai 
a pesquisa? - Ambos sabiam ao que ele se referia.
- Acho que no devamos discutir isso. - Katie, no andar de baixo, fazia-lhe o almoo, e Peter no tinha a menor inteno de iniciar uma discusso com ele, e depois 
ter de se haver com os dois Donovan. Pelo que lhe dizia respeito, at os mdicos lhe darem instrues em contrrio o Vicotec era um assunto tabu.
- Temos de o discutir - replicou Frank com firmeza. - A apresentao  daqui a poucos dias. No me esqueci - acrescentou, calmo. Nem Peter esquecera o que ele lhe 
dissera no seu gabinete. Mas Frank no aludiu ao incidente, limitava-se a olhar o genro. Era um homem com uma misso. Com facilidade se percebia de onde provinham 
a teimosia e a perseverana de Katie. - Falei ontem para o escritrio e, segundo o departamento de pesquisa, tudo est agora em ordem.
- Com uma excepo - corrigiu Peter.
- Um teste insignificante, feito num laboratrio de ratos em condies excepcionais. Estou a par de tudo. Mas, ao que parece,  irrelevante, porque as condies 
tipificadas nesses testes no podero nunca reproduzir-se em humanos.
- Isso  verdade - admitiu Peter, pedindo aos seus santinhos que Katie no entrasse e os apanhasse naquela conversa. - Porm, tecnicamente, nos termos da FDA, desclassifica-nos. 
Continuo a dizer que no devamos ir aos interrogatrios. - E ainda por cima, no tinham sido capazes de refazer na totalidade os testes franceses, os quais eram 
cruciais. - Tambm temos de analisar outra vez o material do Suchard.  a que reside
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a falha real. O resto, tem sido mera rotina. Temos de percorrer o caminho que ele percorreu.
- Podemos faz-lo antes de o Vicotec ser usado clinicamente e a FDA no precisa de saber nada, para j. Sob o aspecto tcnico passmos todos os requisitos com bandeira 
verde. No queremos nada mais do que aquilo a que temos direito. Isso deveria satisfazer-te - acrescentou em tom severo.
- Deveria. Se o Suchard no tivesse descoberto um problema, e ns estaramos a mentir se escondssemos o facto  FDA.
-Dou-te a minha palavra - declarou Frank, ignorando a interrupo - que se qualquer coisa... seja o que for... o mnimo esboo de um problema surgir nos testes subsequentes, 
eu paro tudo. No sou louco. No quero uma aco judicial de cem milhes de dlares. No tenho a inteno de dar cabo de ningum. Mas tambm no quero que dem cabo 
de ns. Conseguimos aquilo de que precisamos. Contentemo-nos com isso. Se eu te der a minha palavra de que prosseguiremos at  ensima potncia mesmo que obtenhamos 
aprovao para testes imediatos em seres humanos depois de todos os nossos testes laboratoriais, vais aos interrogatrios? Peter, que mal pode isso fazer?... Por 
favor...
Frank estava errado, e Peter sabia-o. Era prematuro e... perigoso. Com uma aprovao para testes clnicos a curto prazo, podiam administr-lo a seres humanos imediatamente 
e ele no confiava em que o sogro o no fizesse. No importava a Peter o facto de os testes clnicos envolverem doses muito reduzidas de Vicotec, usadas num reduzidssimo 
nmero de pessoas. Para ele, o cerne da questo residia em no correrem riscos indevidos e
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irresponsveis, nem com uma s pessoa. Tinham sido alertados contra perigos potenciais do uso do Vicotec, tal como ele era agora, e Peter no conseguia ignorar esse 
alerta. Outras companhias tinham passado por casos horrorosos por o terem feito, corriam ainda histrias lendrias de produtos totalmente embalados e metidos em 
vages,  espera da aprovao da FDA para, mal obtida esta, os expedirem de imediato. Peter receava que o sogro tivesse em mente algo semelhante para o Vicotec, 
a despeito dos seus problemas potenciais. Se Frank no estava preparado para ser razovel, as possibilidades de uso indevido eram infinitas. E uso indevido poderia 
traduzir-se em perdas de vida desnecessrias. Algo que Peter temia e de modo nenhum podia aprovar.
- No posso apresentar-me  FDA - respondeu, com tristeza. - O senhor sabe que no posso.
- Ests a fazer isto por vingana... pelo que eu disse... Por amor de Deus, tu sabes que eu no penso nada do que disse. - Ento, lembrava-se. Dissera-o apenas para 
ferir, ou por convico? Peter nunca o saberia, mas seria incapaz de o esquecer. Contudo, no era vingativo.
-Uma coisa no tem nada a ver com a outra.  uma questo de tica.
- Isso so tretas. Ento, o que queres? Um suborno? Uma garantia? Tens a minha palavra de que no avano com o produto se ainda subsistir qualquer problema quando 
completados todos os testes. De que mais precisas?
. De tempo.  s uma questo de tempo - respondeu Peter, fatigado. Os Donovan tinham-no esgotado nas duas ltimas semanas; e na verdade, se pensasse bem, esgotavam-no 
h j muito tempo.
-  uma questo de dinheiro. E orgulho. E repu-
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tao. Imaginas o nosso prejuzo se desistirmos agora da apresentao? Poderia mesmo repercutir-se nos nossos outros produtos. - Era um crculo vicioso e nenhum 
deles concordava com a posio do outro. Quando Katie chegou com o almoo de Frank, viu ambos carrancudos e suspeitou logo de que houvera discusses proibidas.
- No esto a falar de negcios, pois no? - perguntou aos dois, e ambos abanaram a cabea, mas Peter com um ar culpado; e um pouco mais tarde, ela p-lo entre a 
espada e a parede. - Achei que no quererias recordar-lho - disse, enigmtica. Estavam os dois na cozinha do pai.
- Recordar-lhe o qu?
- O que fizeste. - Ainda achava que Peter quase o matara, causara o seu ataque cardaco porque o contrariara, e nenhum argumento seu a faria mudar de ideias. - De 
certa forma, deves-lhe isso, ir a essa apresentao e a esses interrogatrios. No vem da nenhum dano real.  uma questo de salvar a face, no que lhe diz respeito. 
Ele antecipou-se ao pedir experincias prematuras, e agora no quer admitir que no estava pronto. No vai usar o Vicotec em pessoas se isso for perigoso. Tu conhece-lo. 
No  estpido, nem maluco. Mas est doente, e velho, e tem o direito de no querer ficar malvisto perante o pas inteiro. Podias fazer-lhe isso, se te importasses 
um bocadinho com ele. - Mostrava-se de novo acusadora. - No me parece que ele pea muito. A menos que ele no tenha importncia para ti. Contou-me que te disse 
coisas bastante desagradveis no outro dia, porque estava zangado. Mas tenho a certeza de que no as pensava. A questo  a seguinte - prosseguiu, fixando-o: - s 
superior o suficiente para lhe
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perdoar? Ou vais faz-lo pagar, negando-lhe a nica coisa que quer de ti? De qualquer forma, o Congresso  na mesma data, ainda podes apresentar-te  FDA. Deves-lhe 
isso, depois do que fizeste. E agora, ele no pode ir. s a nica pessoa com quem pode contar. - Levava-o a sentir-se um autntico filho da me por recusar, e estava 
tambm decidida a responsabiliz-lo pelo ataque cardaco do pai. E, tal como Frank, parecia agarrada  ideia de que ele procurava vingar-se daquilo que ouvira. Uma 
teia mesquinha e retorcida.
- No tem nada a ver com isso, Katie.  muito mais complicado. Tem a ver com integridade e com tica. O teu pai tem de ver mais longe do que "salvar a face". O que 
pensariam as pessoas, o governo por exemplo, se viessem a descobrir que nos apresentamos aos interrogatrios prematuramente? Nunca mais confiariam em ns. Poderia 
destruir a nossa firma. - Pior ainda, ele tambm seria destrudo. Violava tudo aquilo em que acreditava, sabia-se incapaz de o fazer.
-Ele disse-me que o poria de parte, se tivesse de ser. Tudo o que lhe dars  um perodo de graa e uma apresentao  FDA. - Na sua boca, era to pouco, e ela era 
muito mais convincente do que o pai. Tal como lhe apresentava a questo, ele tinha de o fazer; o pedido era to insignificante que Katie no compreendia como poderia 
o marido recus-lo. E conseguiu manobrar de forma a integrar-se a si prpria no caso, como se ele lho devesse, a ela, como prova de que ainda a amava. -Tudo o que 
ele pede  um compromisso. Nada mais. Es to mesquinho que no vais assumi-lo? Concede-lhe isto... s desta vez. E pronto. O homem quase morreu. Merece-o. - Dir-se-ia 
Joana d'Arc a oscilar a bandeira diante dos seus olhos, e Peter, sem nunca ter percebido
porqu, cedeu  presso. Era como se a sua vida inteira estivesse em jogo. Fora ela quem dera as cartas.  o monte era agora alto de mais para ele lhe resistir. 
- Peter? - Olhou-o, inesperadamente sedutora, a mulher tentadora que nunca havia sido, dotada de habilidade e esperteza sobre-humanas; ele nem foras teve para lhe 
responder, para lhe opor resistncia. Sem sequer saber o que fazia, anuiu, com um aceno de cabea. E ela compreendeu. Conseguira. Vencera. Ele iria  apresentao 
e aos interrogatrios.
CAPTULO 12
A noite anterior  partida para Washington foi um pesadelo para Peter. Ainda no acreditava no que fizera por eles. Mas Katie ficara-lhe obviamente grata desde que 
ele acedera, e o pai melhorava a olhos vistos e desfazia-se em amabilidades e louvores ao genro. Quanto a este, sentia-se catapultado para outro planeta onde nada 
era real, onde o seu corao se transformara numa pedra e o seu crebro no tinha peso. Nem aprofundava o que estava a fazer.
Intelectualmente, ainda raciocinava, na linha de Frank. O Vicotec estava quase perfeito e, se surgissem novos problemas, suspend-lo-iam antes de chegar ao mercado. 
Porm, numa perspectiva moral e legal, laboravam num erro, e nenhum deles o ignorava. Mesmo assim, Peter j no tinha escolha. Prometera a Katie e ao pai. A nica 
questo para ele era: como conviveria consigo depois? Iria, pura e simplesmente, abandonar aos poucos a sua tica? Uma vez dado esse passo, seguir-se-ia outra escorregadela, 
outras violaes de princpios a que antes aderisse? Um interessante tema filosfico que, se no sentisse que estava a apostar a sua vida, o interessaria imenso. 
Mas, tal como as coisas estavam, no conseguia comer, no conseguia dormir. Perdera trs quilos em meia dzia de dias, tinha um aspecto horrvel. Na vspera da ida 
a Washington, a sua secretria perguntou-lhe se estava doente e ele limitou-se a abanar a cabea e a responder que andava muito ocupado. Com Frank ausente e planeando 
ficar em casa mais um ms, a carga sobre os seus ombros era ainda mais
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pesada do que de costume. E tinha de comparecer ao Congresso para a fixao de preos, na manh do mesmo dia dos interrogatrios da FDA.
Ficara  secretria at tarde nesse dia, a estudar o resultado da ltima pesquisa. Parecia de facto bom, excepto num pequeno pormenor que se coadunava na perfeio 
com algumas das coisas que Suchard lhe dissera em junho, razo pela qual estava to seguro do significado do pormenor em causa. Segundo os analistas, era uma coisa 
relativamente insignificante, e nem sequer valia a pena Peter telefonar a Frank por causa disso. Alis, sabia a resposta que obteria: "No te preocupes. Vai aos 
interrogatrios e ns tratamos do caso mais tarde." Mas de qualquer modo, levou os relatrios consigo para casa e releu-os todos nessa noite; s duas da madrugada, 
ainda o perturbavam. Katie dormia a seu lado, na cama. j no estava em casa do pai, at ia a Washington com ele e comprara um fato novo para esse fim. Ela e o pai, 
radiantes por Peter ter capitulado, andavam muito bem-dispostos. Para ele, era uma misso demonaca e Katie ralhara-lhe por exagerar. Tentou convenc-lo de que apenas 
andava nervoso por ir defrontar o Congresso.
Quando, s quatro da manh, se sentou no seu escritrio em Greenwich, de olhar perdido no vazio da noite para l da janela, continuava a pensar nos ltimos relatrios. 
Quanto desejava ter algum com quem pudesse discuti-los! No conhecia pessoalmente os homens das equipas de pesquisa alem e Sua, e no estava em boas relaes 
com o novo homem de Paris. Claro que Frank o contratara por ser malevel, um yes-man, mas era tambm difcil de entender e to cientfico em tudo que escut-lo era 
para Peter como ouvir falar Japons. Ocorreu-lhe ento uma ideia e percorreu o Rolodex da
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sua secretria. Ser que tinha o nmero em casa? Tinha.
Eram dez horas da manh em Paris, com alguma sorte
encontr-lo-ia. Chamou-o pelo seu nome quando o
atendedor respondeu. O telefone tocou duas vezes, com um som de rob amigvel, e logo ouviu a voz familiar.
- All? - Era Paul-Louis. Peter ligara para a nova companhia onde trabalhava.
- Ol, Paul-Louis - saudou-o, com voz cansada. Para si, eram quatro horas da madrugada e a noite fora infindvel. Iria Paul-Louis ajud-lo a tomar uma deciso com 
que finalmente se sentisse em paz? Era essa a nica razo do seu telefonema. - Fala Benedict Arnold.
- Qui? All? Quem ? - perguntou, confuso, e Peter sorria ao elucid-lo.,
- Um traidor que foi fuzilado h muito tempo. Salut, Paul-Louis - disse, em francs. -  o Peter Haskell.
- Ali... d'accord. - Percebeu de imediato. - Ento, vai faz-lo? Obrigaram-no? - Adivinhara, mal o ouvira. A voz de Peter era a de um moribundo.
- Gostaria de dizer que me obrigaram - retorquiu, cavalheiresco, embora tivessem obrigado; mas era demasiado gentleman para o divulgar. - Ofereci-me, mais ou menos, 
por uma srie de razes. O Frank teve um ataque cardaco quase fatal, h perto de trs semanas. As coisas modificaram-se um bocado de ento para c.
-Estou a ver. Em que posso ajud-lo? - Trabalhava para uma firma rival, mas era realmente amigo de Peter. - Quer alguma coisa de mim? - perguntou, de rompante.
- Absolvio, acho eu, embora no a merea. Acabei de receber uns novos relatrios, parecem-me bastante bons, se  que os interpretei correctamente. Subs-
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titumos dois dos componentes e toda a gente pensa que resolvemos o problema. Mas h uns tantos resultados esquisitos que no tenho a certeza de compreender e pensei 
que talvez voc pudesse esclarecer-me. No h ningum aqui com quem possa discutir com imparcialidade. O que eu quero saber  se vamos matar algum com o Vicotec. 
Basicamente,  isto. Quero saber se voc ainda o acha perigoso, ou se estamos agora no caminho certo. Tem tempo para me dar uma ajuda? - No tinha, mas para Peter 
estava disposto a arranj-lo. Pediu  sua secretria que suspendesse todos os seus telefonemas e um instante depois estava de novo em linha.
- Mande-me j um fax. - Peter f-lo e seguiu-se um longo silncio, enquanto Paul-Louis o lia. Durante a hora que se sucedeu, andaram s voltas com o resultado da 
pesquisa, Peter a responder a todas as perguntas que lhe era possvel. Por fim, houve outro longo silncio; Paul-Louis ordenava as suas ideias. -  muito subjectivo, 
sabe? No ponto a que chegaram, no h necessariamente uma interpretao bem definida.  um bom produto, no h dvida. Um produto maravilhoso que modificar as nossas 
capacidades de luta contra o cancro. Mas h elementos adicionais que tm de ser avaliados.  essa avaliao que  muito difcil dar-lhe. Nada na vida  seguro. No 
h nada sem riscos, ou custos. A questo  saber se esto preparados para os enfrentar. -A sua filosofia era muito francesa, mas Peter compreendeu-o.
-Para ns, a questo  a amplitude do risco.
- Percebo. - Compreendia perfeitamente. Fora para isso que alertara Peter em Junho, quando da sua estada em Paris. - A nova pesquisa  boa, sem a mnima
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dvida. Esto no bom caminho, agora... - O tom da sua voz baixou enquanto, de sobrolho franzido, acendia um cigarro. Todos os cientistas que Peter conhecera na
Europa eram fumadores.
- Mas j l chegmos? - insistiu Peter, hesitante quase temendo a resposta.
- No... ainda no - respondeu-lhe Suchard, com pena. - Talvez no tarde, se prosseguirem nessa direco. Mas ainda l no chegaram. Na minha opinio, o Vicotec 
continua a ser perigoso, sobretudo em mos inexperientes. - Que eram precisamente as mos a que se pretendia que fosse destinado. Estava a ser fabricado para uso 
por leigos, em casa se necessrio. Ou seja, para fazer quimioterapia em casa, sem necessidade do recurso a hospitais, ou mesmo a mdicos.
- Ainda  um assassino, Paul-Louis? - Fora esse o nome que lhe dera em junho. Poderia voltar a d-lo.
-Acho que sim. - Na outra ponta do fio, a voz soava pesarosa, mas ntida. - Ainda l no chegaram, Peter. Dem-lhe tempo. Vo conseguir.
-E a apresentao?
- Quando ?
Peter consultou o relgio. Eram cinco da manh
-Daqui a nove horas. s duas da tarde. Saio de casa daqui a duas horas. - Ia apanhar o avio das oito, tencionava comparecer no Congresso s onze.
-No o invejo, meu amigo. Pouco mais posso acrescentar. Se quiser ser sincero, tem de lhes dizer que
ser um medicamento maravilhoso, mas que ainda no est pronto. Que continuam a trabalh-lo.
- No se vai  FDA para dizer isso. Vai-se para pedir autorizao para testes clnicos imediatos, baseado nos nossos testes laboratoriais. O Frank quer o produto
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no mercado logo que tenhamos passado por todas as fases das experincias em seres humanos, uma vez obtida a autorizao da FDA.
Na outra extremidade, Suchard assobiou.
- Isso  assustador. Porque  que ele est a pressionar tanto?
- Quer reformar-se em janeiro. E ter a certeza de que deixa tudo bem encaminhado. O Vicotec devia ser o seu presente de despedida  humanidade. E o meu. Em vez disso, 
parece-me uma bomba-relgio.
- isso, Peter. Voc tem de o saber.
-Sei. Mas ningum me d ouvidos. Ele diz que abandona o produto antes do fim do ano se no estivermos prontos para o usar nos seres humanos. Mas continua a insistir 
na nossa ida a Washington. Para lhe falar com franqueza,  uma longa histria. - Tinha a ver com o ego do velho, e um risco de negcio estimado num bilio de dlares. 
S que neste caso, os clculos de Frank no eram vlidos, baseavam-se apenas no seu ego. Um acto perigoso que podia destruir por completo a companhia, mas ele insistia 
em recusar-se a admiti-lo. E o estranho era ser to claro para Peter. A teimosia de Frank raiava a insanidade. Talvez estivesse a ficar senil, ou apenas brio de 
poder, quem sabe!
Agradeceu a Paul-Louis a sua ajuda, o francs desejou-lhe sorte; depois desligou e foi fazer caf. Restava-lhe a opo de recuar, mas no via como. Tambm podia 
ir aos interrogatrios e depois demitir-se da Wilson-Donovan, mas isso no protegeria as pessoas que tentara ajudar e era agora forado a pr em perigo. O problema 
residia em no acreditar que Frank cancelasse as experincias em seres humanos se os testes laboratoriais no melhorassem radicalmente no futuro prxi-
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mo. Algo dizia a Peter que ele estava disposto a jogar. Havia muito dinheiro em perspectiva, qualquer que fosse o risco para a vida humana. A tentao era agora 
demasiado forte.
Um pouco mais tarde, Katie ouviu mexer-se e apareceu na cozinha antes de o despertador tocar. Encontrou Peter sentado  mesa, com a cabea apoiada numa mo, a beber 
a sua segunda chvena de caf. Nunca antes o vira naquele estado: tinha um aspecto pior do que o do pai logo a seguir ao ataque cardaco.
-Porque ests to preocupado? - Ps-lhe a mo no ombro. Mas era muito difcil explicar-lhe; obviamente ela no compreenderia nada, nem se esforaria por compreender. 
- Vai estar tudo passado num abrir e fechar de olhos. - Falava como se se tratasse de um cano roto, e no da violao de tudo aquilo em que consistiam os seus valores. 
A sua tica, a sua integridade, os seus princpios, tudo estava em causa, e a mulher no conseguia entend-lo. Quando ela se sentou do lado oposto da mesa, olhou-a, 
infeliz; na sua camisa de noite cor-de-rosa, aparentava a disposio e a calma de sempre
-Estou a agir por razes absolutamente erradas Katie. No por estar bem, ou porque estejamos prontos para o fazer. Estou a faz-lo por ti, e pelo teu pai. Sinto-me 
na pele de um tipo da Mfia.
- Que frase odiosa! - Aborrecera-a. - Como podes fazer uma comparao dessas? Ests a agir como ests, porque sabes que  o correcto e porque o deve ao meu pai.
Voltou a sentar-se na cadeira da cozinha e fitou-a Que futuro seria o deles,  velocidade a que iam? No brilhante, pelo que via ultimamente. Percebia agora co-
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mo Olivia se sentia ao dizer que se vendera a Andy. Era uma vida construda sobre mentiras e fingimentos. E, neste caso, chantagem.
- O que  que vocs dois parecem pensar que vos devo? - interrogou, calmo. - O teu pai d a entender que eu lhe devo imenso. Tanto quanto pude verificar ao longo 
destes anos, houve uma troca correcta: eu trabalho arduamente para a companhia e sou pago por isso. E ns dois temos um casamento real, pelo menos era o que eu pensava. 
Mas nos ltimos tempos, esse conceito de "dvida" parece interferir nas coisas. O que acha exactamente cada um de vocs que eu "devo", para ter de ir a esta apresentao?
-Tens de ir porque... - Avanava com muito cuidado, o terreno era perigoso, um campo de minas potencial. - Porque a companhia  boa para ti h vinte anos e esta 
 a tua forma de o retribuir, apoiando um produto que pode dar-nos bilies.
- ento esse o fulcro da questo? Dinheiro? -Sentia-se doente ao fazer-lhe a pergunta. Fora por isso que se vendera? Bilies. Ao menos, no se vendera barato, pensou, 
estremecendo.
-Em parte. No podes ser ingnuo a esse ponto, Peter. Tu tens participao nos nossos lucros. Afinal,  o que todos ns queremos. E pensa nos filhos. O que lhes 
aconteceria? Irias arruinar-lhes tambm as vidas. -Muito fria, muito calculista, e muito dura. E apesar de toda a conversa a respeito do pai, ainda se preocupava 
com o dinheiro.
-  curioso. Passou-me pela cabea a ideia louca de que se tratava do bem da humamidade, ou no mnimo de salvar vidas. Acho que foi por isso que trabalhei, que lutei 
pelo produto nos ltimos quatro anos. Mas
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no estava disposto a mentir por ele, nem estou. E agora ainda  menor a minha inclinao, "por dinheiro".
- Ests a recuar? - Parecia aterrorizada. Ela prpria iria  apresentao e aos interrogatrios se pudesse. Mas no era empregada da companhia, o pai continuava 
demasiado doente para ir; tudo dependia de Peter. -Sabes, eu pensei muito a srio antes de me meter nisto. - De p, olhava-o fixamente. - Acho justo dizer-te que, 
se nos desapontares, o teu brilhante futuro na Wilson-Donovan est praticamente liquidado.
-E o nosso casamento? - Peter brincava com o fogo, e no o ignorava.
- Logo se ver - respondeu ela, imperturbvel.
Mas, para mim, seria o mximo da traio. - Percebeu o significado das suas palavras; e de sbito, s de olh-la, sentiu-se melhor. Fora to rude e to clara, to 
aquilo que sempre tinha sido, embora ele nem sempre o tivesse visto.
-  bom saber em que p estamos, Katie - replicou, sereno, olhando-a atravs da mesa da cozinha, cada um do seu lado. E antes que ela tivesse tempo para qualquer 
rplica, apareceu Patrick para o pequeno-almoo.
- O que  que vocs esto a fazer a p, to cedo? -perguntou, ensonado.
-A tua me e eu vamos a Washington.
- Ah, esqueci-me. O av tambm vai? - Patrick bocejou e encheu um copo de leite, enquanto ia falando.
- No, o mdico acha que  cedo de mais - explicou Peter.
Frank telefonou uns minutos mais tarde. Queria apanhar Peter antes de este sair, e lembrar-lhe o que desejava que ele dissesse ao Congresso sobre a fixao de
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preos. j tinham discutido o assunto uma dzia de vezes nos ltimos dias, mas Frank pretendia assegurar-se de que o genro apoiaria a posio certa.
- No vamos ceder em nada e, claro, isto refere-se tambm ao Vicotec, quando aparecer. No te esqueas -sublinhou, obstinado. At as suas ideias quanto ao preo 
a atribuir ao Vicotec iam contra tudo aquilo em que Peter acreditava. Katie observava-o quando voltou para a mesa.
- Tudo bem? - Sorriu-lhe, enquanto ele abanava a cabea, em assentimento. E ambos foram vestir-se e partiram para o aeroporto meia hora depois.
Peter mostrou-se estranhamente calmo durante todo o caminho e pouco falou com Kate. Aterrara-a por uns segundos, mas ela compreendia que estivesse nervoso. Receava 
que voltasse com a palavra atrs, mas agora tinha a certeza de que no o faria. Peter acabava sempre aquilo que comeava.
O voo de La Guardia at ao Aeroporto Nacional era curto, e Peter passou a sua maior parte enfronhado nos papis. Tinha vrios registos de fixao de preos na sua 
frente e todos os novos relatrios de pesquisa do Vicotec. Debruou-se em especial sobre as partes que Suchard lhe apontara de madrugada, quando lhe telefonara. 
O problema do Vicotec preocupava-o muito mais do que a comparncia no Congresso.
Do avio, Katie telefonou ao pai e assegurou-lhe que tudo corria como previsto. Em Washington, esperava-o uma limusina, que os levou ao Congresso. Mal l chegaram, 
Peter sentiu-se muito mais tranquilo. Sabia mais ou menos o que ia dizer-lhes, e na verdade no estava apreensivo. Dois adjuntos esperavam-no na sala dos funcionrios; 
foi conduzido a uma sala de conferncias,
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onde lhe ofereceram um caf; Kate estava ainda consigo, mas pouco depois veio um contnuo busc-la para a escoltar at um lugar na galeria, de onde poderia observar 
Peter. Desejou-lhe boa sorte, tocou-lhe na mo ao sair, mas no parou para o beijar. Passado um momento foi a vez de ele ser conduzido para a sala e, por um mo mento, 
sentiu-se amedrontado. No importava a sua boa preparao; continuava a ser uma experincia extraordinria enfrentar os homens e as mulheres que dirigiam o pas, 
e dar-lhes opinies. Era apenas a segunda vez que ali se encontrava e, da primeira, fora Frank quem falara. Hoje, era completamente diferente.
Peter foi conduzido a uma tribuna de testemunhas prestou juramento. Os membros da subcomisso estavam sentados  sua frente, com microfones; depois de ele ter dito 
o seu nome e o nome da sua companhia comeou sem mais delongas o interrogatrio, com o membros do Congresso muito atentos.
Fizeram-lhe perguntas especficas sobre certos medicamentos e sobre o seu ponto de vista em relao aos elevadssimos preos. Tentou apontar razes facilmente compreensveis 
mas, de facto, at aos seus prprios ou vidos soavam irreais e algo fteis. A verdade era que companhias que os produziam estavam a fazer fortuna sobrecarregando 
o pblico, e os membros do Congress sabiam-no. A Wilson-Donovan tambm tinha a sua quota-parte de culpa, embora as suas prticas e os seus lucros no fossem to 
gritantes como os de algumas outras.
Discutiram depois alguns problemas com os seguros e, mesmo no fim, uma congressista de Idaho disse ter conhecimento de que ele ia apresentar-se  FDA ness mesmo 
dia, para pedir testes humanos imediatos para
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um novo produto. E s para os manter informados dos novos avanos do ramo, agradecia que ele lhes desse uma ideia do que se tratava.
Peter explicou-lhes com a maior simplicidade de que foi capaz, sem entrar em tecnicismos, nem pr em causa quaisquer segredos; e informou os membros do Congresso 
de que o produto iria alterar a natureza da quimioterapia e torn-la acessvel a acamados, sem necessidade de assistncia profissional. As mes poderiam administr-lo 
aos filhos, os maridos s mulheres ou, com cuidado, qualquer um poderia administr-lo a si prprio. Uma revoluo no tratamento de todos os doentes de cancro. Dar 
ao homem comum a capacidade de se tratar, e tratar a sua famlia, em reas rurais ou urbanas, onde quer que fosse preciso.
-E o "homem, comum", usando a sua expresso, poder suportar o seu custo? Acho que  esse o ponto principal. - Falara outro congressista, e Peter abanava a cabea, 
numa afirmao.
- Esperamos bem que sim.  um dos nossos objectivos para o Vicotec atribuir-lhe um preo to baixo quanto possvel, fazer com que esteja ao alcance de todos quantos 
dele precisem. - Desprendia-se serenidade e firmeza das suas palavras, e vrias cabeas abanavam, em aprovao, ao escut-lo. Fizera um testemunho sabedor e decisivo, 
provocando uma boa impresso. Pouco depois agradeceram-lhe e dispensaram-no; todos os da subcomisso lhe apertaram a mo e desejaram boa sorte com a FDA nessa tarde, 
para o seu notvel produto. Peter saiu contente e voltou para a sala de conferncias atrs de um adjunto. Passado pouco, Katie juntava-se-lhe.
-Porque  que disseste aquilo? - foi a sua per-
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gunta infeliz, em voz baixa, enquanto ele ordenava o seus papis. Deveria felicit-lo, ou dizer-lhe como se sara bem. At os estranhos o haviam feito. Mas a sua 
mulher fitava-o com uma reprovao que mal escondia. Ao olh-la, era como se tivesse Frank  sua frente. - Falaste como se o Vicotec fosse para ser oferecido. Sabes 
que no era essa a impresso que o pai queria que transmitisses aqui. Vai ser um medicamento caro. Tem de ser, se queremos recuperar o nosso dinheiro e obter o
lucro que merecemos. - No seu olhar transparecia o calculismo e a dureza.
- No vamos falar nisso - interrompeu-a Peter. Pegou na pasta, agradeceu aos adjuntos e abandonou
edifcio, com Katie mesmo atrs de si. No tinha nada a dizer-lhe, porque ela nada perceberia. Compreendia lucro nos medicamentos que vendiam, mas no o se mago, 
percebia as palavras, mas no o que significavam. Agora, porm, tambm ela no se atrevia a espica-lo. Peter ultrapassara com xito um obstculo, mas tinha pela 
frente o maior, a apresentao e os interrogatrios da FDA. Restava-lhes pouco mais de uma hora quando entraram na limusina.
Katie sugeriu que fossem almoar a qualquer stio, mas Peter limitou-se a abanar a cabea. Pensava no que ela acabara de dizer, aps o interrogatrio do Congresso. 
Na opinio da mulher, deitara tudo a perder. Falharam, no apoiara a posio certa que consistiria em manter o Vicotec e todos os seus outros medicamentos to caro 
quanto possvel, para assim obterem com eles um lucro colossal, e para agradar ao pai. Peter estava contente por ter dito o que dissera, e ia lutar como um leo 
nos prximos meses para conseguir um preo baixo para o Vicotec. Frank no fazia a menor ideia de quanto ele poderia ser inflexvel nesse ponto.
Acabaram por comer sanduches de rosbife na limusina, com caf em copos de papel. E quando o carro parou na FDA, no nmero 5600 de Fischers Lane, em Rockville, Maryland, 
Katie achou Peter nervoso. Tinham levado meia hora de Capitol Hill at l e, ao chegarem, Peter reparou que o edifcio no era bonito; mas passavam-se l dentro 
coisas importantes, e s isso lhe ocupava o esprito. Continuava a matutar no que iria passar-se. No que l fora fazer. No que prometera a Frank e a Katie. A promessa 
que lhes fizera no fora espontnea, mas estar ali era muito pior, ciente de que ia esconder da FDA uma falha perigosa, ao garantir-lhes que o medicamento estava 
pronto a ser disponibilizado para um pblico confiante. Rezava para que Frank honrasse a sua parte do acordo e, se necessrio, pusesse de lado o produto.
Foi com as palmas das mos a suar que Peter entrou na sala de interrogatrios; estava demasiado enervado para reparar nas pessoas presentes. No dirigiu uma palavra 
a Katie quando esta o deixou e foi para o seu lugar. De facto, esquecera-a por completo. Tinha uma tarefa importante a executar, ideais a sacrificar, princpios 
a renegar. E todavia, se o produto resultasse, salvariam vidas, ou pelo menos poderiam prolong-las. Mesmo assim, o dilema era terrvel para ele, sabendo o que sabia 
e, simultaneamente, at que ponto o medicamento era necessrio.
Peter no prestou juramento; porm, ali, na FDA, verdade era ainda mais crucial. Ao olhar em redor, sentiu-se tonto. Mas ao menos agora sabia o que o esperava. E 
no demoraria muito. Tinha esperana de que a sua traio ao povo que desejaria ajudar levasse apenas uns minutos, embora receasse que fosse bastante mais longa.
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Tremiam-lhe as mos enquanto esperava que a comisso consultiva iniciasse as suas perguntas. Era a mais aterradora experincia da sua vida, em nada comparvel  
comparncia perante o Congresso nessa mesma manh. Fora to inofensivo e to simples, comparado com isto! A sua presena na FDA afigurava-se-lhe ominosa, estava 
tanto em jogo, um peso to grande sobre os seus ombros! No parava de dizer para com os seus botes que tudo o que tinha a fazer era suportar aquela tenso. No 
podia permitir-se pensar em ningum, nem em Katie, nem em Frank, nem em Suchard, nem sequer nos relatrios que lera. Devia levantar-se e apresentar Vicotec, e sabia 
tudo sobre ele; sentado  mesa comprida e estreita, aguardava, ansioso.
Ento, inesperadamente, pensou em Katie e em tudo o que sacrificara por ela, e pelo pai dela. Fizera-lhes a ddiva da sua integridade e da sua coragem. Era mais 
do que "devia" a qualquer um deles, a ela ou ao pai.
Forou-se, uma vez mais, a afast-la do pensamento e tentou assentar as ideias. O presidente da comisso comeara entretanto a falar. O corao de Peter quase explodia, 
enquanto eles lhe faziam uma srie de perguntas muito especficas e tcnicas relacionadas com a razo da sua presena ali. Explicou clara e sucintamente, e num tom 
de voz forte, que viera pedir-lhes a aprovao para testes em seres humanos de um produto que acreditavam que iria modificar a vida dos cidados americanos atingidos 
pelo cancro. Houve uma ligeira agitao por parte dos membros da comisso, um roagar de papis um olhar de interesse, quando ele comeou a descrever o Vicotec e 
como este poderia ser usado por doentes com cancro onde quer que estivessem. Disse-lhes, no essencial, o mesmo que dissera ao Congresso, de manh
A diferena residia em que estas pessoas no iam deixar-se impressionar por uma amostra superficial de medicina. Queriam, e estavam habilitados a compreend-los, 
todos os mais complicados pormenores. E, passado um pouco, Peter reparou com espanto, ao olhar o relgio na parede quando lhe fizeram a ltima pergunta, que falara 
durante uma hora.
- E acredita de facto, Mister Haskell, que o Vicotec est pronto para ser testado em seres humanos, mesmo em pequenas doses e num nmero reduzido de pessoas, informadas 
do risco que correm? Acha na verdade que avaliaram a fundo a natureza de todas as suas propriedades e que no h risco algum? D-nos a sua palavra de honra, Mister 
Haskell, de que julga, sem a menor hesitao, o produto realmente pronto para testes em seres humanos, neste momento?
Peter ouviu a pergunta com clareza e viu o rosto do homem que lha fizera, sabia qual a resposta a dar. Fora para isso que viera. Tratava-se de uma simples palavra, 
de lhes assegurar que o Vicotec era de facto tudo aquilo que dissera e tudo o que haviam desejado que fosse. Bastava-lhe Jurar-lhes, a eles, guardies da segurana 
do povo americano, que o Vicotec no lhes causaria danos. Relanceou o olhar pela sala, a pensar nos que nela se encontravam, e nos seus maridos e mulheres, nas suas 
mes e nos seus filhos, e no nmero infinito de pessoas a cujas mos o Vicotec chegaria; e percebeu que no podia faz-lo. Nem por Frank, ou por Katie, ou por quem 
quer que fosse. Acima de tudo, por si prprio. Varreu-se-lhe do esprito qualquer dvida: nunca deveria ter vindo. Custasse-lhe o que custasse, dissessem o que dissessem, 
tirassem-lhe ou fizessem-lhe os Donovan fosse o que fosse, no podia. No podia mentir quelas pessoas
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acerca do Vicotec, ou acerca de qualquer outra coisa. Ele no era assim. E estava perfeitamente seguro do que ia fazer, quando o fez. Tinha a certeza absoluta de 
que, nesse preciso momento, a sua vida inteira ia por gua abaixo, o seu emprego, a sua mulher, talvez at os seus filhos, ou esses no, se tivesse sorte. Eram quase 
adultos, tinham de compreender as razes do seu pai. E se no pudessem, ou no entendessem que a integridade no tem preo, ento  porque errara com eles. Em qualquer 
caso, estava disposto a pagar o preo exigido pela sua franqueza para com o povo americano.
-No, senhor, no posso - respondeu com determinao. - No posso dar-lhes ainda a minha palavra. Espero poder um dia, muito em breve. Penso que crimos um dos melhores 
produtos farmacuticos jamais vistos no mundo, e desesperadamente necessrio aos doentes de cancro de todo o planeta. Mas no creio que estejamos ainda isentos de 
riscos.
- Ento, no pode esperar que lhe concedamos, desta vez, a autorizao para a chamada Fase Um das Experincias em Seres Humanos, pois no, Mister Haskell? - O membro 
mais velho da comisso consultiva parecia confuso, um leve furor espalhava-se pelo resto da comisso, interrogavam-se entre si sobre a razo da vinda de Peter. No 
era costume usarem-se os interrogatrios da FDA como frum para publicitar produtos inacabados. Por fim, admiraram a sua honestidade, sem nenhum deles suspeitar 
de que chegara a estar em questo. Na sala, apenas havia um rosto contrado de fria. E haveria outro em casa, quando ela lhe contasse que Peter os trara.
- Quer que lhes marquemos outra data, Mister Haskell? Talvez seja mais apropriado do que perdermos
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mais tempo agora. - Tinham uma agenda cheia a cumprir. Peter fora o primeiro da tarde, seguiam-se muitos outros.
- Gostaria muito, senhor. Penso que seis meses  um prazo realista. - Mesmo assim seria apertado, mas,
de acordo com o que Paul-Louis dissera, Peter achou
que conseguiriam.
- Obrigado por ter vindo. - E com estas palavras
despediu-o e acabou-se tudo. Saiu da sala com os joelhos a tremer, mas de costas direitas e cabea erguida,
sentindo-se um ser humano decente. Essa sensao era a
nica que lhe restava, no o ignorava.  distncia, viu
Katie  sua espera e encaminhou-se para ela. No lhe
passava pela cabea que a mulher lhe perdoasse. Cor-
riam-lhe lgrimas pela cara e Peter no teve a certeza se
eram lgrimas de raiva ou de desapontamento, prova-
velmente de ambas as coisas, mas no tentou reconfor-
t-la.
- Desculpa, Katie. No planeei nada. Senti-me
mal, e s ento tomei conscincia: estar ali, de p, em
frente deles, e a mentir-lhes. Era um grupo impressio-
nante. No pude faz-lo.
- Nunca to pedi - mentiu ela. - S queria que
no trasses o meu pai. - Depois, olhou-o com tristeza.
Fora o ponto final. Para ambos. O marido no estava
disposto a assumir mais compromissos por ela, a renun-
ciar quilo em que acreditava. Nunca, at quele mo-
mento, se apercebera de quanto fora longe. - Tens
consciencia do que fizeste ali? - perguntou, com deli-
cadeza, pronta a defender at  morte o pai, mas no o
marido.
- Posso imaginar. - Ela j o esclarecera nessa ma
nh, do outro lado da cozinha, em Greenwich. E Peter
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no vacilou. De certa maneira, era o que pretendia. Liberdade.
- s um homem honesto - concedeu-lhe Katie, olhando-o nos olhos. Mas, vinda da sua boca, a frase soava a acusao. - Mas no um homem esperto.
Abanando a cabea, Peter concordou; ela virou-lhe as costas e, sem se voltar uma nica vez, afastou-se. No a seguiu. H muito que terminara e nenhum dos dois dera 
por isso. Quase nem sabia se ela chegara a estar casada com ele, talvez s com o pai.
Tinha muito em que pensar quando saiu do edifcio da FDA, em Rockville. Katie desaparecera na limusina, deixando-o sozinho em Maryland, a meia hora de Washington. 
Mas no se importou. Nada. Era um dos dias mais marcantes da sua vida, sentia-se com asas. Fora testado e, no seu esprito, passara com distino... D-nos a sua 
palavra de honra... No, no dou. Ainda lhe parecia um sonho t-lo feito e no sabia porque no se sentia pior em relao a Katie, mas o facto  que tal no acontecia. 
Acabara de perder o emprego, a mulher, a casa. Comparecera ao Congresso nessa manh e  FDA nessa tarde, na qualidade de presidente de uma companhia internacional, 
sara de mos a abanar, desempregado e s. De seu, apenas tinha a sua integridade e a sua certeza de que no se vendera. Ganhara!
Parado, contemplando sorridente o cu de Setembro, sobressaltou-o uma voz mesmo atrs de si. Uma voz familiar mas estranha, com uma certa rouquido que vinha de 
um outro tempo, de um outro lugar. Virou-se... e viu Olivia.
- O que ests tu a fazer aqui? - perguntou, desesperado por abra-la, mas com medo de o fazer. -Julgava-te em Frana, a escrever. - Bebia-a com os olhos
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como se ela fosse vinho, e ela olhava-o esboando um sorriso. Vestia calas e camisola pretas e, pelos ombros, um casaco encarnado. Parecia o anncio de qualquer 
coisa muito francesa e Peter s pensava na noite em que a seguira desde a Place Vendme e em tudo o que acontecera nos cinco dias que passara em Paris, cinco dias 
que haviam alterado para sempre as suas vidas. Estava ainda mais bonita agora e, ao olh-la, Peter tomou conscincia do quanto sentira a sua falta.
- Correu tudo muito bem, aqui - disse, sorrindo-lhe mais abertamente. Era bvio que se orgulhava dele, mas no respondera  sua pergunta. Viera apoi-lo, ainda que 
anonimamente, nos interrogatrios. Lera a notcia da sua apresentao no Herald Tribune, na Europa. E no encontrava explicao para o que a impelira a estar presente. 
Sabia quanto o Vicotec significava para ele, e o problema que lhe causara na poca em que se conheceram. Quisera estar presente. O irmo dissera-lhe onde teriam 
lugar os interrogatrios e arranjara maneira de ela assistir. Agora, dava graas por ter seguido o seu instinto. Edwin tambm lhe falara do Congresso; vira-o l, 
nessa manh. Ficara sentada muito perto do irmo. E embora sem perceber o seu interesse sbito pela indstria farmacutica, Edwin no lhe fizera qualquer pergunta. 
,
-Es mais corajoso do que pensas - recordou-lhe Olivia erguendo para ele o olhar. Peter puxou-a devagar para si, perguntando a si prprio como sobrevivera sem ela 
nos ltimos trs meses e meio. No podia imaginar voltar a deix-la, nem por um segundo.
- No, corajosa s tu - replicou, terno, cheio de admirao por ela. Desistira de tudo, virara as costas, no assumira compromisso algum. Foi ento que se aper-
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cebeu de que acabava de fazer o mesmo. Desistira da mulher, do emprego, de tudo, por aquilo em que acreditava. Eram ambos livres. A um preo alto, admita-se, mas 
para ambos valera a pena. - O que fazes es ta tarde? - Sorria maliciosamente ao perguntar-lhe Ocorriam-lhe milhares de coisas, o Washington Monument... o Lincoln 
Memorial... um passeio ao longo do Potomac... um quarto de hotel em qualquer stio, o ficar ali, a olh-la para sempre... ou um avio de regresso a Paris...
- No fao nada. Vim para te ver - respondeu -lhe com doura. No esperara sequer falar com ele apenas v-lo  distncia. - Vou-me embora amanh. -Nem os pais informara 
da sua vinda, s Edwin; e ele prometera no lhes dizer. Viera s para ver Peter de relance, voltar a v-lo por um minuto ou dois, mesmo que ele nunca viesse a sab-lo.
- Posso oferecer-lhe um caf?
Recordando a Place de la Concorde e aquela primeira noite em Montmartre, sorriam os dois quando Peter lhe pegou na mo e comearam a descer os degraus, a caminho 
da liberdade.

Carla Maria Ferreira dos Mrtires

2001-07-23
